Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Ah g’anda Regina

Na rubrica Selecção Nacional, do Público, fizeram a Regina Guimarães (apresentada como “escritora, professora universitária”) a seguinte pergunta: Neste momento, Portugal exporta calçado e têxteis, faz obras públicas e tem a AutoEuropa. Como quer que, na sua área, Portugal seja em 2026?
E a Regina Guimarães, mostrando que tem a língua solta (como prova o facto de ter sido letrista da banda Três Tristes Tigres), responde assim: «Começaria por dizer que não tenho área pessoal – como, cago, devaneio, durmo, sonho, suo e trabalho como quase toda a gente».
O resto do depoimento é, digamos assim, relativamente normal. Mas esta frase tem muito daquele desassombro de que andamos precisados como de pão para a boca.

Olhe, não parece mesmo nada

Há uns dias, Cavaco Silva dizia-nos que estamos da iminência do que, em futebolês, se chama uma “chicotada psicológica”: “a chegada de um novo presidente pode ter o efeito, quer se queira quer não, da chegada de um treinador novo”. É que “às vezes, a equipa não é má, mas precisa de um novo treinador”, com direito, presume-se, a ditar a táctica, substituir elementos, exigir reforços, etc.
Agora, Cavaco tentou tranquilizar-nos: “conheço muito bem as competências do Presidente”. Escasso valor terá esta garantia, vinda de alguém que parece, como na altura realçou Vital Moreira, incapaz de distinguir as competências do árbitro das do treinador.

Espiritismo eleitoral

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Primeiro, foi Manuel Alegre. Confortado pela presença da viúva do capitão de Abril, tratou de o arregimentar para a sua causa: “Sei que o Salgueiro Maia gostaria de me ouvir dizer o que estou aqui a dizer”. Agora, outra viúva ilustre, Matilde Sousa Franco, tratar de anunciar aos viventes as vontades do esposo: “toda a gente sabe que foi um grande amigo de Mário Soares, estando certa de que, se fosse vivo, o apoiaria”. Mas, com tamanha alergia ao que chama “oportunismo político”, que terá passado pela cabeça da senhora quando aceitou fazer parte das listas eleitorais do PS, escassos meses após a morte do marido?

Prós e contras

O programa que ontem à noite animou a RTP 1 proporcionou-me uma das experiências televisivas mais divertidas da minha vida.
O espectáculo foi entregue a meia dúzia de mentes brilhantes que supostamente iam discutir a alma lusa ou coisa que o valha. O professor Adelino Maltez ficou com o papel de dizer umas banalidades isentas de conteúdo com voz ribombante e condizente expressão grave e intensa; acabava uma frase — invariavelmente sem conclusão — e ficava a olhar com ar de mau para as câmaras e para os comparsas, não fosse algum ter a ousadia de lhe perguntar o que queria afinal dizer. Clara Pinto Correia entretinha-se a demonstrar a sua erudição com umas historietas medievais e a falar dos filhos a propósito do estado deplorável do ensino, do bom que é morar no Bairro Alto, local onde as crianças podem brincar à vontade na rua (talvez a ver qual encontra mais seringas), da maravilha que foi ir a pé a Fátima (pobres petizes). Um padre velhinho muito simpático dava ideia de se ter enganado no estúdio: quando lhe perguntavam qual devia ser o perfil do próximo PR, falava de Goa. Um senhor publicitário discorria sobre a falta de gravatas do primeiro-ministro japonês e sobre a miséria que é a “marca” Portugal.
Como guardião da racionalidade ficou, imagine-se, Nandim de Carvalho, que teimava em remar contra a maré e tentar dizer coisas com sentido. Jacinto Lucas Pires, ao longo de todo o programa, não conseguia reprimir um sorriso incrédulo.

Talvez já nem ele escape

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Manuel Alegre, não contente em incomodar os vivos e recrutar os mortos, já ameaça publicamente vir a ser o “presidente de todos os portugueses e de todos os estrangeiros” residentes em Portugal. Mas o delírio não pára aqui: ele começou a apresentar-se aos transeuntes estupefactos como o “Presidente da República”. Começo a gostar do nosso candidato-dadá.

