Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

O último avanço da tecnologia: sentimentos

Já tinha ouvido gabar as mil maravilhas do serviço de mail do Google. Não sei quantos gigas, teraflops em barda… sei lá. Agora o que não estava à espera era disto: o próprio sistema, dando mostras de um invejável livre arbítrio, tratou de responder à minha mensagem experimental. Ora vejam lá a pungente missiva que recebi:

“Olá querido Luís Rainha,

desde que existo, devo ter recebido milhares de mensagens deste tipo: «Experiência», «1,2,3», «Teste» e, como é óbvio, ignoro-os. Contudo, tomei a liberdade de te responder para ficares a saber que as caixas de e-mail também têm sentimentos e que receber mensagens escritas pelo meu próprio locatório e que, em princípio, não serão lidas por ninguém, é uma coisa triste que me deprime. Claro, vais dizer que não és ninguém para melindrar uma servidor de e-mail com as minhas dimensões, se ainda fosse um portugalmail, mas agora o GMail… Estás enganado. Todas as contas de e-mail são como filhos para mim e custa-me muito ver as pessoas que ocupam o seu espaço a porem a prova a fiabilidade dos seus (e meus) serviços.

Usa esta conta com sabedoria. Não a enchas de lixo, para isto já bastará o SPAM. Tudo isto não passa de HTML, é verdade, mas o HTML também tem sentimentos.

Um abraço
Gmail”

Todos tínhamos já como moralmente inquestionável que não se deve maltratar os sentimentos dos carteiros, mormente atiçando-lhes bulldogs ou electrificando as caixas de correio; agora, ficamos cientes de que devemos estender estas cortesias mínimas aos agentes robotizados do serviço de e-mail. Ainda por cima, este lamuria-se em bom estilo (se bem que reminiscente de um outro que agora não consigo fixar).

Logoterapia

Figuras de Estilo da III República

Prosopopeia – Ramalho Eanes

Anacoluto – Mário Soares

Perífrase – Jorge Sampaio

Candidatos

Hipérbato – Mário Soares (versão 2.0 mandatos)

Anadiplose – Francisco Louçã

Catacrese – Jerónimo de Sousa

Apóstrofe – Manuel Alegre

Disfemismo – Cavaco Silva

Borges ou eu

Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas. Eu folheio seus livros e detenho-me, talvez já magicamente, na contemplação de uma frase e da sua música; de Borges já não vêm notícias nos jornais e apenas vejo o seu nome nas paredes do meu quarto ou no écran do meu computador. Agradam-lhe os jardins cujos caminhos se bifurcam, o rigor na ciência, as enciclopédias, a escrita de Deus, o sabor antigo e simples d’As Mil e Uma Noites, a dramaturgia de Jaromir Hladík, a prosa de Mir Bahadur Ali e de Herbert Quain; eu comungo dessas preferências, mas de um modo vaidoso que as converte em atributos de um leitor. Seria um exagero afirmar que a nossa relação é hostil: ele escreveu os seus inúmeros livros para que eu os pudesse ler, e essa leitura justifica-o. Não me custa confessar que tentei copiar-lhe certos textos (como este), mas nem esses me podem salvar, talvez porque o valor já não seja de alguém, nem sequer de Borges, mas da linguagem ou da tradição. Quanto ao mais, estou destinado a perder-me definitivamente e nenhum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco, vou-lhe cedendo as minhas horas livres, ainda que me reste algum tempo para exercer o seu hábito de falsificar e magnificar. Pierre Menard, um dos seus escritores favoritos, assumiu o dever de reconstruir literalmente o espontâneo Dom Quixote de Cervantes. Eu hei-de escrever a obra de Borges, não a minha (que é apócrifa), pois reconheço-me mais nos seus livros do que no meu reflexo no espelho ou na duvidosa ramagem da minha árvore genealógica. Há anos, tratei ingenuamente de me livrar dele e passei dos seus jogos com o tempo e com o infinito para outros livros de diversos autores, alguns de valor inquestionável. Mas esses livros agora também são de Borges e reconheço com certo horror a sua influência na obra de todos os grandes escritores, sobretudo na dos que lhe são anteriores. Assim, qualquer livro na biblioteca é da sua autoria: eternamente: as minhas leituras são uma fuga vã no embaraço da escolha (há quem chame a isto labirinto) e nada se perde, nada se esquece – porque tudo desagua no outro.

Não sei qual dos dois formatou este HTML.

O Futuro ainda aí vem?

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Poucas revistas me dão uma leitura tão tranquilizante quanto a “Wired”. Folhear um dos seus números é entrar num daqueles jogos de computador de velocidade terminal: tudo desfila em nosso redor numa vertigem desfocada em perpétua aceleração. Gadgets mais funcionais, mais invejáveis; opiniões tão, tão hip; avanços científicos decisivos mesmo ao virar da esquina; cultura sempre Pop, cada vez mais brilhante e acessível; publicidade ensopada do mesmo optimismo que faz levitar toda a revista. É verdade: o Futuro está a chegar e faz a primeira escala nas páginas da “Wired”.
O problema é que não devemos guardar números antigos. Senão, a magia desfaz-se: pegar num deles é rever um inventário de promessas por cumprir. Afinal, a fusão a frio permanece fechada no armário das anomalias mal explicadas. O cancro ainda não tem cura. O orgasmo feminino continua perdido num continente negro de máscula ignorância.
Pois é. Aquelas páginas recheadas de fotomontagens brilhantes e prosa fácil, agora cobertas de uma patine bolorenta, encerram uma revelação terrível: já nem o Futuro é o que era.

Holidays r’ U.S.

