Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Domingo

Tive um sonho que era mais ou menos assim: no próximo domingo, às oito da noite, todas as televisões anunciam que Cavaco Silva é o novo Presidente da República, eleito à primeira volta (na RTP com 52%, na SIC com 54,5%, na TVI com 53%), os comentadores debitam as banalidades da praxe, que isto era o resultado previsível, que o homem de Boliqueime geriu bem os silêncios e os timings da campanha, que a esquerda fez mal em dividir-se, que Alegre e Soares acabaram por anular-se mutuamente, patati patatá, rebeubéu pardais ao ninho e agora um intervalo para compromissos publicitários, findos os quais voltam as emissões aos estúdios e surgem os directos nas sedes de campanha, os cavaquistas aos pulos e a fazerem o V com os dedos, enquanto se ouvem lá atrás os plop das garrafitas de 75 cl de Möet et Chandon compradas no Feira Nova e nas ruas cresce o alarido das buzinas que também marcaram presença nas maiorias absolutas de 1987 e de 1991 (mas não na Ponte 25 de Abril, claro está), e agora vamos para a sede de Mário Soares, caras de enterro, e agora para a de Manuel Alegre, só tristeza, e agora Jerónimo, malta cabisbaixa, e agora Louçã, tudo de monco caído, e os comentadores a trazerem novas fornadas de banalidades, será que Cavaco vai respeitar os limites constitucionais, como é que será a coabitação com Sócrates, e entretanto, discretamente, em rodapé, vão passando os resultados apurados pelo STAPE, gota a gota, grão a grão, distrito a distrito, e lá para as duas da manhã, quando acabam de ser contabilizadas as freguesias mais populosas, dá-se o choque, o drama, o horror: Cavaco Silva, afinal, fica-se pelos 49,9% (49,98%, para sermos mais exactos) e vai haver, ó céus benfazejos, a tal segunda volta que todos, ou quase todos, se esqueceram de equacionar.

Excesso de zelo

E no entanto o brief era simples: o cliente, num “ousado acto de gestão”, decidira ofertar algumas “pequenas comodidades” aos seus colaboradores, mordomias destinadas a “melhorar o ambiente de trabalho e, com isso, aumentar a produtividade”. O seu objectivo não deixava dúvidas: “-Se as pessoas se sentirem mais felizes em vir trabalhar, haverá teoricamente um maior rendimento” – e o próprio gestor poderá colateralmente aspirar a uma nomeação no conceituado relatório anual dos Great Places to Work. Suma felicidade = sumo rendimento, portanto; ganha o colaborador e ganha o gestor, que é como quem diz que ganha o país. Mas que não houvesse ilusões: os pequenos luxos postos à disposição dos colaboradores da empresa não podiam “de forma alguma” distraí-los do trabalho: “-Estamos a falar de pessoas responsáveis e as actividades têm regras de utilização”, precisou o gestor, que encorajou também os seus colaboradores a deslocarem-se mais cedo para o local de trabalho de modo a poderem tirar partido das diversas comodidades aí instaladas. A aplicação do “modelo de escritório anglo-saxónico”, em que ele diz ter-se inspirado, ao “estilo português”, que por muito viajado que seja nunca deixará de ser o seu, tem destes senões: os colaboradores, jovens logo entusiastas, reuniram-se em “comissão de colaboradores” e escolheram ter um ginásio e uma sala de squash; mas se a escolha da juventude foi aprovada, foram também impostos limites ao seu ardor desportivo (porque afinal “regras são regras”) e estipulados horários, de manhã, à hora de almoço e ao fim do dia, exclusivamente. Já o gestor, nas suas preferências, se mostrou mais recatado e com uma menor propensão para o dispêndio inútil de energia, bastando-lhe uma sala de descanso e outra de “cuidados pessoais” (não especificados) junto do escritório que ocupa no último andar do edifício e do qual se alcança uma ampla e inspiradora vista do seu jardim privativo. Numa concessão ao espírito new age, o gestor concebeu igualmente a ideia de um som ambiente que “transporta os visitantes pelos corredores da empresa”, sendo sua também a “selecção musical escolhida a dedo (necessariamente o seu) e que se reparte entre a música clássica e o chill-out, consoante a altura do dia”. Mas a sua referência às visitas diárias de uma manicura, uma cabeleireira e um engraxador (em particular deste último, um hábito que “bebeu da sua estadia nos Estados Unidos” e de que não abdica), constituiu um excesso de zelo que teria havido vantagem em evitar. Sucede que o gestor insistiu numa photo opportunity com o engraxador e, quando este lhe apareceu de fato e gravata, genuinamente honrado pela distinção que lhe era feita, ele mandou-o de volta para casa, a vestir o fato-macaco que distingue a sua função, para depois se fazer fotografar a ser engraxado (em sentido real) por um tipo aos seus pés (idem). Após cuidada análise, concluiu-se que a foto era politicamente incorrecta e socialmente insensível, mas depois de uma curta reflexão o cliente decidiu que podia ser publicada: afinal, era numa revista para gestores.

