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Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Negri, Raposo e os talheres (2)

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Deineka

Caro Henrique Raposo,
Como apenas leu em diagonal o que escrevi, vou-lhe relembrar as três correcções que fiz ao seu artigo na revista do “Diário de Notícias”, que eram para ser de começo de conversa, mas vão mesmo para o fim dela, para não torturar incautos leitores. Não vou perder muito tempo com a sua modesta afirmação de que o marxismo morreu. A afirmação coexiste desde do tempo de Marx e se ainda hoje há quem a discuta é porque estamos perante um moribundo muito saudável. Mas vamos por partes:
1. Não há entre os marxistas uma chancela oficial de quem é ou não é marxista. Ao contrário do que você está convencido, existem muitas correntes no marxismo e até existem várias leituras de Marx. Melhor dizendo, Marx escreveu coisas diferentes e às vezes contraditórias durante a sua vida. Para agudizar esta questão, dá-se até o caso de que as obras de Marx foram sendo conhecidas durante um intervalo de tempo muito grande. Parafraseando Gramsci, que você conhece da autobiografia da Filomena Mónica, cada geração teve de descobrir o seu próprio Marx. Veja bem, se os livros II e III do Capital só ficaram disponíveis no fim do século XIX, já os Manuscritos económico-filosóficos só viram a luz do dia no final dos anos 30 do século XX e os importantes textos que Marx escreveu entre os anos 1858-1863, incluindo o Grundrisse – sobre o qual Negri vai escrever um dos seus livros mais importantes: “Marx oltre Marx” – só são conhecidos depois de 1945!
Você cita as críticas, a Negri, de Samir Amin e de Imannuel Wallerstein, ambos de uma corrente do marxismo que investiga o “sistema mundial capitalista”, mas tem que ter em conta que ao contrário da Santa Madre Igreja, não há um Papa que possa excomungar os crentes. O próprio Wallerstein está ciente da multiplicidade das leituras marxistas quando afirma que “mais do que o fim do marxismo, assistimos ao florescimento disperso e impotente de mil marxismos” (Bidet, Jaques; Eustache, Kovélakis: Dictionnaire Marx Contemporain , PUF, Paris, 2001, pag 59).

Negri, Raposo e os talheres (3)

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Estimado Henrique Raposo,
Acho-lhe imensa graça quando garante peremptório que aqueles que, como Negri, incorporam contribuições de Deleuze ou de Foucault não são marxistas!
Meu caro Raposo, enquanto as suas contribuições para o “Acidental” não são cristalizadas, como diamantes, no corpo teórico dos estudos sobre o marxismo, existem algumas obras de referência para os investigadores. Há entre milhares de obras de estudiosos do marxismo, quatro livrinhos fundamentais: Dictionary of Marxist Thought de Tom Bottomore, Dictionnaire critique du marxism de G. Labica e G. Bensussan, Historisch-Kritisches Worterbuch des Marxismus,dirigido por W. F Haug e sobre desenvolvimentos mais recentes temos alguns livros, entre os quais, Dictionnaire Marx Contemporain, dirigidos por Jacques Bidet e Eustache Kouvélakis. Estranhamente, talvez porque ainda não souberam do seu veto, grande parte destas obras abordam como corrente do marxismo o “operarismo” italiano (o tal do Negri), e, vergonha das vergonhas, o último dicionário dedica um capítulo a Deleuze e outro a Foucault. Vão ter que enviar, como nos tempos da saudosa enciclopédia Soviética, uma lamina para os leitores arrancarem as páginas, para a obra ficar de acordo com o “cânone Raposo”.
Mas vamos a matéria de facto, esta diversidade e mudança deve-se entre muitas causas, a uma pequena que você vai reconhecer na frase de Sorel: “é preciso ter em conta, para apreciar correctamente a mudança acontecida nas ideias, a mudança que o capitalismo teve ele mesmo.”(Sorel, Georges: La décomposition du marxisme, PUF, Paris, 1982, pag 237).
Esta constatação das mudanças no capitalismo tardio e das novas formas como o actua e da especificidade do problema do poder, encaixa na segunda correcção que eu fiz ao seu texto no “Diário de Notícias”, como se recorda eu afirmei-lhe que a sua ideia que “Negri reduz o mundo a duas estruturas anónimas. Não existem homens ou ideias”, era incorrecta. Porque Negri e o “operarismo” italiano vão contestar as correntes marxistas mais sujeitas ao determinismo económico, apoiando-se numa longa tradição marxista italiana, começada em Gramsci, afirmando um certo primado da política e das questões do poder e garantindo que mesmo os desenvolvimentos tecnológicos eram frutos dos homens e dos seus conflitos. Em Negri, o poder constituinte da multidão está em potência, é uma possibilidade, mas não uma fatalidade. Ele vai buscar a Deleuze e a Guattari a sua reinterpretação do materialismo histórico e a Foucault a análise das formas do poder, nomeadamente, a transição de uma sociedade da disciplina (Escola, Fábrica, Exército e Prisão), para uma sociedade do controlo, onde as formas do poder se tornam biopoder e são incorporadas pelos próprios controlados. E em passada rápida chegamos à quarta crítica que eu lhe fiz, entre muitas que lhe podia ter feito, a ideia de que um homem não “alienado” não é originária de Marcuse, como você escreveu, no seu texto, mas encontra-se em páginas do próprio Marx. Mas isso fica para o meu último post sobre os seus talheres.