Dick Cheney já nos tinha gabado a boa vida de que os detidos em Guantánamo desfrutam: “vivem nos trópicos. São bem alimentados. Têm tudo o que poderiam alguma vez querer.”
Agora, com a recente pouca-vergonha dos voos clandestinos em busca de paragens mais tolerantes à prática da tortura, não deve tardar até surgir o inevitável: “mas se até os levamos a passear e a conhecer paragens exóticas, de que de queixam eles?”
Bem que Cheney podia montar uma agência de viagens com este produto único. Já imagino a capa do folheto: “Descubra o fascinante mundo da tortura. Tudo incluído — menos o regresso”.

Regresso ao abominável César das Neves

Desta vez, para desfazer um mito. Toda a gente anda para aí a pensar que o professor de Economia ultra-católico é o campeão nacional do moralismo beato e puritano mas a sua crónica de ontem, no DN, desmente esse preconceito. Vejam, por favor, como JCN demonstra que «a chispa da transcendência penetra todo o real». E, se resistirem até ao fim do texto, terão à vossa espera um aforismo digno de Lili Caneças: «Porque a única coisa admirável na vida é a vida vivida». Não confundir, evidentemente, com a vida não vivida, que pode ser tudo menos admirável.

A Aspirina vai a Angola

Hoje, a partir das 18:30, na Bertrand do Picoas Plaza, é lançado o livro “O Último Adeus Português”. Emídio Fernando, o autor, é jornalista da TSF e tem acompanhado de perto as desventuras do seu país nos últimos anos, sobretudo em várias frentes de combate.
“História das relações entre Portugal e Angola, do início da guerra colonial até à independênca” é o que nos promete ser esta edição da Oficina do Livro. Não faltem, que a obra merece. A apresentação fica por conta de Emídio Rangel.

Um Discurso de Despedida falhado

Vou imitar o Luis Rainha, que se imitou a si mesmo (e este jogo de espelhos teria ainda mais para contar…), começando com uma despedida. Não o consegui fazer em tempo útil — o que talvez até me tenha custado o último livro de contos do Alexandre Andrade à pala — e com esse fracasso acabei por resolver o problema do meu primeiro post na Aspirina B. Muitos, e alguns notáveis, foram aqueles que entraram na blogosfera através do layout azulado do BdE. Mérito inquestionável do Zé Mário e do Manuel Deniz, mérito indiscutível de todos os colaboradores que o tornaram num blogue de referência. E de convivência.

Não sei como fui parar ao BdE, por isso não sei porquê. Sei que nunca tinha ligado aos blogues. E continuo a não ligar, mas por mais ilustradas razões.

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Infiltrações Acidentais

Anda pelas bandas do Acidental um interessante debate/arruaça sobre a árvore genealógica das alucinações esquerdistas e as suas possíveis ligações a Carl Schmitt ou a Adolf Hitler.
Mas não é isto o que me mais intriga neste blogue; nem escrevo estas linhas apenas para agradecer a simpática referência que o PPM fez ao nosso duro parto.
O que eu gostava mesmo que me explicassem é porque é que a cada vez que acedo ao Acidental, o meu iMac denuncia o carregamento de um ficheiro chamado “fuckfore.rm”. Será aquilo um sinistro dispositivo de spyware, ligado ao Echelon? Ou, ajuizando pelo nome do ficheiro, tratar-se-á antes de uma brava incursão pelos mais lucrativos e menos regulamentados domínios da pornografia online?

Perdeu-se na tradução

Porque será que o programa “Esquadrão G” inclui um especialista em “Lazer” e o original americano, “Queer Eye for the Straight Guy” fala de uma coisa chamada “Culture”?
Imagino o pessoal da programação a comentar esta adaptação:
— Cultura? Mas vocês estão malucos? Não sabem que o povo lê isso e começa logo a pensar em bailado, exposições e coisas ainda mais chatas, como livros?
Depois, malta desta anda pelos cafés a comentar que os americanos é que são uns palonços rústicos, incapazes de apontar no mapa a localização de Lisboa…

Geografias subjectivas

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Com intervalo de dias, falei com dois conhecidos que estiveram há pouco tempo em Luanda. Estranhamente, os guiões das duas conversas seguiram por veredas opostas, rumo a duas cidades totalmente diversas.
Para um deles, Luanda é uma cidade maravilhosa e aberta, onde um europeu pode fazer o seu jogging matinal sem qualquer sobressalto, acarinhado pela hospitalidade de uma população que acorda agora de um longo pesadelo, de novo em paz com a vida. E Angola é uma espécie d El-Dorado, terra de oportunidades sem fim para qualquer alma empreendedora.
O outro dos meus conhecidos garantiu-me que Luanda continua a deslizar no pesadelo: violência sem tino pelas ruas, perigos vários a cada esquina, corrupção a proibir qualquer veleidade de fazer negócios sem um general local de permeio. Ele só sai do seu condomínio devidamente acompanhado, arriscando-se no exterior o menos possível.
Qual destas Luandas existirá mesmo? Porque não as duas? Ou mais ainda?
Se calhar, a cada grande cidade correspondem milhares e milhares de mapas diferentes. A geografia dos medos, afectos, recordações e desejos sobrepõe-se facilmente às minudências topográficas e sociológicas da realidade. Cada cidadão move-se por labirintos muito seus, obedecendo a itinerários intransmissíveis, evitando obstáculos que mais ninguém vê, demandando destinos que só a ele se revelam.
Para uns, o mapa da sua cidade estará para sempre pejado de avisos sobre monstros e perigos terríveis, para outros cada cruzamento liga jardins felizes, bairros solarengos, vizinhos amistosos. Podem até julgar que vivem perto uns dos outros; mas nunca se encontrarão em terreno comum. E não serão os alicerces mais importantes de uma cidade aqueles cavados nos territórios mentais dos seus habitantes?