Uma questão de pilas

João Ribas, o director do Museu de Serralves que se demitiu por alegada censura à exposição de Mapplethorpe, foi ontem ouvido pelos deputados da nação na comissão parlamentar de Cultura da Assembleia da República. A magna questão que mobilizou este órgão de soberania durante várias horas era a de saber se várias fotografias com pilas, presumivelmente erectas ou enfiadamente explícitas, tinham ou não sido retiradas ou desviadas da dita exposição, e por quem. Uma das pilas em causa seria talvez esta, mas não há a certeza, porque Ribas não acompanhou as suas declarações com imagens das peças alegadamente censuradas, talvez para não ferir a sensibilidade dos deputados menores de idade. Estaremos perante um novo e gravíssimo caso de (auto)censura?

Ribas evidenciou nesta história sumamente ridícula a sua enorme presunção e o seu evidente autoritarismo. O director do museu era ele, o curador da exposição era também ele, por isso ninguém mais tinha de meter a pila, perdão, o bedelho na arrumação das peças nas salas de Serralves. Ribas é que sabe o que pode e deve ser exposto, e como, num museu público visitado por gente de todas as idades, porque viveu muitos anos nos states e até comissariou exposições em galerias de Nova Iorque. Além do mais, Ribas é capaz de falar durante horas sem dizer rigorosamente peva. Veja-se como o gajo debita este charabiá pretensioso e intragável numa simples entrevista. Leia-se, entre outras, a resposta hiperconfusa à singela pergunta “Como é que a política se insinua no mundo da arte, hoje em dia, e vice-versa?”

Ofendido com a administração da Fundação de Serralves sabe-se lá por que insondáveis razões, Ribas optou visivelmente por tentar juntar ao seu currículo a glória de se ter demitido em protesto contra uma “censura” ao sagrado Mapplethorpe. Quando se souber disto nos states, o seu prestígio pessoal vai crescer e florescer, espera ele. Sejam quais forem as conclusões da ociosa comissão parlamentar de Cultura da Assembleia da República, o Ribas vai explorar a imagem (falsa) de defensor da liberdade e de S. Mapplethorpe até ao fim dos seus dias. Que o ature quem puder e gostar.

7 thoughts on “Uma questão de pilas”

  1. Júlio: por acaso, acho a resposta dele à pergunta sobre Política e Arte bem interessante e com muita chicha. Acho que nesta história estão todos doidos. Até eu por estar a comentar.

  2. bom, chamar manifestação artística a uma foto de um preto com um godomiché enfiado no rabo é manifestamente um exagero . se fosse uma pintura ou escultura, ainda vá,

  3. JPC: para mim, o Ribas não respondeu à pergunta, nem a várias das outras. A pergunta em questão apelava a falar das realidades de “hoje em dia”, mas ele preferiu divagar de forma buriladamente confusa, intemporal e abstracta sobre o vasto tema das relações entre a política e a arte, um velho debate a que não acrescentou nada. Chicha, para mim, zero. Aquela história do “fascismo interior” (uma expressão idiota) parece-me agora, à luz dos acontecimentos recentes, apontar para um problema qualquer dele, e que não é só com a “autoridade”. Ele tem dito que não pactua. Quem não quer pactuar, ou impõe ou racha.

    Aquilo deve ter sido uma entrevista escrita, não oral, mas o tempo que terá tido para preparar as respostas foi desbaratado: em lugar de nos dizer coisas interessantes da sua experiência, caiu em generalidades vertidas em critiquês. Por exemplo, à pergunta de se começou a interessar-se por arte quando se mudou para NY, respondeu com a impressão nele deixada aos 4 anos pela música de Bach, partindo daí para considerações sobre Platão, Mark Twain, Hegel, Kant, etc. E fugiu também a dar a opinião que lhe era pedida sobre a situação artística em Portugal.

  4. Os Parlamentares Portugueses, talvez por sentirem que não se tinham suficientemente coberto de ridículo ao convocarem O’Leary para depor, insistem na tontice ao chamarem o Director de Serralves para que os esclareça se a retirada de duas fotos de Mapplethorpe da exposição, alegadamente por mostrarem pénis, que possivelmente pela sua forma, tamanho ou, talvez, pela sua demasiadamente turgida erecção eram por demais ofensivos para serem mostrados, o que justificaria a decisão ou, se pelo contrário, o Director Ribas acharia que os referidos pénis eram da maior banalidade o que tornaria a referida retirada num acto da mais vil censura e um crime de lesa-arte.
    Suas Inanidades ainda não explicaram a que conclusão chegaram.

  5. Para se falhar bem tem que ser por excesso, não por comedimento. O Ribas falhou bem.

    Mas a AR permite alguma vez a exibição grafica deste tipo de obras? Pelo que sei o regimento nem permite que o Povo se manifeste nas galerias, quanto mais poucas vergonhas.

    Uma entrevista a uma revista de artes é necessáriamente uma oportunidade para um pitch, para brilhar, e a linguagem tem que ser necessariamente adequada à audiência não ao leitor do Nexpresso e do Pubico. Pretensioso? Claro, faz parte.

    O que me faz impressão é havendo umas fotos do Mapplethorpe de um lado e uma direcçao com o Pacheco Pereira de outro a preocupação com conteúdos supostamente pornográficos recaia nas obras do primeiro. Sad.

  6. O que se passou em Serralves só veio chamar a atenção para mais um Conselho de Administração sem qualquer currículo cultural. Já em relação ao carácter basta atentar na “brincadeira” dos avisos.

  7. A pergunta não é “singela”: o verbo está no infinitivo e o “vice-versa” ainda complica mais. Perante uma manifestação dita artística, duas perguntas simples seriam: gosto disto? É, isto, arte?

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