Um alegre “obrigada”

Inês Pedrosa tratou de agradecer ao seu candidato, de forma emocionada e grandiloquente, “por ter, em menos de três meses, despertado um milhão, cento e vinte e quatro mil e seiscentos e sessenta e dois portugueses para a nobreza da política e a força da cidadania.” Numa versão alternativa, também poderia agradecer ao poeta por ter, ao fim de onze mil, cento e noventa e sete dias, ter despertado da sua funda modorra de deputado que nunca se distinguiu por ideias, propostas ou acções. Como um Rip van Winkle dos tempos modernos, ele acordou num mundo que não entendia. Mas acabou tudo em bem; agora, pode voltar para a sua AR, escolher uma boa cadeira e voltar a dormir.

Nhurrice II

Agora, JPH embarcou numa longa viagem de circum-navegação em redor daquilo que primeiro teve a dizer sobre o meu post. Já não me acusa de ver no Hamas uma IPPS. Agora, prefere passear por outras paragens, afirmando que a componente social do Hamas é desprezível por incluir apoio às famílias dos bombistas suicidas; que Israel se está nas tintas para essa acção social; que a facção bélica do Hamas é sinistra e que foi esta que venceu as eleições. (Até a foto que escolhi para ilustrar o post, que me parecia explicitar o carácter ameaçador do Hamas, depois de sujeita a um pouco de psicanálise caseira, é “reveladora sobre quem a escolheu” e “chic”.)
Nada disto me preocupa, conclui ele num fabuloso exercício mediúnico. Apesar de eu não ter escamoteado o lado negro do movimento nem o facto de este não reconhecer o direito à existência de Israel. Apesar de eu me ter limitado a reafirmar a complexidade de um fenómeno como o Hamas: não disse que a sua política social era boa ou má, não profetizei uma reacção definitiva de Israel a esta vitória.
Mas tudo bem. Se JPH prefere responder a afirmações que eu não fiz, estará no seu direito.

Será pecado?

Há algumas coisas a que não consigo resistir, embora por vezes até tente. Pequenos consumos que me deixam a remoer uma culpa vaga e irritante. Depois de matutar um pouco no assunto, escolhi a meia dúzia mais revelante e mais frequente:

Licor de amêndoa amarga
Má-língua
Episódios antigos do “Star Trek”
Historietas do Tio Patinhas
A “Bancada Central” da TSF
Bolachas Oreo

E vocês? O que fazem às escondidas, mesmo sabendo que milhões de outras pessoas o fazem também? Das vossas rotinas diárias, o que é que vos causa uma vergonha injustificada mas persistente?

