Anjos de mãos sujas

Há uns dias, vi uns segundos de imagens de uma guerra hoje já extinta e quase esquecida: um jovem árabe sorridente dialogava com homens armados, enquanto empurrava dois desgraçados de olhos baixos e mãos amarradas. De acordo com a voz-off o jovem estava a solicitar aos outros que o deixassem matar os prisioneiros. Por fim, fizeram-lhe a vontade. Ele abriu um grande sorriso e dirigiu os condenados para a mata. Claro que nunca mais ninguém os viu.
Estas imagens perseguem-me. Menos pela brutalidade implícita da situação, nem pelo olhar resignado dos condenados, mais pelo sorriso daquele miúdo em busca de sangue. Era um combatente da Jihad. Não da Grande Jihad, al-jihad al-akbar, a luta pela iluminação que os crentes devem travar, mas sim de mais uma rasteira guerra supostamente santa, naquele caso na Bósnia.
Beatitude. Eis o que li naquele sorriso. Ele estava em paz; não era um monstro agitado por paixões subterrâneas nem um ogre incompreeensível, movido por uma qualquer sede de Mal. Ele não conhecia aquele país, e talvez nem soubesse ao certo quem eram os prisioneiros. Mas tudo lhe devia ser indiferente. Limitava-se a deixar-se ir numa corrente de destino que já o tinha trazido de tão longe, mero instrumento passivo da vontade do seu Deus. E isso dava-lhe a felicidade suprema dos bem-aventurados. Desde que pudesse matar.
A Morte não tem de ser a criatura feia e nauseabunda que aprendemos a recear. Ela também tem rostos bonitos, olhos sinceros, sorrisos juvenis de alegria impoluta.
Outros anjos letais aterraram neste mundo em África, no Ruanda. Sob a forma de bons cristãos. A rádio não deixava de os empurrar para o massacre com santos cânticos e a promessa reconfortante de que a mão de Deus iria empunhar as machetes em uníssono com os seus músculos. E berrava-lhes coisas como “não os matem com uma bala; cortem-nos às fatias”, “não esqueçam os bebés”, “Deus está connosco!”
Outra guerra santa, portanto. Para os milhares que saíam de casa todas as manhãs para retalhar a golpes de catana os seus vizinhos e os colegas dos seus filhos, aquela tarefa de matadouro só permitia descanso ao domingo; esse dia era dedicado a Deus. Também imagino muitos dos milicianos Interahamwe a sorrir o sorriso que agora não se descola das minhas retinas. O sorriso de quem se sabe mais perto de Deus. E mais longe dos homens.
É por estas e por outras que a religião sempre me pareceu coisa desumana.

12 thoughts on “Anjos de mãos sujas”

  1. “É por estas e por outras que a religião sempre me pareceu coisa desumana.”
    Hum, deixa-me meditar (já que não medito política). Bem, prefiro pessoas com ponta de religião do que nenhuma (o que é o meu caso, lol).

  2. Concordo com o Monty. Não precisamos de mandar fora o bebé para nos livrarmos da água do banho. E quer tu queiras, quer não, caríssimo Luís, a religião é coisa constitutivamente humana. Daí, como em tantas outras dimensões do humano, a sua também inevitável perversão ao longo dos tempos.

  3. Reparem que “desumano” não é mau em si…
    Mas a religião é mesmo algo que pode afastar do humano. Pelo menos às almas mais impressionáveis com divindades de fancaria.

  4. Para além de me juntar aos que acham o post excelente, queria tocar na última frase ( também eu!)
    É que infelizmente por a religião ser humana é que é assim. Se não fosse inventada pelos homens, possivelmente teria as tais características de bondade e de ética que lhe faltam.
    Do meu ponto de vista, o mal da religião é mesmo o ser uma construção humana com o que isso implica.

