Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Entregues à bicharada

Segundo o que o “Público” escreve e a TSF confirma, o deputado Duarte Lima encarregou-se ontem de proferir um animado discurso em que clamava pela restrição das escutas telefónicas a “crimes de terrorismo organizado, de tráfico de droga e crimes de sangue”. Não pensem que a descontextualização altera a intenção do impoluto político: ele confirmou depois que quer ver as escutas “exclusivamente” limitadas a estes três tipos de crime. De fora ficariam, tão somente, os crimes de corrupção, de peculato, de abuso de poder… precisamente as malfeitorias de que “políticos” como Fátima Felgueiras ou Isaltino têm sido acusados. Até aqui, nada de anormal. O homem tem contas a ajustar, relativas a outros tempos, ainda na memória de muitos.
Incrível mesmo é que os bonecos de votar do PS, do PSD, do CDS e do BE se tenham erguido em unânime aplauso a tal ideia. Uma das criaturas do PS chegou a gabar a “sapiência” e a “coragem” de Duarte Lima! Fernando Rosas manifestou o seu deslumbre com o tradicional “muito bem!” Até Ana Drago tratou de parabenizar o autor de tão descarada sugestão. Este, aproveitando a embalagem, teve ainda tempo para alvitrar que as magistraturas devem vir a ser colocadas em boas, desinteressadas e capazes mãos: as dos políticos, claro está.
No mesmo “Público”, pode ler-se um relato sobre o estado actual do famoso concurso dos helicópteros para o SNBPC: o Estado arrisca-se a ter de pagar o serviço ao vencedor do concurso e também a uma empresa que dele foi excluída em circunstâncias perfeitamente incríveis. E, para deixar este ramalhete de histórias deploráveis por aqui, soubémos ontem que a comissão de inquérito sobre o caso Eurominas foi fechada à pressa e à má fila pelo PS.
Estamos bem entregues, sim senhora.

Olha um livro!

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São narrativas curtas, argutas, maliciosas, estas Histórias e Morais, de JOSÉ ANTÓNIO FRANCO (Pé de Página Editores). Metem bichos mais ou menos domésticos, animais da selva, mouras encantadas, assassinos e ladrões. Acontece as personagens recusarem-se a entrar em cena, ou saírem dela deixando em grande atrapalhação o contador.

Um muito sumário aparelho gráfico dá, logo de entrada, um recado de descontracção e de jogo. E de vulnerabilidade. Veja-se esta versão muito apócrifa do «Capuchinho Vermelho».

o bosque e o jornalista

uma rapariga de saia castanha curta ia um dia num passeio pela floresta quando de repente um lobo alto e espadaúdo lhe saltou ao caminho uivando que nem um louco esfaimado assustada a rapariga escondeu-se atrás de uma árvore mas o lobo saltou para junto dela e perguntou-lhe quantos anos tens dezoito onde vais ao centro comercial comprar uma saia quem te deu o dinheiro ninguém é meu tu trabalhas não então onde o arranjaste foi a tia isaura que mo deu pelo natal então alguém to tinha dado para que queres tu a saia se já tens uma tão linda esta está muito velha e não tens mais nenhuma tenho muitas mais mas também estão muito usadas
estiveram assim a conversar durante algum tempo e acabaram por seguir cada um o seu caminho depois de uma cordial despedida
entretanto um homem que fazia reportagens e que andava por ali perto quando viu de longe os dois a conversar telefonou imediatamente para a equipa de segurança da floresta que apareceu momentos depois num veloz jerico treinado para perseguições
no dia seguinte a notícia no jornal era assim adolescente de saia castanha impedida de visitar a avó por lobo esfaimado e de ombros largos mais à frente dizia ainda não fosse a pronta intervenção acidental de um repórter do nosso jornal e a imediata reacção das forças de segurança e o caso poderia ter tido um desfecho bem trágico

moral no bosque ande sempre com a avó

Dique

Top-5 do Blogómetro (hoje):

1- Aqui é só gatas
2- Sexo na Banheira
3- Pitas Nuas
4- Abrupto
5- Apanhadas na Net

Pacheco Pereira faz-me lembrar a criança holandesa daquela velha história moral, aguentando com o dedinho na fenda o dique da blogosfera, enquanto do lado de fora há um oceano de pornografia a querer entrar. E o pior é que até esta imagem tão cândida, hélàs, se torna abruptamente suspeita.