Estás aqui, estás a levar uma cabeçada!

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Há um fenómeno que me intriga na internet e nos blogues: as transformações psicológicas que os seus autores sofrem. Lendo amigos e desconhecidos, verifiquei que se dá uma transformação similar aos condutores de carro quando protegidos pela quentinha armadura do carro ganham palavrão fácil. Tenho estimáveis amigos que rompem o casulo habitual das pacíficas criaturas e aparecem com ademanes de Rambo. Ligados à rede, não há violência verbal ou possível violência física que não sejam capazes.
Quando leio, nos blogues, textos que prometem tabefes e bengaladas penso sempre num velho professor de Judo que tive, o mestre Vasco. Certo dia, estávamos à espera dele, já tinham passado 20 minutos da hora do início do treino. O mestre chegou afogueado e bastante alterado como se tivesse corrido a maratona. Perguntamos preocupados: mestre o que sucedeu! Contou-nos que tinha discutido com um homem numa paragem de autocarro, palavra puxa palavra e o sujeito tentou-lhe dar um murro. E nós ainda mais preocupados: mestre o que é que fez? Projectei-o sobre o ombro e atirei-o ao chão, disse o experimentado judoca. E nós todos em coro: e a seguir? A seguir, respondeu o mestre serenamente, dei-lhe um pontapé e fugi não fosse o gajo levantar-se.

Nhurrice

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Não adianta mesmo tentar dizer a algumas almas que realidades situadas a milhares de quilómetros, factos que envolvem décadas de história e milhares de pessoas talvez não sejam fáceis de descrever com meia dúzia de palavras organizadas em slogans de efeito garantido e utilidade duvidosa.
Aparecerá sempre alguém de dedo acusador em riste reclamando o rápido retorno à segurança dos lugares-comuns, por norma com um reportório de graçolas à laia de acompanhamento. Desta vez, dizem-me que eu pareço acreditar que o Hamas é “uma IPSS no poder”, um bando de “filantropos”, portanto. Outra variante, menos chocarreira, postula que eu tratei de “perdoar”, através do “tom”, “uma organização terrorista por além de pôr bombas e matar muitas pessoas também ter creches e hospitais”. Ora esta intensão apenas vive em entrelinhas imaginárias: nunca me caberia “perdoar” coisa alguma. Tal como não me passaria pela cabeça culpar todo o Israel pelas mortes de civis que tem causado, em números desproporcionados, nos últimos anos.
Pois é. Não adiantou, como já se adivinhava, escrever que o Hamas “continua a manter uma ala de activos terroristas”; nem tentar explicar que não estamos em presença de uma estrutura monolítica mas sim de uma organização que por vezes hesita “entre dois pólos: a brutalidade pura e dura e a procura de soluções negociadas”.
“Ignorar que o Hamas é muito mais do que um grupo terrorista é simplesmente fechar os olhos à complexidade dos factos”, disse eu. Verdade, confirma quem prefere mesmo os chavões, as simplificações acéfalas. É que ler livros dá muito trabalho. E até assimilar umas parcas linhas de informação sobre a génese do Hamas, partindo do movimento de apoio aos refugiados Da’wah, é esforço excessivo para tão simples meninges. E, no entanto, bem explicadinha, a coisa até parece fácil de entender: o Hamas é um grupo terrorista. E é muito mais do que isso. Como iremos confirmar muito em breve.