Ars longa, o pastiche caprichoso

Estava eu sentado na casa-de-banho, que é como sabemos lugar destinado a meditações e a leituras esdrúxulas, quando dei comigo agarrado a um dos 15 suplementos de um “Expresso” já atrasado, começando logo pela página de uma velha conhecida, mas que se apresentava na ocasião irreconhecível, oculta por um novo e frenético estilo capaz de a disfarçar como a mais decente e recatada das burqas. E de que falava ela? Ela escrevia muito, escrevia sobre tudo mas sobretudo sobre o Natal, que é a seca que todos sabemos, mais a mais para ela, que sente um indisfarçável ennui a cada vez que o calendário se aproxima do dia 25 do costume, do menino Jesus, da manjedoura, da Palestina e, acima do mais, do consumismo desenfreado. O SMS, a hipocrisia kitsch, o presentinho, a bichinha do centrinho comercial, isto é a nossa sina, condenados como estamos a manter apenas este sentimento de ocidental. E ela lembra-se bem do Fernando Calhau (animem-se que é o único nome que ela larga na crónica toda, logo ela que se dedicava ao name-dropping com o afinco produtivo das gaivotas da Praça Duque da Terceira em pleno bird-dropping) e ele até lhe ofereceu uma t-shirt a dizer I spend therefore I am, e isso das compras deixa a menina a pensar que está tudo doido, é que ela sim tem direito a comer pratos gratinados com cabernet sauvignon na Madragoa e o pior é logo a seguir quando chega o sacana do fim do ano. Ela quer mesmo é ir mudar de ano ao Brasil ou a um país muçulmano, longe das passas e da gente passada, porque se viu numa festa sinistra a olhar para os amigos todos com desejo de suicídio em massa como em Jonestown, e logo emborcariam uma litrada de cicuta se alguém representasse essa fatídica beberragem (claro que a moça só podia mesmo ter um desejo de término ligado a poção letal digna de filósofo, nunca aos banais artigos de drogaria manhosa que vitimaram os fiéis do reverendo Jones), e o Messias não vinha, e o champanhe corria como se fosse água (só não percebi se o tal Messias era o do espumante homónimo ou não). Pronto, a rapariga fez a malinha e deu de abalada para o Brasíu, só que chegou ao check-in e viu aquilo pejado de brasileiros barulhentos e portugueses chunguentos de sapatilha e aquilo foi demais, lá foi ela em busca de um lugar em executiva por quinhentas lecas, contos de reis, informa ela. Pró ano vai às Seychelles de executiva matar saudades de quando lá foi com Soares, pois agora nunca iria com o Cavaco, cruzes canhoto.
A senhora diz há anos que quer escrever um grande romance mas ainda não passou dos contos sofríveis, agora parece correr desesperada em busca de um estilo cool, diferente e orgulhosamente livre de pausas, cheira-me que ainda não é desta que vamos ter direito a degustar a prometida obra-prima.