Bits, filtros e bruxas

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O “24 Horas” de hoje, umas páginas antes de mais uma crónica da mulher de Carlos Cruz, continua a clamar que “os procuradores tinham todas as condições para desvendar o conteúdo das disquetes do escândalo”. Isto porque terão recebido ajuda de uns “peritos informáticos”.
É mais um esforço para implantar a ideia de que as intercepções da polémica terão sido mesmo ordenadas por “alguém”. Apesar de o curso dos acontecimentos parecer perfeitamente explicado: um técnico da PT, ao elaborar a lista das chamadas pedidas, optou por ocultar as restantes em vez de as apagar.
Mas a simplicidade nunca satisfaz os amantes das conspirações. No sábado, José Manuel Fernandes angustiava-se: “os investigadores olharam para todas essas chamadas, ou eram tão analfabetos do ponto de vista informático que nem repararam que estavam lá registadas?”
O inefável Ferreira Fernandes, do “Correio da Manhã”, dá “de barato” que os magistrados não pediram a informação no cerne do “escândalo”; mas “sabe” que os dados só se tornaram públicos porque “esses magistrados foram uns irresponsáveis”. Apesar de se tratar de documentos sob segredo de justiça e apenas consultados oficialmente por advogados de defesa de alguns dos acusados no processo Casa Pia.
António Barreto, mais uma vez a leste, exclama: “duzentos números de telefone vigiados”; “mais de oitenta mil chamadas telefónicas detectadas e registadas”. Esquecendo que os números não estavam “vigiados” na altura das chamadas e que o tal registo é rotina obrigatória em qualquer operadora de telecomunicações; ou nunca terá recebido uma factura detalhada?
Depois, claro que a defesa de Carlos Cruz tratou logo de lançar mais uma cortina de fumo sobre o pandemónio geral.
Mas, a bem da verdade, importa perguntar: quem terá o hábito de vasculhar folhas de Excel, em busca de informação suplementar à esperada? E porque deveriam os tais peritos fazê-lo? Julgo que nunca de tal me lembrei, a não ser quando sabia que havia algo a procurar. Mas vou começar a tratar disso; não quero que amanhã me possam acusar de ter informação indevida no meu computador.

Quanto a Souto Moura, não me admira nada que atribua esta nova desgraça a uma célebre busca em demanda de um valioso tabuleiro de xadrez que até nem apareceu… é a velha história das bruxas inexistentes.

Um grande reforço de outro planeta

Vanessa Amaro estagiou na Veja, na Folha, foi jornalista numa agência noticiosa no México e teve a infelicidade de viajar para Portugal, onde aterrou na revista Focus. Fugiu para Espanha, para acabar um mestrado de jornalismo. É bastante mais nova do que o João Pedro Costa, e bastante mais inteligente que nós todos. Verifiquem: ela não está em Portugal. O Aspirinab procede à sua internacionalização e consegue integrar, nas suas fileiras, a primeira mulher. Façanha só possível porque ela não nos atura e guardou alguns milhares de quilómetros de distância. Fora isso, é uma excelente jornalista.

Declaração de princípio (para que saibam no que é que se metem)

Eu tentei convencer o meu excelente amigo Nuno Ramos de Almeida (cujo percurso acompanho desde há anos com desvelo quase fraternal, sem que contudo tivesse conseguido impedi-lo de vir a padecer, já na idade adulta, de uma lamentável doença infantil…) de que não seria o tipo indicado para escrever num blog, mas ele não me quis dar ouvidos, e foi pena, porque para lá do meu muito justamente referido mau feitio & falta de pachorra, possuo ainda outros defeitos graves e que se afiguram mesmo fatais no caso vertente: primeiro, tenho uma relação difícil com as novas tecnologias, não frequento blogs, não sei mandar SMS´s, não tiro fotografias com telefones nem coisas do género, porque sou do tempo dos utensílios com vocação única, o telefone toca, o fax faxa, a máquina fotográfica tira fotografias, etc., e nunca me habituei aos vários-em-um; segundo, gosto de ler e escrever pausada e pensadamente, e acho que boa parte dos males do mundo advêm do facto de as pessoas se instruírem por via da TV, de revistas coloridas com muita imagem e pouco texto ou de informações soltas, encontradas ao acaso na net, que me parecem meios em si mesmos insusceptíveis de dar origem a uma reflexão minimamente reflectida sobre o que quer que seja (lá em casa, a jovem geração queixa-se e diz que eu sou um bota-de-elástico, mas eu estou-me nas tintas, não só porque casa que se preza tem de ter o seu par de botas-de-elástico, e nisso a T. faz-me excelente companhia, mas ainda porque, como eu procuro explicar aos meus herdeiros, quem pode o mais pode o menos, embora o inverso não seja necessariamente verdade – ou seja, quem conseguir sobreviver a um texto meu, chato e comprido, há-de certamente achar graça a seguir a um texto leve e espirituoso do Nuno Tito de Morais ou do Luís Rainha – olá Luís, prazer em rever-te – embora o contrário se afigure muito menos provável); em suma, não sou pop nem pretendo vir a ser, para parecer mais jovem; se ainda assim me quiserem, não me quero armar em difícil e aceito o gentil convite para chatear de vez em quando os leitores; se não quiserem também não levo a mal – porque no vosso lugar fazia o mesmo.

Mais um reforço, mais um tiro.