Entregues à bicharada

Segundo o que o “Público” escreve e a TSF confirma, o deputado Duarte Lima encarregou-se ontem de proferir um animado discurso em que clamava pela restrição das escutas telefónicas a “crimes de terrorismo organizado, de tráfico de droga e crimes de sangue”. Não pensem que a descontextualização altera a intenção do impoluto político: ele confirmou depois que quer ver as escutas “exclusivamente” limitadas a estes três tipos de crime. De fora ficariam, tão somente, os crimes de corrupção, de peculato, de abuso de poder… precisamente as malfeitorias de que “políticos” como Fátima Felgueiras ou Isaltino têm sido acusados. Até aqui, nada de anormal. O homem tem contas a ajustar, relativas a outros tempos, ainda na memória de muitos.
Incrível mesmo é que os bonecos de votar do PS, do PSD, do CDS e do BE se tenham erguido em unânime aplauso a tal ideia. Uma das criaturas do PS chegou a gabar a “sapiência” e a “coragem” de Duarte Lima! Fernando Rosas manifestou o seu deslumbre com o tradicional “muito bem!” Até Ana Drago tratou de parabenizar o autor de tão descarada sugestão. Este, aproveitando a embalagem, teve ainda tempo para alvitrar que as magistraturas devem vir a ser colocadas em boas, desinteressadas e capazes mãos: as dos políticos, claro está.
No mesmo “Público”, pode ler-se um relato sobre o estado actual do famoso concurso dos helicópteros para o SNBPC: o Estado arrisca-se a ter de pagar o serviço ao vencedor do concurso e também a uma empresa que dele foi excluída em circunstâncias perfeitamente incríveis. E, para deixar este ramalhete de histórias deploráveis por aqui, soubémos ontem que a comissão de inquérito sobre o caso Eurominas foi fechada à pressa e à má fila pelo PS.
Estamos bem entregues, sim senhora.

Olha um livro!

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São narrativas curtas, argutas, maliciosas, estas Histórias e Morais, de JOSÉ ANTÓNIO FRANCO (Pé de Página Editores). Metem bichos mais ou menos domésticos, animais da selva, mouras encantadas, assassinos e ladrões. Acontece as personagens recusarem-se a entrar em cena, ou saírem dela deixando em grande atrapalhação o contador.

Um muito sumário aparelho gráfico dá, logo de entrada, um recado de descontracção e de jogo. E de vulnerabilidade. Veja-se esta versão muito apócrifa do «Capuchinho Vermelho».

o bosque e o jornalista

uma rapariga de saia castanha curta ia um dia num passeio pela floresta quando de repente um lobo alto e espadaúdo lhe saltou ao caminho uivando que nem um louco esfaimado assustada a rapariga escondeu-se atrás de uma árvore mas o lobo saltou para junto dela e perguntou-lhe quantos anos tens dezoito onde vais ao centro comercial comprar uma saia quem te deu o dinheiro ninguém é meu tu trabalhas não então onde o arranjaste foi a tia isaura que mo deu pelo natal então alguém to tinha dado para que queres tu a saia se já tens uma tão linda esta está muito velha e não tens mais nenhuma tenho muitas mais mas também estão muito usadas
estiveram assim a conversar durante algum tempo e acabaram por seguir cada um o seu caminho depois de uma cordial despedida
entretanto um homem que fazia reportagens e que andava por ali perto quando viu de longe os dois a conversar telefonou imediatamente para a equipa de segurança da floresta que apareceu momentos depois num veloz jerico treinado para perseguições
no dia seguinte a notícia no jornal era assim adolescente de saia castanha impedida de visitar a avó por lobo esfaimado e de ombros largos mais à frente dizia ainda não fosse a pronta intervenção acidental de um repórter do nosso jornal e a imediata reacção das forças de segurança e o caso poderia ter tido um desfecho bem trágico

moral no bosque ande sempre com a avó

Dique

Top-5 do Blogómetro (hoje):

1- Aqui é só gatas
2- Sexo na Banheira
3- Pitas Nuas
4- Abrupto
5- Apanhadas na Net

Pacheco Pereira faz-me lembrar a criança holandesa daquela velha história moral, aguentando com o dedinho na fenda o dique da blogosfera, enquanto do lado de fora há um oceano de pornografia a querer entrar. E o pior é que até esta imagem tão cândida, hélàs, se torna abruptamente suspeita.