Objectividade gastronómica

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Diz a sabedoria popular que os “homens conquistam-se pelo estômago”. Analisando esta longa campanha eleitoral, parece que aos jornalistas acontece o mesmo: quanto mais têm o rei na barriga, melhor. Não digo isto para arranjar uma classificação que me favoreça, longe disso. É a mera experiência e análise científica que me leva a tão prosaica conclusão.
Longe vão os tempos em que aos jornalistas pedia-se que relatassem e compreendessem o que viam, para fazerem notícias e reportagens. Hoje, todos os factos estão na periferia de qualquer notícia e no centro está aquilo que importa: o jornalista com as suas gracinhas, conclusões e, claro está, com o seu estômago.
Para aferir a importância crescente de tal órgão, fiz uma experiência: li, com enlevo, as classificações das campanhas (as famosas setinhas) feitas pelos jornalistas dos jornais de referência cá do burgo. É preciso esclarecer que tal secção acompanha as reportagens dos diversos candidatos e serviria para o jornalista, em poucas palavras, sintetizar os factos jornalísticos mais relevantes dessa jornada eleitoral. Desenganem-se aqueles que pensam encontrar desnecessárias e supérfluas considerações políticas e noticiosas; aqui revela-se em todo o seu esplendor o que importa no bom jornalismo: como é que os candidatos tratam os grandes jornalistas!
Pegando no diário Público, do dia 16 de Janeiro, temos o seguinte relato circunstanciado:
A jornalista Helena Pereira classifica positivamente a campanha de Jerónimo de Sousa, dando uma seta para cima ao seguinte facto relevante: “os almoços e jantares, muitos deles confeccionados por militantes devotados, como ontem, não têm nada que ver com o menu habitual das campanhas”. Já a voluntariosa Maria José Oliveira dá a sua seta negativa à candidatura de Manuel Alegre, para a seguinte situação: “as horas tardias que começam os jantares e discursos e as acções matinais são extenuantes. A comunicação social começa a mover-se a vitaminas.” A jornalista Fernanda Ribeiro, que faz para o Público a cobertura da campanha de Mário Soares, não fica atrás dos seus camaradas (será que no jornal de Belmiro de Azevedo se tratam assim?) e dá uma seta ascendente e gulosa ao seguinte facto da campanha: “o almoço na Quinta do Paço, que além de cabrito teve direito a lareira, foi a melhor refeição dos oito dias de campanha.” Sempre rigoroso, Nuno Sá Lourenço dá a sua seta negativa a este aspecto transcendental da campanha de Cavaco Silva, neste dia fatídico para o estômago dos repórteres: “serviço de catering com excesso de zelo, com refeições a serem servidas durante o discurso”.
A minha teoria é que esta deriva gastronómica da classe revela um processo muito mais profundo. Os jornalistas acham que estas minudências são importantes porque eles são muito importantes. Muitos profissionais pensam que não são pagos para relatar, segundo as regras do jornalismo, mas para julgar. E o mais grave é que, como acham que o estatuto do jornalista está acima do comum dos mortais, a maioria dos jornalistas defende, segundo o inquérito feito à classe, durante o Congresso dos Jornalistas, que os profissionais da comunicação social não podem ser militantes de partidos, nem terem uma qualquer participação cívica e política, o que consubstancia uma ideia positivista de que os jornalistas estão acima da vida comum e como tal o que pensam e escrevem não é a sua opinião, mas “a verdade”.
Qualquer jornalista devia-se lembrar, como escreve Regina Guimarães (oportunamente citada pelo José Mário Silva), que come, caga, devaneia, dorme, sonha, sua e trabalha como quase toda a gente.

Outra ameaça à segurança mundial?

Depois do desvairado Mahmoud Ahmadinejad, aqui está mais um presidente cheio de vontade de inventar cenários em que poderá ordenar o uso de armas atómicas. Este não quer apagar Israel do mapa; as suas mais modestas ambições passam antes por defender aliados ou “abastecimentos estratégicos”. E tem um hino guerreiro que inclui qualquer coisa como “Qu’un sang impur abreuve nos sillons”. Isto está a ficar cada vez pior.

Topsy, a primeira mártir da electricidade

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Ao explicar ontem à minha filha a diferença entre corrente contínua e alterna, lembrei-me de uma história curiosa. No início do sec. xx, Thomas Edison tentava a todo o custo proteger as suas lucrativas patentes do avanço da corrente alterna, que tinha o estranho e genial Nikolai Tesla por progenitor.
Aproveitando-se da planeada execução de uma elefanta — acusada de ter dado cabo do seu tratador depois de este lhe ter dado a provar um cigarro aceso — Edison tratou de propor a sua execução com… corrente alterna. Tudo para cimentar a noção de que esta forma de electricidade era perigosa, coisa de que ele já começara a tratar, procedendo a várias execuções de cães e gatos e cedendo o gerador necessário para o funcionamento da primeira cadeira eléctrica.
O elefantícidio consumou-se no meio de fumo e faíscas. Depois de alimentada com cenouras temperadas com cianeto, a pobre Topsy foi ligada a uma corrente de 6.600 volts. De acordo com a imprensa da época, “the big beast died without a trumpet or a groan”. Claro que a execução pública foi filmada pelo próprio Edison.
Mais pormenores deste bizarro episódio do avanço da Ciência aqui.

