Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Cuidado com o Natal!

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Em Santiago do Cacém, foi hoje preso um assaltante que usava uma técnica no mínimo original. Ele estava disfarçado de Pai Natal; mas não de um Pai Natal comum, em carne, osso e barbas. O meliante conseguiu, durante horas, passar por um daqueles bonecos em tamanho humano que agora todos pregam às suas paredes e nas chaminés. Sempre que via a rua desimpedida, o inventivo ladrão subia mais um pouco, até alcançar uma varanda. Quando passavam transeuntes, imobilizava-se na melhor tradição dos homens-estátuas.
Este esquema genial só falhou porque uma patrulha da GNR não se deixou convencer pela quietude da festiva figura com um televisor já meio enfiado no seu carro. A perseguição que se seguiu terminou apenas quando os soldados chegaram a um consenso entre si: não é pecado disparar sobre os pneus do Pai Natal. Ao ser por fim caçado, já ele tinha a mala cheio de electrodomésticos de porte médio, artigos de ourivesaria e whiskies de boa marca.
Ainda mais estranho que o modus operandi empregue foi a reacção de uma testemunha, que nem depois de observar de sua casa uma escalada de meia-hora deste falso adereço natalício achou aquilo estranho: “pensei que era uma modernice dos vizinhos. Eles têm sempre a mania que são mais que os outros… se calhar, tinham comprado um Pai Natal automático”.
Já sabem: se virem um deste bonecos agarrado à parede do vosso prédio, tranquem as portas. E não se esqueçam de avisar os vossos amigos.

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Está encontrado o Kim-Jong-Il português!

“Na sua mais incisiva prestação televisiva, Cavaco acabou também por ser, ontem à noite, uma verdadeira «esfinge». Prodigiosa e imperturbável, como deve ser a Democracia.”
Segundo a propaganda da Coreia do Norte, a chegada do seu Grande Homem a este mundo fez-se acompanhar do nascimento de uma nova estrela; aqui, o Sagrado Líder é apresentado como uma prodigosa esfinge, personificação perfeita da Democracia, nem mais.

Rescaldo

Na SIC-Notícias, a inenarrável editora de política da estação e o seráfico Nuno Rogeiro analisam o debate. Resumo da coisa: elogios e mais elogios à «inteligência» de Cavaco, por se ter recusado a responder aos reptos e argumentos de Louçã. Referências às gaffes e inconsistências do candidato da direita: nenhuma.
Ou eu estou louco, ou eles estão cegos e surdos, ou simplesmente não assistimos ao mesmo debate.

O momento zen

Perto do fim, as mãos de Cavaco, visivelmente acossado, começaram a tremer. E os papéis que tinha sobre a mesa, até então impecavelmente alinhados e muito quietos, ameaçaram levantar voo. Num candidato tão mecânico, tão previsível, tão pré-programado, foi quase comovente ver uma centelha de humanidade naquelas folhas A4 rebeldes.
A esta hora, porém, os assessores cavaquistas já devem ter resolvido a inoportuna falha do sistema.

Algumas breves notas finais sobre o debate desta noite

Se ao intervalo já era possível detectar um claro ascendente de Louçã, que por várias vezes interpelou Cavaco a olhar para ele (assim contornando a rigidez do modelo destes debates e provocando no adversário uma sucessão de fugas atabalhoadas), na segunda parte o domínio acentuou-se. Sem ser excessivamente ríspido, radical ou agressivo (como contra Portas), Louçã foi encostando Cavaco à parede e terminou o debate em crescendo, enquanto o candidato da direita revelava, pela primeira vez nesta pré-campanha, sinais de desorientação e nervosismo.
Depois de todas as protecções, resguardos, filtros mediáticos e silêncios ostensivos, quando finalmente o obrigaram a falar e a dizer o que pensa sobre os temas mais importantes da vida política portuguesa actual (do desemprego ao desempenho do procurador-geral da República, dos défices acumulados ao futuro da Segurança Social, ou mesmo às questões “fracturantes”, como o casamento dos homossexuais e a posição em relação à guerra do Iraque), Cavaco foi vago, impreciso, dúbio e ainda mais redondo, em termos de retórica, do que Jorge Sampaio. Para quem anda a preparar esta candidatura há dez anos, ou perto disso, é pouco. É muito pouco. É surpreendentemente pouco.
Como se isto não bastasse, houve alguns momentos em que Cavaco meteu os pés pelas mãos:

– na discussão sobre o passado económico dos governos que chefiou, ao tentar omitir as suas responsabilidades (aliás nunca assumidas) no descalabro em que o país se encontra

– na gaffe, inadmissível num candidato que lidera as sondagens com tanto avanço, de ignorar os estudos sobre a sustentabilidade da Segurança Social, discutidos há pouco tempo na Assembleia da República

– no patético exemplo que deu quando se discutia o problema da imigração, ao imaginar um cenário em que os imigrantes entrariam em tal catadupa que ultrapassariam o número dos cidadãos nascidos em Portugal («o momento de humor do debate», como logo comentou Francisco Louçã)

– e na forma como tentou explicar que esteve contra o modo como os americanos lidaram com a questão iraquiana, então defendida com unhas e dentes pelo seu delfim Durão Barroso, embora na prática nunca tenha assumido uma posição clara a esse respeito. Quando Louçã lhe atirou à cara que os grandes políticos vêem-se no modo como se comportam nos grandes momentos históricos, ficou-se. E depois, a fechar o debate, limitou-se a exibir um sorriso forçado e uma nota de optimismo bacoco, namorando pela enésima vez os jovens, os jovens, os jovens, ao melhor estilo IPJ.

Placard final (à la Luís Delgado): Louçã – 4; Cavaco – 0.

No intervalo do debate Louçã-Cavaco

Alguém devia explicar ao Prof. Cavaco Silva, conhecido por não perceber de literatura mas ser muito bom em números, que mil milhões só é um bilião nos Estados Unidos. Em Portugal, mil milhões são mil milhões. E é de Portugal que ele quer ser presidente.
Quanto ao debate, é bom constatar que nem todos os candidatos se ajoelham perante o putativo futuro inquilino do Palácio de Belém. Ao contrário de Alegre, Louçã tem atacado o seu adversário de todos os ângulos possíveis, desmontando o mito da prosperidade cavaquista, e está a vencer folgadamente um debate centrado (o que não deixa de ser irónico) naquele que é o ponto forte de Cavaco: a Economia.

Os Bichos Carpinteiros roeram as janelas aos comentários

Com uma tocante declaração de repúdio aos insultos (realmente atrozes) que se andavam a disseminar pelas suas caixas de comentários, os soaristíssimos Bichos Carpinteiros lá encerraram as ditas cujas. Espero é que tal não fique associado ao desagradável episódio em que Joana Amaral Dias acusou, apoiada numa manchete do “24 Horas”, a sua homóloga cavaquista de mentir ao apresentar o seu currículo. É que logo surgiram comentadores a inventar que a Joana também já se deixara anunciar como “professora universitária” quando apenas é assistente, e num Instituto dirigido pelo pai, o único e inconfundível Carlos Amaral Dias.
Tricas rasteiras à parte, feio mesmo é que a ex-deputada do BE continue a espalhar pelo DN colunas deste quilate sem voltar a avisar das suas funções na campanha de Soares. Ainda fica alguém a acreditar que tantos ataques a Alegre e a Cavaco são objectivos e desinteressados…

Soares, a idade e o tabu (2)

Margarida Marante faz parte do interminável rol de celebridades actuais e de has beens que saltaram para o comboio de uma candidatura presidencial; integra a Comissão de Honra de Soares. Mas tal não parece bastante para a impedir de entrevistar os candidatos, na TSF. Atirando-lhes à cara, sem qualquer rebuço, frases destas: “Acho indecente, vergonhoso, que se utilize a idade do Dr. Mário Soares para o denegrir. Não acha o mesmo? Vai usar esse argumento?” Não sei o que o pobre Jerónimo Sousa respondeu. Mas sei bem com que força reforcei a péssima ideia que já tinha desta “jornalista”. Afinal, o tal tabu também é alimentado às claras.