Confissões de um duro ouvido

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Hoje, o “Fórum TSF” tinha uma pergunta algo exótica para interpelar os seus ouvintes: “com que coisa do nosso mundo se parece a música de Mozart?”
Aquilo pareceu-me um pouco tonto. Até que me surgiu uma resposta clara, em forma de imagem: a música de Mozart faz-me lembrar um ovo de Fabergé. A mesma perfeição formal; a mesma sensação de nada ali faltar nem estar a mais; a mesma admiração pelo génio, pela mente capaz de imaginar tais coisas. E a mesma sensação de tudo aquilo ser bonito demais, de tudo estar demasiado perfeito para o meu escasso gosto. Sei que cada ovo de Carl Fabergé é uma peça única, um feito irrepetível da sua arte. Mas não tenho grande vontade de ter um em casa.
Pronto. Já confessei: não gosto muito de Mozart. Agora podem flagelar-me em público.

É pá, eu não sou como o Pepe Carvalho, não queimo livros

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O estimado Raposo respondeu-me finalmente com muitas citações e insinua que eu quero queimar livros. Garanto-lhe que das minhas relações ideológicas só o detective Pepe Carvalho usava a biblioteca para fazer chama. O hábito dos autos de fé era mais para as suas bandas. Já que se deu ao trabalho de citar Leszek Kolakowski, autor dos três volumes sobre as “Main Currents in Marxism”, segue a resposta daqui a uns dias.
Finalmente, a sua ideia de que eu só leio gajos da minha tribo é comovedora. Parece-me que anda muito tenso, aconselho-lhe vivamente a ler este post sobre cenas de sexo na literatura, que a tensão é capaz de lhe passar.

O Bloco no seu labirinto

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Francisco Louçã teve um resultado pior do que aquele que o Bloco teve nas legislativas. Escaparam mais de 1% dos votos, grande parte deles jovens e urbanos. Ficou provado que uma parte do eleitorado do Bloco é volátil. A frase de campanha que ninguém é proprietário dos votos tem um reverso menos simpático: se as pessoas não se acham implicadas em causas comuns e num projecto político, isso quer dizer que têm uma relação de consumidor/espectador com a política e com o Bloco e não uma relação de sujeito da acção e de participante. Ora, o projecto político do Bloco implica a tentativa de construção de um nova organização que consiga responder a questões novas e evitar erros antigos. Esta construção não exige só a feitura de um programa de esquerda mais actual, mas sobretudo conseguir formas de ganhar, para a actividade política e para acção da Esquerda, importantes camadas da sociedade que se encontram privadas da capacidade de colocar a sua opinião.
Um tal movimento/partido tem de ter a capacidade de usar os novos meios e as tecnologias da comunicação, mas não pode ficar prisioneiro das mediações da comunicação. A política tem de existir para além da televisão e da comunicação social.
Um tal movimento político não se pode resumir à acção parlamentar tem que ganhar a rua. Tem que colocar muitas causas na ordem do dia e contribuir para uma nova hegemonia na luta das ideias.
Um partido de causas não deve ter a pretensão de ser a vanguarda de ninguém, mas tem de afirmar uma relação de “afinidade electiva” com os movimentos sociais e construir políticas e acções que dinamizem uma cidadania activa.
É preciso uma política que ultrapasse fronteiras nacionais, saiba responder às questões da ecologia, da precariedade do trabalho, da imigração, da privatização do genes e dos serviços públicos, dos novos meios de comunicação, e que se bata contra a política de guerra permanente do Império.
Os resultados das eleições presidenciais demonstraram que existe um elevado número de votos na esquerda (Alegre, Jerónimo e Louçã) que não se reconhecem nas políticas neo-liberais de Sócrates e que não se vão identificar com o sovaquismo (um híbrido de Sócrates com Cavaco). O papel do Bloco deve ser o de facilitador de convergências, construtor de pontes, tendo em vista a criação de novas plataformas plurais e de políticas de esquerda para a sociedade portuguesa. A capacidade de participar no necessário processo de reconstrução da esquerda portuguesa passa obrigatoriamente por abandonar todos os sectarismos. A forma como o Bloco conseguir acolher os seus militantes e simpatizantes que participaram nas campanhas de outros candidatos de esquerda é um sinal importante que é dado nesse sentido.

