Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Utilizador? Pagador?

Depois do regresso em força das hostes a reclamar pela aplicação do famoso princípio do “utilizador/pagador”, sempre a propósito das SCUTs, lembrei-me de uma modesta proposta: porque não inventamos o princípio do Pagador/Utilizador?
Aplicada ao ramo das vias de comunicação, a coisa funcionaria assim: cada euro apurado com o Imposto sobre Combustíveis, com o IVVA e demais alcavalas que já atacam os automobilistas seria usado exclusivamente no financiamento de estruturas e serviços que lhes facilitassem a vida. Ao diabo com as escolas, com o fundo florestal, com os doentes e outros deserdados da vida moderna. A partir de agora seria assim: pagou, desfrutou. E mais nada.
Disparatado, não é? Mas não mais do que este súbito fervor justiceiro contra o tal “utilizador”; a seguirmos por aí, no limite, cada um poderá vir a exigir que os seus impostos sirvam unicamente para melhorar a sua vidinha.

PS: Já uma vez solicitei que me isentassem de pagar impostos destinados a financiar as incontáveis obras públicas da Madeira, sempre levadas a cabo por amigalhaços do Alberto João. Até à data, ainda não deram provimento à minha justa pretensão.

Ápice

Imaginem que, sem aviso, vos acontece algo que acende um candeeiro inesperado sobre um canto escuro da existência. Só por um segundo. Vocês piscam, assombrados pela luz e pela breve visão. E lembram-se de já terem imaginado, talvez enquanto crianças, que o mundo poderia incluir aqueles quartos secretos, resistentes às plantas mais precisas e fiáveis.
Horas depois, esse pequeno mas inegável episódio ainda anda a berrar, lá do fundo da memória, que talvez, afinal, haja mesmo mais coisas entre o céu e a terra. Mas de que adianta ficar a matutar, se amanhã, ou depois de amanhã, a anomalia já vai estar armazenada na arrecadação da tralha inexplicável e por isso inútil, na gaveta das aberrações que por certo a estatística esclareceria?
E para quê escrever sobre o indizível, se vos falta o golpe de asa para as palavras certas?

Garantem-me que não, mas às vezes ter Fé deve dar imenso jeito. E paz de espírito.

Pequenos Sísifos

Quando miro, ao fim da noite, todo o labor diurno dos Riapas, sinto-me quase como quando reparo num heróico e persistente escaravelho que me tenha rastejado pela casa adentro, rebolando o seu tesouro de cocó. O bicho, mais a sua carga repugnante, tem mesmo de ser removido. Mas até faz pena. Carregar tanta merda, ou acumular tanto comentário merdoso, só pode ser tarefa árdua, ainda que incompreensível.
Deve ser um esforço insano, juntar e guardar bolas de excrementos, todo o santo dia… quase me sinto mal a estragar-lhes essa dura labuta, apenas com um golpe de rato. Ou de vassoura.

Foucault e os fundamentalistas

“O Acidental” vem lembrar-nos que Foucault cometeu o erro de apoiar a revolução iraniana. Com efeito, em 1978 ele escreveu, como correspondente do Corriere della Sera, artigos em que dava conta do seu entusiasmo com a subida ao poder de Khomeini. Manifestando a sua fé total nas garantias do clero triunfante no que tocava aos direitos das minorias e das mulheres. Asneira.
Henrique Raposo, depois de esclarecer a situação de Foucault como “guru de Negri”, não resiste a uma semi-generalização já banal: “talvez seja por isso que muitos ficaram satisfeitos com o 9/11”. Esquece-se é de reconhecer que o autor da “História da Sexualidade” esteve sozinho naquela sua posição. E que um historiador marxista como Maxime Rodinson não teve então problemas em discordar publicamente dele, afirmando que o Irão se encaminhava para um “fascismo semi-arcaico”.
Mas, mesmo no engano, Foucault foi presciente em alguns aspectos. Escreveu ele: “o movimento islâmico pode pegar fogo a toda a região, derrubar os regimes mais instáveis e perturbar os mais sólidos. O Islão — que não é simplesmente uma religião, mas sim toda uma forma de vida, uma aderência a uma história e uma civilização — tem boas hipóteses de se tornar num gigantesco barril de pólvora, ao nível de centenas de milhões de homens” (mais sobre este affaire aqui).
Tomara que muitos do que ainda há pouco se equivocaram no apoio à invasão do Iraque tivessem acertado em qualquer coisa. Ou ao menos que já tivessem tido a honestidade de reconhecer o erro.

Zé Povinho: o mau da fita?

