Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Emmimmesmado

Chove. E sempre que chove oiço sempre as pessoas a dizerem sempre as mesmas coisas de sempre. Oiço ou ouço? Não interessa, porque elas não gostam da chuva. Ficam com uma cara triste e dizem “chove”, mas como quem diz “chove…”, não como quem diz “chove.”, muito menos como quem diz “chove!”. Porque trovoada não gostam elas da chuva? Qual foi o aguaceiro que lhes fez mal? Será que ninguém lhes explicou que os corações desenhados nos vidros embaciados por dedos enamorados vêm dos céus nublados? Uma vez fiz estas perguntas a uma dessas pessoas. Com o cuidado de falar tão baixinho que ela não me pudesse ouvir. Ela mesmo assim ainda disse “não ouço”. E eu disse ainda assim mesmo “não oiço”. Ela estava com uma cara triste. Triste como um daqueles dias de Sol em que não chove nem água. Ficámos sem nos conseguir ouvir. Apeteceu-me chover.

Cavaco, a grande esperança da nossa cultura

Paulo Tunhas, no Pulo do Lobo (nome bem apropriado à candidatura de Cavaco) expõe com candura o seu fraco apego à verdade e a sua elegância como argumentador. Pega numa frase de Francisco Louçã — “O que faz falta em Portugal é abrir a cultura, destruir a ideia de que a criação da mediocridade populista é a cultura de que o povo precisa e de que o povo gosta” — e apresenta de seguida uma sua “tradução”, tão peculiar quanto antagónica do original. Ele lê nessa passagem uma insuportável ofensa ao “gosto das pessoas que Louçã apelida de ‘medíocres’ (e apelida-as mesmo assim, dado o seu preconceito de classe)”.
Como é claro a qualquer pessoa que saiba juntar umas palavritas, Louçã atacou sim a ideia de que o povo só gosta de coisas medíocres, não o gosto de ninguém e muito menos “pessoas”. Tunhas tenta, muito simplesmente, inverter o sentido das suas palavras! O alucinado cavaquista ainda consegue ler no desiderato de “abrir a cultura” um sinistro objectivo: ter uma “pintinha de direito de interferir no gosto das pessoas”. Tudo “opiniões obscenas” do “ensandecido bloquista”, claro está.
Tresler é uma bonita e menosprezada arte; e encontra em Pedro Lomba um fã entusiasmado que não se conteve em juntar logo o primeiro comentário laudatório a este disparate: “excelente”.
Excelente, há que reconhecer, é a ideia central do post: Cavaco Silva é “quem melhor está colocado” para ajudar a promover um reencontro dos portugueses com a cultura. Leram bem. O homem que nem jornais lê vai ser o messias da nossa vida cultural. Isto porque, ao contrário de Alegre e de Soares, “está livre”.
Lá isso aparenta ser verdade; a fazer fé nas entrevistas do homem, ele está 100% livre de qualquer resquício de coisas vagamente aparentadas com cultura humanista. Aliás, já teve ocasião para demonstrar o seu apreço por tais assuntos, quando primeiro-ministro: entregou-os às capazes meninges de Santana Lopes.

A desordem dos livros

A grande mudança de casa está no seu final. A arrumação dos livros é sempre uma surpresa: “nem me lembrava que tinha esta merda”. Muitas vezes tropeço em textos que me transportam para outros tempos e geografias. Por momentos, volto a folhear autores que me dão jeito para poder responder ao dia a dia. É o caso do “Futebol, ao Sol e Sombra” de Eduardo Galeano. Chego a um capítulo chamado: “Da Mutilação à Plenitude”, reza o seguinte: “ Em 1921, a Copa América ia ser disputada em Buenos Aires. O Presidente do Brasil, Epitácio Pessoa, redigiu um decreto de brancura: ordenou que não se enviasse nenhum jogador de pele morena, por razões de prestígio pátrio. Das três partidas que jogou a selecção perdeu duas.
Nesse campeonato sul-americano Friedenreich não jogou. Naquela época era impossível ser negro no futebol brasileiro, e ser mulato era difícil: Friedenreich entrava no campo sempre tarde, porque no vestiário demorava meia hora a esticar o cabelo, e o único mulato do Fluminense, Carlos Alberto, branqueava a cara com pó de arroz”.