Confissões de um duro ouvido

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Hoje, o “Fórum TSF” tinha uma pergunta algo exótica para interpelar os seus ouvintes: “com que coisa do nosso mundo se parece a música de Mozart?”
Aquilo pareceu-me um pouco tonto. Até que me surgiu uma resposta clara, em forma de imagem: a música de Mozart faz-me lembrar um ovo de Fabergé. A mesma perfeição formal; a mesma sensação de nada ali faltar nem estar a mais; a mesma admiração pelo génio, pela mente capaz de imaginar tais coisas. E a mesma sensação de tudo aquilo ser bonito demais, de tudo estar demasiado perfeito para o meu escasso gosto. Sei que cada ovo de Carl Fabergé é uma peça única, um feito irrepetível da sua arte. Mas não tenho grande vontade de ter um em casa.
Pronto. Já confessei: não gosto muito de Mozart. Agora podem flagelar-me em público.

É pá, eu não sou como o Pepe Carvalho, não queimo livros

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O estimado Raposo respondeu-me finalmente com muitas citações e insinua que eu quero queimar livros. Garanto-lhe que das minhas relações ideológicas só o detective Pepe Carvalho usava a biblioteca para fazer chama. O hábito dos autos de fé era mais para as suas bandas. Já que se deu ao trabalho de citar Leszek Kolakowski, autor dos três volumes sobre as “Main Currents in Marxism”, segue a resposta daqui a uns dias.
Finalmente, a sua ideia de que eu só leio gajos da minha tribo é comovedora. Parece-me que anda muito tenso, aconselho-lhe vivamente a ler este post sobre cenas de sexo na literatura, que a tensão é capaz de lhe passar.

O Bloco no seu labirinto

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Francisco Louçã teve um resultado pior do que aquele que o Bloco teve nas legislativas. Escaparam mais de 1% dos votos, grande parte deles jovens e urbanos. Ficou provado que uma parte do eleitorado do Bloco é volátil. A frase de campanha que ninguém é proprietário dos votos tem um reverso menos simpático: se as pessoas não se acham implicadas em causas comuns e num projecto político, isso quer dizer que têm uma relação de consumidor/espectador com a política e com o Bloco e não uma relação de sujeito da acção e de participante. Ora, o projecto político do Bloco implica a tentativa de construção de um nova organização que consiga responder a questões novas e evitar erros antigos. Esta construção não exige só a feitura de um programa de esquerda mais actual, mas sobretudo conseguir formas de ganhar, para a actividade política e para acção da Esquerda, importantes camadas da sociedade que se encontram privadas da capacidade de colocar a sua opinião.
Um tal movimento/partido tem de ter a capacidade de usar os novos meios e as tecnologias da comunicação, mas não pode ficar prisioneiro das mediações da comunicação. A política tem de existir para além da televisão e da comunicação social.
Um tal movimento político não se pode resumir à acção parlamentar tem que ganhar a rua. Tem que colocar muitas causas na ordem do dia e contribuir para uma nova hegemonia na luta das ideias.
Um partido de causas não deve ter a pretensão de ser a vanguarda de ninguém, mas tem de afirmar uma relação de “afinidade electiva” com os movimentos sociais e construir políticas e acções que dinamizem uma cidadania activa.
É preciso uma política que ultrapasse fronteiras nacionais, saiba responder às questões da ecologia, da precariedade do trabalho, da imigração, da privatização do genes e dos serviços públicos, dos novos meios de comunicação, e que se bata contra a política de guerra permanente do Império.
Os resultados das eleições presidenciais demonstraram que existe um elevado número de votos na esquerda (Alegre, Jerónimo e Louçã) que não se reconhecem nas políticas neo-liberais de Sócrates e que não se vão identificar com o sovaquismo (um híbrido de Sócrates com Cavaco). O papel do Bloco deve ser o de facilitador de convergências, construtor de pontes, tendo em vista a criação de novas plataformas plurais e de políticas de esquerda para a sociedade portuguesa. A capacidade de participar no necessário processo de reconstrução da esquerda portuguesa passa obrigatoriamente por abandonar todos os sectarismos. A forma como o Bloco conseguir acolher os seus militantes e simpatizantes que participaram nas campanhas de outros candidatos de esquerda é um sinal importante que é dado nesse sentido.

Terroristas no poder?