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O Fernando Venâncio chamou-nos há pouco a atenção para um texto de João Camilo onde se ressuscita uma polémica antiga e sem desenlace à vista.
“O filósofo José Gil há tempos, Eduardo Prado Coelho recentemente, encontraram o culpado de todos os males portugueses: sem surpresa, o culpado é o português”, arranca ele, para depois analisar um outro dado conhecido: o excelente desempenho laboral dos nosssos emigrantes, “pelo menos iguais no talento, nos empreendimentos, no sentido das responsabilidades e no carácter” aos naturais dos seus países de adopção. “Conclusão: os nossos políticos, os nossos intelectuais ou educadores, as nossas instituições são de facto responsáveis pela situação em que vivemos e temos vivido.”
Eis um excelente argumento. Tome-se como exemplo o Luxemburgo, cuja força laboral inclui 14% de portugueses. Trata-se de um dos países com maior produtividade e maior PNB per capita de todo o mundo. Que milagre se opera nestas almas lusas mal chegam ao Luxemburgo? Se calhar, coisa pouca. Soubémos, aquando da recente visita de Jorge Sampaio àquele país, que a “nossa” comunidade ali se destaca das outras pelo fortíssimo insucesso escolar. Será que, como sugere o Fernando, o português é mais adepto do uso dos músculos e menos empenhado em exercícios do pensamento?
Uma das poucas explicações razoáveis para o nosso embrutecido atraso remete para a bondade do nosso clima. A tese é simples: países com meteorologia mais inclemente criam personalidades e instituições habituadas a lutar contra a adversidade. Ao invés, climas amenos apenas encorajam a preguiça, a irresponsabilidade e a acédia. Mas não me parece que a Califórnia — apenas para referir a que seria a 6ª maior economia mundial, caso fosse independente — sofra de tais maleitas…
Não é problema fácil. Mas deve ter algures uma solução iluminadora. Só espero que esta não tenha nada a ver com a Teoria da Evolução, decretando que a nossa nação é simplesmente uma experiência evolutiva falhada, a que deveria ser dado (e bem depressa, para encurtar o sofrimento dos nativos) um golpe de misericórdia.

Cuidado com o Natal!

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Em Santiago do Cacém, foi hoje preso um assaltante que usava uma técnica no mínimo original. Ele estava disfarçado de Pai Natal; mas não de um Pai Natal comum, em carne, osso e barbas. O meliante conseguiu, durante horas, passar por um daqueles bonecos em tamanho humano que agora todos pregam às suas paredes e nas chaminés. Sempre que via a rua desimpedida, o inventivo ladrão subia mais um pouco, até alcançar uma varanda. Quando passavam transeuntes, imobilizava-se na melhor tradição dos homens-estátuas.
Este esquema genial só falhou porque uma patrulha da GNR não se deixou convencer pela quietude da festiva figura com um televisor já meio enfiado no seu carro. A perseguição que se seguiu terminou apenas quando os soldados chegaram a um consenso entre si: não é pecado disparar sobre os pneus do Pai Natal. Ao ser por fim caçado, já ele tinha a mala cheio de electrodomésticos de porte médio, artigos de ourivesaria e whiskies de boa marca.
Ainda mais estranho que o modus operandi empregue foi a reacção de uma testemunha, que nem depois de observar de sua casa uma escalada de meia-hora deste falso adereço natalício achou aquilo estranho: “pensei que era uma modernice dos vizinhos. Eles têm sempre a mania que são mais que os outros… se calhar, tinham comprado um Pai Natal automático”.
Já sabem: se virem um deste bonecos agarrado à parede do vosso prédio, tranquem as portas. E não se esqueçam de avisar os vossos amigos.

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Está encontrado o Kim-Jong-Il português!

“Na sua mais incisiva prestação televisiva, Cavaco acabou também por ser, ontem à noite, uma verdadeira «esfinge». Prodigiosa e imperturbável, como deve ser a Democracia.”
Segundo a propaganda da Coreia do Norte, a chegada do seu Grande Homem a este mundo fez-se acompanhar do nascimento de uma nova estrela; aqui, o Sagrado Líder é apresentado como uma prodigosa esfinge, personificação perfeita da Democracia, nem mais.

Rescaldo

Na SIC-Notícias, a inenarrável editora de política da estação e o seráfico Nuno Rogeiro analisam o debate. Resumo da coisa: elogios e mais elogios à «inteligência» de Cavaco, por se ter recusado a responder aos reptos e argumentos de Louçã. Referências às gaffes e inconsistências do candidato da direita: nenhuma.
Ou eu estou louco, ou eles estão cegos e surdos, ou simplesmente não assistimos ao mesmo debate.

O momento zen

Perto do fim, as mãos de Cavaco, visivelmente acossado, começaram a tremer. E os papéis que tinha sobre a mesa, até então impecavelmente alinhados e muito quietos, ameaçaram levantar voo. Num candidato tão mecânico, tão previsível, tão pré-programado, foi quase comovente ver uma centelha de humanidade naquelas folhas A4 rebeldes.
A esta hora, porém, os assessores cavaquistas já devem ter resolvido a inoportuna falha do sistema.