Terroristas no poder?

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Quem diria, há uns meses, que a situação no Médio Oriente iria dar esta cabriola: Sharon fora de combate e o Hamas pronto a assumir o poder na Palestina. Em Israel, ainda impera a incredulidade com a dimensão da derrota da Fatah, já à mistura com ameaças de cortes de fundos europeus e americanos à Palestina. É que ninguém esquece que o Hamas nunca reconheceu o direito de Israel à existência e continua a manter uma ala de activos terroristas.
Mas a realidade é sempre difícil de descrever por chavões. Há quase 3 anos, Pacheco Pereira, numa tirada amplamente aplaudida, sentenciava: “não há ‘dirigentes moderados’ numa organização terrorista, ponto”. Hoje, tenho oportunidade de repetir ipsis verbis o que então escrevi algures: ignorar que o Hamas é muito mais do que um grupo terrorista é simplesmente fechar os olhos à complexidade dos factos. É ignorar o que até a Anti-Defamation League constata no seu site: que o Hamas gere uma intrincada rede social, com hospitais, creches, escolas e caridades diversas. É ignorar a própria génese do movimento, surgido como oposição à notoriamente corrupta entourage de Arafat e então apoiado discretamente por… Israel.
Continua a ser instrutivo recordar o livro “The Palestinian Hamas”, escrito por dois académicos israelitas, com a sua explanação das dissensões internas que têm atravessado o Hamas, sempre oscilando entre dois pólos: a brutalidade pura e dura e a procura de soluções negociadas. (Um homem como Ismail Abu Shanab era um dos rostos deste último ponto de vista. Era; até Israel o matar.) O comentário da casa editora, a Columbia University Press, esse notório ninho de simpatizantes dos terroristas, é revelador: “desde que emergiu como desafiador da OLP durante a Intifada Palestiniana, o Hamas foi associado pela percepção pública ao terror e à violência. Agora, dois especialistas israelitas mostram que, ao contrário desta imagem, o Hamas é essencialmente um movimento político e social, fornecendo extensos serviços comunitários e respondendo constantemente às realidades políticas através de negociações (…)”
Por , passadas as primeiras ondas de choque, não sei bem qual vai ser a primeira “revolução” nos comentadores do costume: concluir que se calhar Arafat até não era assim tão mau, ou descobrir que, afinal, a Democracia talvez não seja mesmo sinónimo de paz e harmonia instantâneas…