TV Susto

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Ontem, pela primeira vez, vi um noticiário da Rede Record. E aquilo mete medo. Imaginem o “24 Horas” em movimento: crimes em barda, corrupção por todo o lado, gente feia até mais não. Tudo tem aspecto patibular: do deputado corrupto ao delegado, passando pelos políticos, que, por sinal, andam sempre em fuga. Nunca antes tinha ouvido tantas vezes, em tão pouco tempo, as palavras “assalto”, “tortura”, “assassinato” e “chacina”.
Tão cedo não volto a falar do sensacionalismo das nossas TVs.

Atenção, cinéfilos

Há um filme português inédito a passar, em sessões contínuas, na Procuradoria Geral da República (ali para os lados do Príncipe Real, não muito longe da Cinemateca). A história é inverosímil; o realizador, péssimo; mas isso não importa nada quando estamos diante de um objecto de culto. Refiro-me, é claro, ao muito citado por estes dias Envelope 9 from Outer Space.

Eles andam por aí

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Para termos a inteira medida do que será a vitória de Cavaco, devemos prestar atenção à malta que ciranda em seu redor. Nem toda, é certo; mas a sofreguidão induzida pela proximidade da vitória já arreganha os caninos aos mais incontinentes. E lá começam a escorrer os insultos e a soberba. Agora, no Pulo do Lobo, que por norma até parece espaço mais ou menos civilizado, surge o McGuffin, brandindo os cacetes do costume: generalizações, agressividade, arrogância, falta de educação democrática.
Para este senhor, as eleições só nos colocam dilemas simplórios: de um lado, há “três ou quatro pseudo-candidatos”, com ideias por certo “de pacotilha”. Eles entretêm-se a produzir “ruído. Nada mais”. Todos andam “apostados em”: “denegrir”, “ridicularizar a austera figura de Cavaco” (ai que aleivosia!) e “desferir sórdidos ataques” que apenas revelam o “vazio e a indigência” dessa malta. Sim, que a “grande farsa desta campanha, protagonizada sobretudo por Soares e Louçã” é a “incapacidade destes para apontar um rumo ou uma estratégia de longo prazo para o país”, capaz de ir além do lugar-comum das “mui queridas questões «fracturantes» e do empenho em cultivar um estilo «cosmopolita» e «moderno».” Ao fim e ao cabo, é como se essa horrenda maltosa bramasse: “nós, que somos importantes e fundamentais, propomo-nos para bibelot pois não temos opinião sobre nada”. Soares, claro está, vagueia “fora do mundo”, carregado com a sua “puerilidade aliada à soberba”. Tudo isto é, de acordo com o vocabulário mal-educado do senhor Carapinha, “obviamente bullshit“.
E que tem ele a dizer do seu candidato? Nada de famoso. “Cavaco Silva não é propriamente uma figura «interessante». A «grande» sofisticação não mora ali. Também não se adivinham conversas de antologia sobre os mais apaixonados temas”. Então, porque vai ele votar nesse palonço sem interesse? Preparem-se: é porque “o que faz falta é sacudir a malta, esbofetear a malta, chatear a malta”. Nem mais. Cavaco será um “homem sério”, “adepto do rigor e da competência”. E essas credenciais bastam para fazer um Presidente. É que o McGuffin fica “mais descansado se souber que em Belém está um homem que, não se tendo resignado, está disposto a trabalhar. Ou, se quiserem, a «chatear».”

É ou não é uma tristeza?

A indecisão do poeta

Querem ler os brilhantes argumentos com que Vasco Graça Moura transforma a sua coluna de hoje num panfleto eleitoral? Vão lá. Ou, se quiserem poupar tempo, podem ficar com um breve resumo, com alguns comentários meus à mistura, em itálico:
Portugal está face a uma grave crise económica. Para a ultrapassar, “é imprescindível que haja total coesão e compreensão entre os órgãos de soberania”. Portanto, devemos votar num candidato programática e ideologicamente próximo do governo, certo?
O candidato salvador vai escorar a sua “capacidade política” “no rigor, na experiência, na competência e também na disponibilidade permanente”. Estará ele a falar de Soares, que nem aos 80 pára?
Mas claro que também é natural que a “personalidade do candidato conte, e conte muito, para a sua designação”. Portanto, devemos recusar o candidato que ainda há dias negou palavras suas e mentiu descaradamente.
Se estes métodos de selecção falharem, o melhor é eleger o candidato com um manifesto que seja um “compromisso solene e um programa viável de actuação”. Estou a ver aí uns quatro nessas condições…
Devemos exigir alguém que afirme a “sua independência e o seu posicionamento acima das forças políticas”. Já não percebo nada; agora está a apelar ao voto em Alegre?
A fechar, o nosso homem em Belém deve rejeitar “enquadramentos e compromissos partidários, a dicotomia esquerda/direita, a revisitação do passado e a ordenação do presente segundo enfoques paroquiais ou interesses mais do que discutíveis”. Aparte a ideia de fazer de conta que não há esquerda ou direita, não se entende grande coisa desta passagem; mas aquilo de não se regressar ao passado deve deixar de fora pelo menos Cavaco e Soares.