Algumas breves notas finais sobre o debate desta noite

Se ao intervalo já era possível detectar um claro ascendente de Louçã, que por várias vezes interpelou Cavaco a olhar para ele (assim contornando a rigidez do modelo destes debates e provocando no adversário uma sucessão de fugas atabalhoadas), na segunda parte o domínio acentuou-se. Sem ser excessivamente ríspido, radical ou agressivo (como contra Portas), Louçã foi encostando Cavaco à parede e terminou o debate em crescendo, enquanto o candidato da direita revelava, pela primeira vez nesta pré-campanha, sinais de desorientação e nervosismo.
Depois de todas as protecções, resguardos, filtros mediáticos e silêncios ostensivos, quando finalmente o obrigaram a falar e a dizer o que pensa sobre os temas mais importantes da vida política portuguesa actual (do desemprego ao desempenho do procurador-geral da República, dos défices acumulados ao futuro da Segurança Social, ou mesmo às questões “fracturantes”, como o casamento dos homossexuais e a posição em relação à guerra do Iraque), Cavaco foi vago, impreciso, dúbio e ainda mais redondo, em termos de retórica, do que Jorge Sampaio. Para quem anda a preparar esta candidatura há dez anos, ou perto disso, é pouco. É muito pouco. É surpreendentemente pouco.
Como se isto não bastasse, houve alguns momentos em que Cavaco meteu os pés pelas mãos:

– na discussão sobre o passado económico dos governos que chefiou, ao tentar omitir as suas responsabilidades (aliás nunca assumidas) no descalabro em que o país se encontra

– na gaffe, inadmissível num candidato que lidera as sondagens com tanto avanço, de ignorar os estudos sobre a sustentabilidade da Segurança Social, discutidos há pouco tempo na Assembleia da República

– no patético exemplo que deu quando se discutia o problema da imigração, ao imaginar um cenário em que os imigrantes entrariam em tal catadupa que ultrapassariam o número dos cidadãos nascidos em Portugal («o momento de humor do debate», como logo comentou Francisco Louçã)

– e na forma como tentou explicar que esteve contra o modo como os americanos lidaram com a questão iraquiana, então defendida com unhas e dentes pelo seu delfim Durão Barroso, embora na prática nunca tenha assumido uma posição clara a esse respeito. Quando Louçã lhe atirou à cara que os grandes políticos vêem-se no modo como se comportam nos grandes momentos históricos, ficou-se. E depois, a fechar o debate, limitou-se a exibir um sorriso forçado e uma nota de optimismo bacoco, namorando pela enésima vez os jovens, os jovens, os jovens, ao melhor estilo IPJ.

Placard final (à la Luís Delgado): Louçã – 4; Cavaco – 0.

No intervalo do debate Louçã-Cavaco

Alguém devia explicar ao Prof. Cavaco Silva, conhecido por não perceber de literatura mas ser muito bom em números, que mil milhões só é um bilião nos Estados Unidos. Em Portugal, mil milhões são mil milhões. E é de Portugal que ele quer ser presidente.
Quanto ao debate, é bom constatar que nem todos os candidatos se ajoelham perante o putativo futuro inquilino do Palácio de Belém. Ao contrário de Alegre, Louçã tem atacado o seu adversário de todos os ângulos possíveis, desmontando o mito da prosperidade cavaquista, e está a vencer folgadamente um debate centrado (o que não deixa de ser irónico) naquele que é o ponto forte de Cavaco: a Economia.

Os Bichos Carpinteiros roeram as janelas aos comentários

Com uma tocante declaração de repúdio aos insultos (realmente atrozes) que se andavam a disseminar pelas suas caixas de comentários, os soaristíssimos Bichos Carpinteiros lá encerraram as ditas cujas. Espero é que tal não fique associado ao desagradável episódio em que Joana Amaral Dias acusou, apoiada numa manchete do “24 Horas”, a sua homóloga cavaquista de mentir ao apresentar o seu currículo. É que logo surgiram comentadores a inventar que a Joana também já se deixara anunciar como “professora universitária” quando apenas é assistente, e num Instituto dirigido pelo pai, o único e inconfundível Carlos Amaral Dias.
Tricas rasteiras à parte, feio mesmo é que a ex-deputada do BE continue a espalhar pelo DN colunas deste quilate sem voltar a avisar das suas funções na campanha de Soares. Ainda fica alguém a acreditar que tantos ataques a Alegre e a Cavaco são objectivos e desinteressados…

Soares, a idade e o tabu (2)

Margarida Marante faz parte do interminável rol de celebridades actuais e de has beens que saltaram para o comboio de uma candidatura presidencial; integra a Comissão de Honra de Soares. Mas tal não parece bastante para a impedir de entrevistar os candidatos, na TSF. Atirando-lhes à cara, sem qualquer rebuço, frases destas: “Acho indecente, vergonhoso, que se utilize a idade do Dr. Mário Soares para o denegrir. Não acha o mesmo? Vai usar esse argumento?” Não sei o que o pobre Jerónimo Sousa respondeu. Mas sei bem com que força reforcei a péssima ideia que já tinha desta “jornalista”. Afinal, o tal tabu também é alimentado às claras.

PS: diz-me uma das minhas fontes do post anterior que não houve “reprimenda”; apenas dúvidas e inquietações do próprio e dos colegas. Fica anotado o meu exagero. Mas mantém-se o fundamental.