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Quem diria, há uns meses, que a situação no Médio Oriente iria dar esta cabriola: Sharon fora de combate e o Hamas pronto a assumir o poder na Palestina. Em Israel, ainda impera a incredulidade com a dimensão da derrota da Fatah, já à mistura com ameaças de cortes de fundos europeus e americanos à Palestina. É que ninguém esquece que o Hamas nunca reconheceu o direito de Israel à existência e continua a manter uma ala de activos terroristas.
Mas a realidade é sempre difícil de descrever por chavões. Há quase 3 anos, Pacheco Pereira, numa tirada amplamente aplaudida, sentenciava: “não há ‘dirigentes moderados’ numa organização terrorista, ponto”. Hoje, tenho oportunidade de repetir ipsis verbis o que então escrevi algures: ignorar que o Hamas é muito mais do que um grupo terrorista é simplesmente fechar os olhos à complexidade dos factos. É ignorar o que até a Anti-Defamation League constata no seu site: que o Hamas gere uma intrincada rede social, com hospitais, creches, escolas e caridades diversas. É ignorar a própria génese do movimento, surgido como oposição à notoriamente corrupta entourage de Arafat e então apoiado discretamente por… Israel.
Continua a ser instrutivo recordar o livro “The Palestinian Hamas”, escrito por dois académicos israelitas, com a sua explanação das dissensões internas que têm atravessado o Hamas, sempre oscilando entre dois pólos: a brutalidade pura e dura e a procura de soluções negociadas. (Um homem como Ismail Abu Shanab era um dos rostos deste último ponto de vista. Era; até Israel o matar.) O comentário da casa editora, a Columbia University Press, esse notório ninho de simpatizantes dos terroristas, é revelador: “desde que emergiu como desafiador da OLP durante a Intifada Palestiniana, o Hamas foi associado pela percepção pública ao terror e à violência. Agora, dois especialistas israelitas mostram que, ao contrário desta imagem, o Hamas é essencialmente um movimento político e social, fornecendo extensos serviços comunitários e respondendo constantemente às realidades políticas através de negociações (…)”
Por , passadas as primeiras ondas de choque, não sei bem qual vai ser a primeira “revolução” nos comentadores do costume: concluir que se calhar Arafat até não era assim tão mau, ou descobrir que, afinal, a Democracia talvez não seja mesmo sinónimo de paz e harmonia instantâneas…

Da história enquanto farsa

“-Peguem num exemplo histórico: o que distingue o fascismo português dos seus congéneres europeus? A priori, quase tudo os aproxima: contexto temporal, natureza de classe, até características precisas da ideologia e do funcionamento do Estado e do partido – o enquadramento das massas, o culto da personalidade, a militarização da vida social – you just name them. Mas como sempre, um olhar mais chegado à realidade observada permite descobrir diferenças significativas, nomeadamente as que resultam dos atavismos próprios às distintas variantes nacionais da espécie humana e que são aquelas em que eu me quero concentrar agora, por serem as mais ricas de ensinamentos e que maior valor explicativo possuem. Sem pretender de algum modo recuperar a memória do nosso fascismo, que foi justa e inapelavelmente condenado pela história, parece-me todavia evidente a sua benignidade relativamente a outras manifestações mais virulentas do género na Europa: tomem-se por termo de comparação o nazismo alemão com a sua demência genocida ou mesmo o franquismo espanhol com a sua sanguinolência incontinente e facilmente se entenderá o que pretendo afirmar. Coloca-se então a questão de saber porquê: Seremos nós melhores que os outros? Não, do ponto de vista moral nós somos tão maus quanto, porque em bom rigor tão mau é quem mata um como quem mata um milhão: o pequeno ou médio criminoso terá menos eficiência e menor notoriedade, concedo, mas uma dose de culpa igual à do grande. A razão é diferente: o que faz a nossa força (e nos torna menos maus que os outros, so to say) são justamente as nossas fraquezas, e o que nos safa é a nossa profunda e afinal tão estimável falta de convicção – o famoso “desinteresse” que Vaillant aqui descobriu na década de trinta e com o qual compôs, vinte anos depois, o seu Don Cesare. O “desinteresse”, como é sabido, é uma doença do sistema volitivo central que afecta a vontade e a crença e se exprime pela apatia e pelo cepticismo; entre nós, até as forças da repressão ele atacou. Pensem nas SS e na GNR, por exemplo: pensem primeiro em efebos correndo nus pelas florestas onde Armínio desbaratou as legiões de Augusto, à cata de fantasmas wagnerianos e de alguma paneleirice, e depois pensem nos gordos da GNR. (De novo a questão: serão estes melhores que aqueles? Não; os gordos eram igualmente perversos e até igualmente ridículos, apenas mais sornas e preferindo eventualmente cabeleireiras a rapazinhos). Ora enquanto o führerprinzip era um credo para ser levado a sério, e os nazis acreditavam mesmo nas parvoíces obscuras e complicadas que o Hitler inventou, com uma credulidade que fazia sorrir os seus homólogos nacionais, estes esforçavam-se apenas por viver “normalmente”, e o seu salazarismo não era mais do que uma mera conveniência, um expediente sem princípios elevados, e em última instância uma farsa; pois como disse a este propósito um erudito inglês, while some believed in the weirdest misteries, others believed in nothing but a succulent meal and a satisfying coïtus. Percebem?”