E agora, em quem vai votar Vasco Graça Moura, se não consegue coligir nem uma meia dúzia de argumentos que se possam aplicar apenas ao seu candidato? Pobre homem indeciso…

Um líder, uma visão

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George Bush continua a sonhar com a “vitória completa” que não deve tardar, uma vez que, “apesar dos obstáculos que enfrenta, os iraquianos mostraram que sabem unir-se em prol da unidade national”.
Ao mesmo tempo, a agência oficial de ajuda humanitária americana encontra ali um país “fora de controlo”, dividido por um “conflito intestino” envolvendo grupos religiosos, étnicos, criminosos e tribais. Será o mesmo “Iraque” de Bush?

Inovações turísticas

A última edição do suplemento de viagens do The New York Times traz uma reportagem bizarra. Sequestros fictícios como parte de pacotes de viagens. E, ao contrário do que se pode imaginar, nada tem a ver com destinos com uma famosa reputação dos raptos.
A “fabulosa” ideia é da empresa espanhola Bandoleros Tours. O objectivo é mostrar como era a vida dos bandidos do século 19, que povoavam Serra Morena, na Andalucía. Uma quadrilha vestida a rigor “força” os turistas a descer de um autocarro com as mãos amarradas e os faz percorrer quilómetros em motas.
Os ingleses adoraram a adrenalina. São os que mais pagam os 2.500 euros pela brincadeira.

Loucuras relativas

“Tás louca?” Essa foi a pergunta que mais ouvi quando decidi dizer adeus a Portugal. Uma carreira que ia de vento e popa (para o abismo) na revista Focus foi o grande empurrão. O “apelo” da Universidad Carlos III para ali terminar a minha tese de mestrado sobre jornalismo de investigação, a grande desculpa.
Desde que cá estou – e mesmo sendo a Espanha um dos países com as taxas de desemprego mais assustadoras da União Europeia – trabalho não me tem faltado. Em quatro meses, passei por três empregos. Troquei um por outro só para somar alguns euros extras na minha conta.
Surpreendentemente, não falta oportunidades para quem fala português – mesmo com qualquer sotaque estranho, como é o meu caso. Falar meia dúzia de palavras em inglês é quase o mesmo que ser um nativo. Tudo porque os espanhóis não têm jeito nenhum para os idiomas. Um dos maiores desafios, por exemplo, é encontrar cinemas que tenham legendas. Eles são fãs incondicionais das dobragens.
Só hoje, aparecem 28 ofertas para os nativos portugueses no site Infojobs. No geral, ganha-se mais falando português aqui, que suando para fazer (bom) jornalismo em Portugal.
Mas ser imigrante em Espanha não é nada fácil. Antes de começar a bombardear as empresas com currículos bonitinhos e cheios de experiências, há que cansar as perninhas. Aqui, cidadãos europeus, sul-americanos, africanos e extraterrestres significam o mesmo: estrangeiro. Como tal, agrupam-se em longas filas à porta da polícia, para pedir um tal de NIE (Número de Identificación de Extranjeros). Sem o NIE, não és ninguém. Nada de ter conta no banco, querer alugar uma casa e muito menos, trabalhar.
O problema não é a fila em si, mas a notícia que tens ao seres atendido. O documento leva três meses para ficar pronto. Enviam-te uma carta a casa e depois tens que voltar ao empurra-empurra, para ter essa bênção de documento na mão. Nesses três meses, tu ainda não existes em Espanha.
Agora, a pergunta que mais oiço – e que até me encanta – é: “¿Eres italiana, guapa?” Não ter bigode feminino à portuguesa é um alívio…