PS: diz-me uma das minhas fontes do post anterior que não houve “reprimenda”; apenas dúvidas e inquietações do próprio e dos colegas. Fica anotado o meu exagero. Mas mantém-se o fundamental.

Só para irritar um pouco os fãs incondicionais dos EUA

Aqui fica o discurso de aceitação do Nobel da Literatura. De Harold Pinter, claro está. Quem mais se lembraria de falar assim à augusta Academia? “Direct invasion of a sovereign state has never in fact been America’s favoured method. In the main, it has preferred what it has described as ‘low intensity conflict’. Low intensity conflict means that thousands of people die but slower than if you dropped a bomb on them in one fell swoop. It means that you infect the heart of the country, that you establish a malignant growth and watch the gangrene bloom. When the populace has been subdued – or beaten to death – the same thing – and your own friends, the military and the great corporations, sit comfortably in power, you go before the camera and say that democracy has prevailed”.
Mas não é só de política que Pinter fala. Vão lá ler que vale a pena.

Soares, a idade e o tabu

Há em torno destas presidenciais um interdito absoluto: a idade de Mário Soares. Qualquer alma incauta que vagueie pela zona proibida adentro está logo sujeita a ser apelidada de “canalha”, “crápula” e coisas ainda bem piores. Quem quer que escreva uma linha sobre a campanha sabe bem qual a zona do mapa onde o mundo acaba e começa a barbárie. Temos todos de fazer de conta que não existe qualquer diferença etária entre candidatos. Pior: temos todos de ignorar qualquer atitude (ou deslize) de Soares que possa ser ligada à sua idade.
Exagero? Olhem que não: o tabu já infectou há muito os jornalistas que cobrem a campanha. Muitos sentem-se sobre brasas cada vez que relatam o dia-a-dia da caravana eleitoral soarista. O decreto não-dito e não-escrito é, mesmo assim, cristalino: nada de alusões, referências ou insinuações que possam ser lidas como estando apontadas à idade de Soares. Exemplo? Ao que me contaram, um jornalista que comparou o entusiasmo de crianças em torno do candidato com o que demonstrariam se fossem visitadas pelo Pai Natal foi logo alvo de uma reprimenda da sua hierarquia.
Assim, de gentil preocupação politicamente correcta, o tabu passou a auto-censura. Ninguém se arrisca a fazer eco de gaffes de Mário Soares. Quando ele há pouco explicava a alunos universitários a sua luta por essa Europa fora, em prol do “Não” ao projecto de constituição europeia, foi corrigido por um insistente coro de “Sins” da assistência. Um deslize inofensivo que tem alguma graça, como teve o de Valentim Loureiro há uns anos, quando desatou a berrar por Guterres num comício do PSD. Mas todos vimos imagens deste último episódio; do primeiro ninguém ouviu sequer falar.
De repente, o que parecia uma demanda de um decoro mínimo, começa a interpor-se como um ecrã translúcido entre os eleitores e as cenas da campanha. Esta louvável e doce intenção não clarifica, antes obscurece e enubla. Temos agora mais um mediador entre os espectadores e a “realidade” política: o pudor dos jornalistas.

Mas será esta uma estratégia viável? Ou arrisca-se, como grande parte das estratégias impensadas, a disparar pela culatra? José Gil apontou o inesperado peso que uma ausência pode transportar consigo. E a idade de Soares é o grande não-tema, o omnipresente mas invisível fantasma de toda a campanha presidencial. Se o filósofo tem razão, a sua invisibilidade não lhe vai tirar importância e premência. Antes pelo contrário.

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