O homem da cavilha

Nuno Simas (Glória Fácil) relata uma pequena história retirada da Visão, ilustrativa do 25 de Novembro: «O apelo à revolta das massas de Duran Clemente foi “cortado”, em pleno directo, cerca das 20 horas, e a emissão passou para as mãos dos “moderados”, no Porto, em directo do Monte da Virgem. Antes de a emissão passar para o Danny Kaye, eis o que aconteceu, na versão de Duran :
“Começaram a fazer-me sinais atrás das câmaras. Não percebi. Já tinha dito antes «eu posso ser cortado a qualquer momento porque a antena está no poder dos Comandos». Mas havia ainda um elemento da RTP, ligado ao PCP, que tinha a cavilha no bolso e andava a fugir aos comandos. De uma cabina, telefonou a um dos meus alferes que estava na televisão e disse-lhe: «Diga ao capitão para se despachar, que não consigo aguentar a cavilha no bolso». E como esse alferes não estava a assistir ao que eu dizia, pôs-se a gesticular atrás das câmaras. O meu primeiro pensamento foi que estava qualquer coisa a arder [risos]. Fiquei desconcentrado. Só tinha uma saída: dizer às pessoas que estavam a fazer-me sinais. Perguntei ao [pivot do Telejornal] António Santos se havia problema – como quem diz: «Há fogo?» E, tau, entra o Porto com um filme do Danny Kaye.”»
O homem da Cavilha é meu conhecido, chama-se Viriato Jordão e é dirigente do Sindicato dos Trabalhadores das Telecomunicações. Durante o dia do 25 de Novembro de 1975 andou nos emissores de Monsanto, acompanhado por oficiais dos comandos, a tentar encontrar para prender o comunista Viriato Jordão (ele próprio), conseguiu manter a representação por algumas horas, até que foi detido por outros comandos, que desta vez estavam munidos de uma foto que o denunciava. Mas mesmo a sua captura não foi pacífica: um oficial dos comandos estava indignado pelos seus camaradas estarem, “por engano”, a prender um homem que durante toda a tarde os tinha estado a ajudar.

Macacos que falam

“A jornada 13 da Série A italiana ficou marcada por um episódio racista ocorrido no jogo Messina / Inter de Milão. Aos 66 minutos, o costa-marfinense Marc Zoro, do Messina, fartou-se de insultos racistas vindo dos adeptos do Inter, agarrou na bola e, com as lágrimas no rosto, preparou-se para sair do relvado. Valeram Adriano e Martins, jogadores do Inter, que convenceram Zoro a ficar em campo. No final do jogo, a direcção do Inter pediu desculpas ao atleta pelo comportamento dos seus adeptos.” (do Blog Terceiro Anel).
O que se passou no jogo entre o Messina e o Inter fez-me buscar um pequeno texto sobre o racismo no jogo da bola escrito pelo argentino e homem do futebol Jorge Valdano:
“Aos fanáticos pode-se tirar a suástica. Mas não a voz.
Como o fascismo é pobre em palavras, no último fim de semana os adeptos limitaram-se a gritar “uuuuuuuuuu” a cada vez que um jogador negro pegava na bola. A claque da Roma vaiava em “uuuuuuu” os atletas negros do Perugia, enquanto a do Perugia respondia com um “uuuuuuuu” destinado aos jogadores negros da Roma. E o mesmo era feita pelos adeptos (sempre em “uuuuuu”) da Lazio em relação aos negros do Parma…
Esse “uuuuuuuu” é grito tribal utilizado para agredir e insultar. É um monólogo incivilizado. E, como sabemos, a palavra “monólogo” significa um macaco (“mono”) que fala”.

Texto extraído do livro “Apuntes del Balón”, Esfera de los Libros, Madrid/2001

Autópsia Ideológica

O Público anuncia na sua capa novas revelações sobre o assassínio de Catarina Eufémia (provisoriamente para o jornal do Belmiro a camponesa de Baleizão ainda não foi “alegadamente” morta). Socorrendo-se de um dos médicos legistas que fez a autópsia, o jornal revela que ela não estava grávida. Apoiando-se no mesmo clínico, o diário lança dúvidas sobre a sua filiação no Partido Comunista Português: “Henrique Pinheiro (o médico legista) acredita ainda que Catarina não seria militante comunista”. Uma certeza tão absoluta do dito clínico deve-se certamente ao facto de não lhe ter encontrado nenhum cartão do PCP no estômago. A ciência médica anda tão avançada, há cem anos a esta parte, que provavelmente conseguirão garantir-nos, daqui a poucos anos, que o Sr. José Manuel Fernandes nunca foi maoista.