Da história enquanto farsa

“-Peguem num exemplo histórico: o que distingue o fascismo português dos seus congéneres europeus? A priori, quase tudo os aproxima: contexto temporal, natureza de classe, até características precisas da ideologia e do funcionamento do Estado e do partido – o enquadramento das massas, o culto da personalidade, a militarização da vida social – you just name them. Mas como sempre, um olhar mais chegado à realidade observada permite descobrir diferenças significativas, nomeadamente as que resultam dos atavismos próprios às distintas variantes nacionais da espécie humana e que são aquelas em que eu me quero concentrar agora, por serem as mais ricas de ensinamentos e que maior valor explicativo possuem. Sem pretender de algum modo recuperar a memória do nosso fascismo, que foi justa e inapelavelmente condenado pela história, parece-me todavia evidente a sua benignidade relativamente a outras manifestações mais virulentas do género na Europa: tomem-se por termo de comparação o nazismo alemão com a sua demência genocida ou mesmo o franquismo espanhol com a sua sanguinolência incontinente e facilmente se entenderá o que pretendo afirmar. Coloca-se então a questão de saber porquê: Seremos nós melhores que os outros? Não, do ponto de vista moral nós somos tão maus quanto, porque em bom rigor tão mau é quem mata um como quem mata um milhão: o pequeno ou médio criminoso terá menos eficiência e menor notoriedade, concedo, mas uma dose de culpa igual à do grande. A razão é diferente: o que faz a nossa força (e nos torna menos maus que os outros, so to say) são justamente as nossas fraquezas, e o que nos safa é a nossa profunda e afinal tão estimável falta de convicção – o famoso “desinteresse” que Vaillant aqui descobriu na década de trinta e com o qual compôs, vinte anos depois, o seu Don Cesare. O “desinteresse”, como é sabido, é uma doença do sistema volitivo central que afecta a vontade e a crença e se exprime pela apatia e pelo cepticismo; entre nós, até as forças da repressão ele atacou. Pensem nas SS e na GNR, por exemplo: pensem primeiro em efebos correndo nus pelas florestas onde Armínio desbaratou as legiões de Augusto, à cata de fantasmas wagnerianos e de alguma paneleirice, e depois pensem nos gordos da GNR. (De novo a questão: serão estes melhores que aqueles? Não; os gordos eram igualmente perversos e até igualmente ridículos, apenas mais sornas e preferindo eventualmente cabeleireiras a rapazinhos). Ora enquanto o führerprinzip era um credo para ser levado a sério, e os nazis acreditavam mesmo nas parvoíces obscuras e complicadas que o Hitler inventou, com uma credulidade que fazia sorrir os seus homólogos nacionais, estes esforçavam-se apenas por viver “normalmente”, e o seu salazarismo não era mais do que uma mera conveniência, um expediente sem princípios elevados, e em última instância uma farsa; pois como disse a este propósito um erudito inglês, while some believed in the weirdest misteries, others believed in nothing but a succulent meal and a satisfying coïtus. Percebem?”

Benefícios da Aspirina B

No meio da apresentação mais importante dos últimos tempos, o projector recusa-se a colaborar com o portátil. Mudam-se os fios, mudam-se as máquinas: nada. Acabo de computador nos braços, passeando face aos dignos Clientes como uma daquelas mocinhas semi-desnudas que andam sempre de tabuleiro a tiracolo a vender charutos nos filmes de gangsters. Só mesmo se de repente apanhasse a síndroma de Tourette e desatasse a vomitar impropérios é que aquilo podia correr pior.
Neste momento acabrunhante, quando só desejo que desça das nuvens um disco voador que me leve para Urano, começo a sentir o efeito balsâmico do Aspirina B, através de um singelo pensamento: “isto agora está a parecer-me terrível. Mas mais logo hei-de escrever um post meio cómico sobre o episódio e a neura passa-me logo”.
Agora, aguardo em jubilosa esperança a última etapa deste processo terapêutico.

Manda a lista de livros sff

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Li no Acidental um simpático texto que me era directamente endereçado,em resposta a um post meu. Infelizmente, Henrique Raposo não se referiu a nenhuma das minhas críticas e, pelo que escreveu, nem sequer leu o texto.
Eu não critiquei Henrique Raposo por usar escritor liberais, eu apenas disse que ele não percebe nada de autores marxistas, TAL COMO EU TERIA DIFICULDADE EM CRITICAR UM LIBERAL, USANDO OUTROS PENSADORES LIBERAIS, QUE EU CONHEÇO POUCO.
Sobre as minhas críticas de substância, Henrique Raposo não respondeu a nada. E mais grave, não me enviou a listinha de obras para me libertar do Espada.
Junto deixo os dois textos para as restantes pessoas ajuizarem.

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