Benefícios da Aspirina B

No meio da apresentação mais importante dos últimos tempos, o projector recusa-se a colaborar com o portátil. Mudam-se os fios, mudam-se as máquinas: nada. Acabo de computador nos braços, passeando face aos dignos Clientes como uma daquelas mocinhas semi-desnudas que andam sempre de tabuleiro a tiracolo a vender charutos nos filmes de gangsters. Só mesmo se de repente apanhasse a síndroma de Tourette e desatasse a vomitar impropérios é que aquilo podia correr pior.
Neste momento acabrunhante, quando só desejo que desça das nuvens um disco voador que me leve para Urano, começo a sentir o efeito balsâmico do Aspirina B, através de um singelo pensamento: “isto agora está a parecer-me terrível. Mas mais logo hei-de escrever um post meio cómico sobre o episódio e a neura passa-me logo”.
Agora, aguardo em jubilosa esperança a última etapa deste processo terapêutico.

Manda a lista de livros sff

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Li no Acidental um simpático texto que me era directamente endereçado,em resposta a um post meu. Infelizmente, Henrique Raposo não se referiu a nenhuma das minhas críticas e, pelo que escreveu, nem sequer leu o texto.
Eu não critiquei Henrique Raposo por usar escritor liberais, eu apenas disse que ele não percebe nada de autores marxistas, TAL COMO EU TERIA DIFICULDADE EM CRITICAR UM LIBERAL, USANDO OUTROS PENSADORES LIBERAIS, QUE EU CONHEÇO POUCO.
Sobre as minhas críticas de substância, Henrique Raposo não respondeu a nada. E mais grave, não me enviou a listinha de obras para me libertar do Espada.
Junto deixo os dois textos para as restantes pessoas ajuizarem.

Continuar a lerManda a lista de livros sff

Qualquer dia é ministro?

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Contaram-me amigos que num país distante, há bué, bué, tempo, publicavam-se uns jornais maoístas. Num deles, vários redactores descobriram que havia um camarada deles que mandava falsas cartas de leitores, assinando com nomes inventados, criticando desvios pequeno-burgueses dos outros jornalistas-militantes e elogiando a “firmeza revolucionária” do abnegado… ele próprio.
Quando li o texto de um determinado jornalista, sobre os resultados eleitorais, lembrei-me disso. Eu sei que foi a despropósito, mas a falta de honestidade intelectual do texto fez-me recordas outras histórias. Dá-se um Rainha de latão a quem adivinhar o nome do brioso guarda vermelho.

Coisas que me dizem

– Olha lá, o vosso Rodrigo Moita de Deus não é o Rodrigo Moita de Deus, pois não?
– É, é.
– Não pode ser.
– Mas é.
– Não é.
– É.
– Não é.
– É.
– Não é.
– É, é.
– A sério?
– A sério.
– O do Acidental?
– O do Acidental.
– Não pode ser.
– Pode, pode.
– Não pode ser.
– Pode, pode.
– Não pode ser.
– Pode, pode.
– Já parecemos um sketch dos Gatos Fedorentos.
– Pois parecemos.

Bloquistas, Dadá e Salesianos

O “Acidental” resolveu associar-se à exposição “Dadá”, do Centro Georges Pompidou, através da pena de Jacinto Bettencourt. Parece que um “bloquista” o terá atacado de forma soez e imperdoável. Isto terá também a ver com um alarmante “projecto público que o seu plano holista tem para cada um de nós” (?). Vai daí, o homem tratou de fechar as suas caixas de comentários e de descobrir que a exposição “prolongada a padres salesianos resulta numa redução dramática da massa cerebral”.
Hoje, o autor, que patentemente andou mesmo nos salesianos (como eu, aliás), tratou do conveniente acto de contrição. Mas alguém me indica o caminho para os tais comentários do “bloquista” aleivoso — membro da corja que todos reconhecemos como “incapaz de viver em sociedade de forma civilizada” — capaz de provocar semelhante desvario?