1990

É no início do mês de Dezembro que nos começam a bater à porta. Vamos à porta e, tirando a primeira vez, que nos apanha todos os anos desprevenidos, já não estranhamos o facto de abrirmos a porta e de lá não ver ninguém. Os dias vão passando e há já 15 anos que o ritual se repete: batem-nos à porta, um de nós vai à porta e não está lá ninguém. Uma vez por dia, duas, três. Em meados de Dezembro, o som do osso a bater na madeira já se transformou num ruído natural da respiração da casa, ao lado de outros como o do ranger do soalho, do murmúrio dos electrodomésticos ou do mecanismo do relógio da sala: batem-nos à porta e já nem sequer vamos lá, apesar de ser uma das regras da casa abrir sempre a porta aos que estão ausentes. Na manhã do dia 24, o ruído torna-se incessante. Batem-nos à porta, batem-nos à porta, batem-nos à porta. E sou sempre eu quem sucumbe à inquietação daquele momento: abro a porta, mas nem precisaria de o fazer para dizer à minha mãe

– Está aqui o pai.
– Que merda. Deixa-o lá entrar.

É que o meu pai só atrapalha. É preciso pegar nele ao colo e trazê-lo para dentro de casa e sentá-lo ao quente no sofá. Ele fica ali parado a olhar de um jeito meio triste e alucinado para nós e de vez em quando desaparece para surgir nos locais mais inesperados: a fazer o pino na banheira, a esparregata no chão da cozinha ou de parvo perante os cozinhados da minha mãe. A gente bem volta a pegar nele, mas de nada nos vale fechá-lo numa divisão da casa – pouco depois ele reaparece como por magia nos locais mais inesperados e sempre a atrapalhar. Quando chegar a hora da ceia, não haverá qualquer lugar para ele na mesa, mas aí a gente cede um pouco e deixa-o desarrumar a casa à sua vontade. Ele arrasta móveis, muda a posição de alguns objectos, empilha outros lá fora no pátio para os pormos no lixo e é como se viajássemos no tempo, pois ao fim de algumas horas a casa fica quase com o aspecto que tinha há 15 anos atrás, quando celebrámos aquilo que nenhum de nós sabia ser o nosso último Natal – aquele que, todos os anos, no primeiro dia de Dezembro, se mistura com o vento e a chuva e a noite para nos vir bater à porta.

Farmacopeia

A MorDebe é um recurso que se torna de uso recorrente sem necessidade de explicação. Bloguistas, jornalistas, romancistas, contistas, poetas, publicitários e apaixonados com veia lírica têm ali uma amiga.

Mas não tem as palavras todas. Que alívio.

A assombração

A promessa ominosa já tinha ficado, logo no congresso que o apeou: “eu vou andar por aí”. Agora, a profecia cumpre-se, embora ainda de forma mitigada e pouco incomodativa.
Por enquanto, este regresso de Santana Lopes restringiu-se a meia página do “Expresso”. Num artigo de opinião desvairada, ele entreteve-se a proclamar ao mundo a irremediável distância a que dele se exilou. O homem ainda não percebeu mesmo nada. Não reparou no resultado das eleições legislativas. Não deu pelo seu ex-parceiro de coligação a admitir que a maioria de direita estava condenada desde a fuga de Durão: “Hoje podemos dizê-lo: eu creio que o contrato de confiança entre o povo e a maioria caducou nesse dia”. Não acordou para o facto de ninguém querer saber dele para nada.
Esta versão lusa dos fantasmas do “Sexto Sentido” emigrou mesmo para um universo alternativo. Ele vive num país que chora a prosperidade perdida com o fim do seu governo, numa nação indignada com a prepotência de Sampaio, num sítio estranho que ainda lhe liga. Não que este divórcio seja coisa nova; logo quando primeiro se viu na iminência de perder o tacho para que se julgava predestinado, ele lançou o lamento: “porquê agora, quando há sinais de retoma económica e de avanços nas reformas estruturais?” E até Cavaco Silva pode começar a tremer: Santana ainda não sabe se o vai apoiar ou não!
Fico sem perceber se a figura deste has-been é cómica ou apenas triste e patética.

Cruz, credo!