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António Figueira é outro dos novos reforços desta equipa com remédio. Jurista, foi do gabinete de porta-vozes da Comissão Europeia. É Prémio Jacques Delors 2003, com o ensaio “Modelos de Legitimação da União Europeia”. Apesar destes feitos duvidosos e outros que eu me escuso de revelar, é dono de um sentido de humor apurado, duma imagética duvidosa e de uma má disposição crónica, factos relevantes que levaram à sua contratação.

Défice de juízo

Garcia Pereira andou pela Madeira a promover a obra de Alberto João. Parece que o candidato deseja “a mais ampla autonomia” para as nossas ilhas, se preciso for com um Supremo Tribunal por arquipélago, mantendo apenas uma vaga ideia de defesa nacional em comum com o resto do país (parece-me ideia excelente; sobretudo se tratarem primeiro da correspondente autonomia económica). O patusco candidato do MRPP tem ainda uma outra ideia original sobre a Madeira: “o que há aqui é défice de oposição”.
O homem não perceberá mesmo que a tal falta de oposição não é a raiz do problema mas sim um mero sintoma? Que oposição pode sobreviver naquela atmosfera asfixiante, marcada pelo nepotismo e pelo mais absoluto desprezo pelas regras da vida em democracia? Quem é que se sujeitaria a ser perseguido, ver bens seus expropriados e ter o nome arrastado pela lama todos os dias, apenas por brio cívico?
Parece-me que quem não entende isto não devia ser nem candidato a presidente do Benfica.

O inferno é capaz de ser verde

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Dark Wood (Una Selva Obscura), Tom Phillips, 1979-80

Não é preciso ser um Marcuse ou um Ballard para ver que muito do que se passa dentro dos nossos crânios acaba por imigrar para o mundo “real”; as nossas neuroses, fobias ou depressões dificilmente passam sem se manifestarem, mesmo que de forma latente, nas circunstâncias de que nos rodeamos.
No meu caso, a bandeira que melhor reflecte o estado da ondulação na minha alma é o meu jardim.
Por mais que laborasse, não conseguia fazer com que ele saísse do estado de selva primeva. Tentei arrancar as canas, cortar as silvas, envenenar as ervas. Por umas semanas, a coisa ganhava ar quase civilizado; depois, no que me parecia um lapso de tempo absurdamente ínfimo, regressava o caos vegetal, mais feio que nunca.
Tentei, a páginas tantas, organizar, como as pessoas crescidas fazem, a minha vida. E o jardim, epifenómeno obediente, foi a primeira vítima. Contratei profissionais de variadas nacionalidades, projectei e instalei, com as minhas doridas mãos, um complexo sistema de rega automática. E dei ordem para espalhar um manto impenetrável de escalracho, tapando de uma vez por todas a fertilidade insana do solo da serra. Fui de férias, confiante e já de cabeça mais desanuviada (sim, que estas coisas sempre confundem a fronteira entre sintoma e causa).
Quinze dias depois, o meu cantinho de Amazónia estava de volta. Canas da minha altura, flores selvagens de ar carnívoro por todo o lado, plantas daninhas com ar de estarem ali há anos. Garanto-vos: aquilo não é natural.
Hoje, voltaram os jardineiros. E aniquilaram 500 metros quadrados de escória folhuda, revelando, para minha surpresa, um tímido mas viçoso tapete de relva. Que, afinal, até ia medrando por debaixo da selva.
Deve haver por ali uma valiosa lição à espera de ser aprendida; entretanto, vou saboreando o perfume de coisas verdes acabadas de cortar. Cheira-me a felicidade, imagine-se.

Digital mundo novo (1)

Leio que a Nikon se vai dedicar quase em exclusivo à produção de câmaras digitais. Depois de ter visto uma Leica sem filme, já pouco me pode espantar. E adivinho há muito a derrota inevitável do mundo analógico.
O digital insinuou-se no nosso campo de visão de forma sorrateira: primeiro os grandes scanners (que agora, poucos anos depois, são reverenciados como peças de uma tecnologia arcaica mas insuperada, manejadas com mil cautelas, não vá a falta de peças e de manutenção dar cabo de tão magníficas quanto obsoletas obras de engenharia), mamutes com nomes arcanos como “Heidelberg” e “Scitex”. De seguida, os digitalizadores de imagens saíram dos gabinetes de pre-press e disseminaram-se como uma praga imparável.
Por fim, o olho digital moveu-se para mais perto do mundo: já são os próprios fotógrafos quem trata de cortar a realidade em fatias de bits comprimíveis e transportáveis. E já são as nossas próprias memórias, corriqueiras ou cruciais, que ficam guardadas em formato jpeg, quase idênticas aos momentos originais.
Que virá amanhã? Será o nosso córtex visual capaz de receber upgrades que prescindam de mediações analógicas, ligando-nos em directo ao esplendor limpo, instantâneo e sempre tão dúctil das imagens digitais? E o que estaremos entretanto a perder?