Sentidos proibidos na auto-estrada da Informação

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Mesmo agora, com acesso a uma nova versão do Google, os chineses escusam de procurar informação sobre, por exemplo, o massacre de Tiananmen. A auto-censura do motor de busca mais popular do mundo tratará de fazer a vontade ao governo chinês, dificultando a entrada no país de frases ou imagens capazes de perturbar mentes mais débeis. Assim se vê a força do PCC, claro; mas também o poder de quem escolhe a informação a que temos acesso.

Parece que a culpa afinal é dele…

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Ao defender as escutas a cidadãos americanos ordenadas por Bush II, o Attorney General Alberto Gonzales citou uma longa série de exemplos de presidentes americanos que, em tempo de guerra, ordenaram a intercepção de correspondência alheia, sem esperar pelos tribunais; começando por George Washington. Para o ano, talvez se esteja a justificar o assassinato de prisioneiros, com o argumento de que o primeiro presidente também se viu envolvido nessa prática (num episódio que viria a dar origem à Guerra dos Sete Anos)…

PS: nem de propósito. Acabo de ler no DN que, a partir de 17 de Fevereiro, os “combatentes inimigos” detidos em Guantánamo podem ser condenados à pena de morte.

Toca aí o hino, mermão!

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Já devem ter visto por aí um anúncio de TV com o nosso hino por banda sonora. Uma coisa épica, cheia de bandeiras desfraldadas, de impante orgulho luso. Mas sabem a quem é que a PT, assim auto-proclamada “empresa privada que mais investe em Portugal”, foi encomendar o spot em questão? A uma agência brasileira. Depois, para dar um toque ainda mais genuíno à ode patrioteira, tratou de contratar uma produtora igualmente brasuca. Faz o que eu digo, não o que eu faço, né?

República Socialista dos Países Baixos

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Há perguntas bizarras, e facilmente irritantes. Na Holanda perguntam-me, há mais de trinta anos: «Não trouxeste casaco?» E por ‘casaco’ querem dizer muita coisa: blusão, gabardina, sobretudo, samarra, capote alentejano. Quase nunca tenho, pois não sou friorento. Ou sou só descuidado.

Em Portugal, a pergunta irritante é outra: «Como está a Holanda?». E eu digo «Fria» ou «Tranquila» ou «Na mesma». Mas, agora, descobri uma variante para ‘Na mesma’. É mais longa, faz mais conversa e pode ajudar a mudar o mundo. Eu explico.

O chefe de estado holandês é uma senhora. A profissão da senhora é ‘rainha’. Não governa, existe só. Sabe-se que tem influência política, mas tecnicamente é ‘irresponsável’: é o governo que responde por ela. Da mãe dela se sabia que era socialista, desta supõe-se que ande no centro-direita. Por coincidência (deveras, por uma mão-cheia de votos), o governo actual é, desde há uns anos, de centro-direita também. Em suma: a senhora tem as atribuições do presidente português, só está no lugar algum tempo mais. Pensando bem, ela é uma presidente e este país é uma república.

A câmara faz, agora, um travelling do palácio para a choupana.

Num bairro pobre da chique Haarlem (a holandesa, a original), vive uma jovem senhora com o rendimento mínimo garantido. Cursou direito, mas detesta o foro e as secretarias, e ficou por ali. Faz uns biscates, umas coisas. Periodicamente, tem de apresentar contas ao município dos seus parcos réditos. Para a controlarem? Longe disso. Para lhe oferecerem cursos, todos gratuitos, cada um deles mais atraente. Para lhe perguntarem se não estará precisando duma nova máquina de lavar, ou de uns agasalhos melhores para o inverno. Que eles lhe oferecem, claro. Eu soube isto há dias, e fiquei fascinado. Se isto não é socialismo, então sou eu que sou parvo.

Está visto. Daqui em diante, quando me perguntarem «Como vai a Holanda?», vou mostrar-me um melhor apóstolo do paraíso terreal, e passarei a dizer: «Qual? A república socialista? Lá se vai arrastando».