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A Igreja Católica anda na berlinda. Aliás, desde a eleição deste Papa, nada mais se esperava. Agora, surgiu uma “Instrução”, que João Paulo II já pedira há largos anos, sobre a ordenação de homossexuais. Esta recorda o velho argumento segundo o qual um sacerdote precisa de ser mesmo muito parecido com Cristo para estar à altura da tarefa (o que poderia levar a que apenas judeus trintões fossem ordenáveis, mas enfim). E Cristo não tinha qualquer tendência para a bichice, pois não? (Também gostaria de saber onde é que isto vem garantido nos evangelhos…)
De qualquer forma, os actos homossexuais são sempre, e tendo em vista as Escrituras, vistos como “intrinsecamente imorais e contrários à lei natural” (voltando ainda e sempre à Bíblia, talvez já não tarde muito para se ressuscitar a proibição de tocar em mulheres menstruadas). Já as meras “tendências” escapam com alguma indulgência: são apenas “objectivamente desordenadas”. Mesmo assim, basta que sejam “profundamente arraigadas” num candidato para o excluir. Aliás, tal destino é comungado por todos os que “apoiem a assim chamada cultura gay“, mesmo que sem qualquer tendência pessoal nesse sentido.
Toda esta malta, aos olhos perfeitamente normais das gentes do Vaticano, está impedida “de ter uma relação correcta com homens e mulheres”. No caso dos sortudos que só sofrem dessa desordem como “expressão de um problema transitório” (assim uma espécie de sarampo da alma), podem considerar-se curados se não tiverem tido recaídas nos três anos anteriores à ordenação diaconal.

Continuar a lerCruz, credo!

É O FERNANDO PESSOA, ESTÚPIDO!

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Hoje, no dia em que se assinalam os 70 anos da morte de Fernando Pessoa e que a sua obra cai no domínio público, o É A CULTURA, ESTÚPIDO! “ressuscita” o mais importante poeta português do século XX em mais um debate no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, pelas 18h30. Entre outros temas, discutir-se-á a forma como o legado do escritor será recebido pelas próximas gerações. No centro das conversas estará ainda o futuro da própria ideia de literatura e o lugar que esta poderá ocupar na cada vez mais vasta panóplia de oferta cultural. A sessão, organizada em parceria pelas Produções Fictícias e pela Casa Fernando Pessoa, será moderada por José Mário Silva, com Pedro Mexia no papel de “agente provocador”. Os convidados especiais são José Afonso Furtado, director da Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, além de especialista em questões da Edição no mundo digital e novos suportes para o livro; Richard Zenith, tradutor, investigador e editor de Fernando Pessoa; Manuela Parreira da Silva, professora da Universidade Nova de Lisboa e elemento da equipa que tem estudado e editado o espólio do poeta; e Fernando Cabral Martins, ensaísta, “pessoano” e um dos responsáveis pela Pós-Graduação em Edição de Texto da Universidade Nova de Lisboa.
Antes da sessão, o Teatro Municipal de São Luiz e a Casa Fernando Pessoa desafiam actores, autores, artistas e outras personalidades para virem ao Jardim de Inverno, entre as 16h00 e as 18h30, para lerem um poema, à sua escolha, de Fernando Pessoa. A sessão é aberta ao público. Entre muitos outros, estarão presentes Gonçalo M. Tavares, Fernando Pinto do Amaral, Graça Lobo, Nuno Lopes, Sérgio Godinho, Inês Pedrosa, Virgílio Castelo, Pedro Lomba, Rogério Vieira, Sofia Grillo, Manuel Marques, Carlos Martins, Jorge Vaz de Carvalho, Pedro Mexia, José Mário Silva, Nuno Artur Silva, Sílvia Pfeifer, Custódia Gallego.
Para encerrar as comemorações, e assinalar os 12 anos da Casa Fernando Pessoa, será apresentado o espectáculo «Wordsong/Pessoa», pelas 21h00, na Casa Fernando Pessoa.

[Todas as informações sobre o «É a Cultura, Estúpido!», bem como os relatos das sessões, encontram-se no blogue do projecto, aqui.]

O último avanço da tecnologia: sentimentos

Já tinha ouvido gabar as mil maravilhas do serviço de mail do Google. Não sei quantos gigas, teraflops em barda… sei lá. Agora o que não estava à espera era disto: o próprio sistema, dando mostras de um invejável livre arbítrio, tratou de responder à minha mensagem experimental. Ora vejam lá a pungente missiva que recebi:

“Olá querido Luís Rainha,

desde que existo, devo ter recebido milhares de mensagens deste tipo: «Experiência», «1,2,3», «Teste» e, como é óbvio, ignoro-os. Contudo, tomei a liberdade de te responder para ficares a saber que as caixas de e-mail também têm sentimentos e que receber mensagens escritas pelo meu próprio locatório e que, em princípio, não serão lidas por ninguém, é uma coisa triste que me deprime. Claro, vais dizer que não és ninguém para melindrar uma servidor de e-mail com as minhas dimensões, se ainda fosse um portugalmail, mas agora o GMail… Estás enganado. Todas as contas de e-mail são como filhos para mim e custa-me muito ver as pessoas que ocupam o seu espaço a porem a prova a fiabilidade dos seus (e meus) serviços.