  5. Sim, Luís, mas para afastar do humano (no suposto contexto em que aplicas o conceito) qualquer coisa serve. Ou não será válido dizer que a ideologia pode afastar do humano? Ou que a tecnologia pode afastar do humano? Ou mesmo que a racionalidade pode afastar do humano?!… Estamos no campo dos discursos ambíguos, em que não se definem as premissas, pelo que as sentenças são imunes à crítica. (e nada de errado com isso, claro)

    O que me faz saltar para a arena é essa acusação genérica sobre toda e qualquer forma de experiência religiosa. Porquê? Porquê a indução? Será que os crimes em nome do comunismo soviético permitem o juízo de a Esquerda levar a um afastamento do humano? Bastará alguém ter o Corão ou uma Bíblia na mão para se considerar religiosa? Será qualquer expressão verbal transparência sobre a interioridade? Rest my case.

    A religião não é apenas o aparato ritual, litúrgico, sacerdotal, normativo, institucional, político e sociológico. Sendo isso tudo, e muito mais, é também uma predisposição evolutiva, uma abertura intelectual que leva a outras matrizes antropológicas. Ora, querer fechar essa abertura ontológica é desumano. Ou seja, mau.

  6. Valupi,

    A vocação desta actividade, “religar-nos” ao Divino, é em si sobrehumana. A ideologia não tem tais propósitos. A tecnologia carece de desígnios desse jaez.
    Uma actividade do espírito que saúda e procura os êxtases, a beatitude, a transfiguração, abre mesmo portas que dão para sítios bem longe do Humano.
    O que, por si só, também não me parece coisa má. O pior é o resto; coisas como as que aqui recordei.

  7. Paz na Terra às pessoas de boa-vontade,

    O bestial “santo Agostinho” esclarecia de que a chave da exegese/hermêutica era a da aplicação da boa vontade na interpretação dos textos (sagrados).
    Serviria este post para esclarecer que com ou sem motivos, sempre sobraram pretextos para se despedaçar o vizinho. E nestes casos a religião é somente mais um dos tectos sobre os quais no abrigamos e nos diferenciamos dos “outros”. Nunca precisámos de grandes motivos para desgostar dos “estrangeiros”. Quando não é pela religião outro pretexto se descobre. Etnias que professam os mesmos credos, podem um dia acordar com o pé direito e marchar ao som de discursos inflamados. O que é que separa os Venezuelanos?
    De resto conflitos por motivos ideológicos são tão mortíferos como os demais. E eis que as ideologias são contruções humanas (tudo, todas as manifestações dos númenos são apreendidas por intermédio da nossa construção da realidade exterior). Perdoem-me a pertensa pedagogia de pacotilha (éh, tantos P’s) mas só acrescento que religare (no original, em latim) não tem propriamente a ver com um ligação ao Divino, mas sim , ao reino dos céus, o sítio de onde seremos todos originários. Tem a ver com a percepção de que somos figuras duais, parte matéria parte espírito, e que se este mundo é de Ariman (deus da matéria), material, falta um outro feito à medida do nosso espírito. O próprio do Cristo à conversa com o Diabo lhe explicou que não queria a Terra para nada, pois que o seu reino era noutro plano. Esta colecção de disparates termina com a assumpção (credo) de que deus foi feito à Nossa imagem e a partir das nossas melhores qualidades.
    E de que um ateu pode ser o primeiro entre pares nesse outro plano. Basta ter boa vontade. Corações ao Alto!

  8. O Zagas antecipou o que eu ia acrescentar. E eu vou redizer à minha maneira.

    Estamos sempre dentro da linguagem. O “sobre-humano” não é um existente material exterior, acessível a futuros instrumentos de medição e reconhecimento das suas características. Sendo mais um acontecimento da linguagem, a conceptualização do que sejam os lugares e modos do divino são, por isso, outros acontecimentos da linguagem, entidades que habitam o pensamento. Nesse sentido, são tão humanos como as outras entidades que consensualmente usamos para organizarmos a realidade; como as noções de “belo”, “liberdade”, “justiça”, “futuro”, “amanhãs que cantam” e um incomensurável etecetera.

    Somos nós que criamos os deuses. Quer isso dizer que os deuses não nos podem recriar a nós? Cada um que descubra por si, se tal oportunidade lhe for dada.

  9. Porque meter aqui a religião a martelo? Ou já se esqueceram que quando da guerra da Bósnia tomaram posições a favor dos “bosníacos” contra os sérvios?

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