Usa esta conta com sabedoria. Não a enchas de lixo, para isto já bastará o SPAM. Tudo isto não passa de HTML, é verdade, mas o HTML também tem sentimentos.

Um abraço
Gmail”

Todos tínhamos já como moralmente inquestionável que não se deve maltratar os sentimentos dos carteiros, mormente atiçando-lhes bulldogs ou electrificando as caixas de correio; agora, ficamos cientes de que devemos estender estas cortesias mínimas aos agentes robotizados do serviço de e-mail. Ainda por cima, este lamuria-se em bom estilo (se bem que reminiscente de um outro que agora não consigo fixar).

Logoterapia

Figuras de Estilo da III República

Prosopopeia – Ramalho Eanes

Anacoluto – Mário Soares

Perífrase – Jorge Sampaio

Candidatos

Hipérbato – Mário Soares (versão 2.0 mandatos)

Anadiplose – Francisco Louçã

Catacrese – Jerónimo de Sousa

Apóstrofe – Manuel Alegre

Disfemismo – Cavaco Silva

Borges ou eu

Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas. Eu folheio seus livros e detenho-me, talvez já magicamente, na contemplação de uma frase e da sua música; de Borges já não vêm notícias nos jornais e apenas vejo o seu nome nas paredes do meu quarto ou no écran do meu computador. Agradam-lhe os jardins cujos caminhos se bifurcam, o rigor na ciência, as enciclopédias, a escrita de Deus, o sabor antigo e simples d’As Mil e Uma Noites, a dramaturgia de Jaromir Hladík, a prosa de Mir Bahadur Ali e de Herbert Quain; eu comungo dessas preferências, mas de um modo vaidoso que as converte em atributos de um leitor. Seria um exagero afirmar que a nossa relação é hostil: ele escreveu os seus inúmeros livros para que eu os pudesse ler, e essa leitura justifica-o. Não me custa confessar que tentei copiar-lhe certos textos (como este), mas nem esses me podem salvar, talvez porque o valor já não seja de alguém, nem sequer de Borges, mas da linguagem ou da tradição. Quanto ao mais, estou destinado a perder-me definitivamente e nenhum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco, vou-lhe cedendo as minhas horas livres, ainda que me reste algum tempo para exercer o seu hábito de falsificar e magnificar. Pierre Menard, um dos seus escritores favoritos, assumiu o dever de reconstruir literalmente o espontâneo Dom Quixote de Cervantes. Eu hei-de escrever a obra de Borges, não a minha (que é apócrifa), pois reconheço-me mais nos seus livros do que no meu reflexo no espelho ou na duvidosa ramagem da minha árvore genealógica. Há anos, tratei ingenuamente de me livrar dele e passei dos seus jogos com o tempo e com o infinito para outros livros de diversos autores, alguns de valor inquestionável. Mas esses livros agora também são de Borges e reconheço com certo horror a sua influência na obra de todos os grandes escritores, sobretudo na dos que lhe são anteriores. Assim, qualquer livro na biblioteca é da sua autoria: eternamente: as minhas leituras são uma fuga vã no embaraço da escolha (há quem chame a isto labirinto) e nada se perde, nada se esquece – porque tudo desagua no outro.

Não sei qual dos dois formatou este HTML.

O Futuro ainda aí vem?

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Poucas revistas me dão uma leitura tão tranquilizante quanto a “Wired”. Folhear um dos seus números é entrar num daqueles jogos de computador de velocidade terminal: tudo desfila em nosso redor numa vertigem desfocada em perpétua aceleração. Gadgets mais funcionais, mais invejáveis; opiniões tão, tão hip; avanços científicos decisivos mesmo ao virar da esquina; cultura sempre Pop, cada vez mais brilhante e acessível; publicidade ensopada do mesmo optimismo que faz levitar toda a revista. É verdade: o Futuro está a chegar e faz a primeira escala nas páginas da “Wired”.
O problema é que não devemos guardar números antigos. Senão, a magia desfaz-se: pegar num deles é rever um inventário de promessas por cumprir. Afinal, a fusão a frio permanece fechada no armário das anomalias mal explicadas. O cancro ainda não tem cura. O orgasmo feminino continua perdido num continente negro de máscula ignorância.
Pois é. Aquelas páginas recheadas de fotomontagens brilhantes e prosa fácil, agora cobertas de uma patine bolorenta, encerram uma revelação terrível: já nem o Futuro é o que era.