RTP: a Igreja lava as suas mãos?

O que diriam os bispos italianos, alemães, ingleses, franceses ou espanhóis se o governo resolvesse privatizar as televisões públicas dos seus países? A questão lá nem se põe, mas aposto que, se tal eventualidade surgisse, fariam uma santa guerra a propósito tão idiota. Mesmo no caso da água, que Berlusconi queria entregar aos privados, a Igreja católica italiana levantou uma onda de protesto, cujo curioso slogan era “A água é de Deus”. Mobilizaram-se os católicos, padres, bispos e até cardeais contra o plano do governo italiano, que acabou, aliás, rotundamente vencido num referendo nacional sobre o tema. Diga-se que Berlusconi, com as suas sete cadeias de televisão, nem sequer arriscou a ideia de privatizar a TV pública.

E por cá o que pensa a Igreja das privatizações anunciadas da RTP e das Águas de Portugal? Ninguém sabe. Paira um silêncio manhoso e pouco santo, hoje denunciado numa coluna do Público pelo cineasta António Pedro Vasconcelos, relativamente ao projecto de privatização da RTP. O que parece fortemente é que a Igreja católica portuguesa, desde que continue a ter os seus espaços nas estações de rádio e televisão privatizadas ou concessionadas a privados, não se importa nada com os planos do governo. Lava as suas mãos, como sugere Vasconcelos.

Marques Mendes, não se sabe se na qualidade de pequeno conselheiro de Estado omnipresente na política ou se na – até agora desconhecida – qualidade de católico, foi há dias a Fátima tranquilizar as hostes da Igreja. Segundo ali declarou, o tempo de emissão das confissões religiosas no serviço público de rádio e televisão “pode e dever manter-se”. E acrescentou esta coisa curiosa: “Esse debate ainda não foi iniciado, mas tem que ser feito e, na altura própria, essa componente de serviço público das confissões religiosas, tem de ser salvaguardado”. A ideia do pequeno conselheiro é a de que, com a Igreja posta em stand by, o projecto do governo passa sem novidade de maior. O desplante do fulano: agora não é a altura própria! Quis ele dizer: não estrilhem, mantenham-se quietinhos e caladinhos, que no final têm o rebuçado. Isto é, o prato de lentilhas, de que reza a Bíblia.

Não sendo católico, quero reconhecer na Igreja uma entidade cuja independência, espiritualidade, valores éticos e doutrina social representam valores estimáveis em qualquer sociedade plural. Quero reconhecer, mas ela não me deixa… Então a Igreja católica portuguesa, se não lhe forem ao tempo de antena, não tem nada a dizer sobre o projecto de transformar Portugal no único país europeu sem uma televisão pública generalista e sem um canal público vocacionado para programação cultural de qualidade? Então a Igreja está-se nas tintas para os planos borgianos-coelhinos de transformar a RTP-1 em mais um canal de novelas e tele-lixo e de extinguir a RTP-2?

10 thoughts on “RTP: a Igreja lava as suas mãos?”

  1. Sem dúvida, é uma questão que gera expectativas. Tanto mais que a Igreja não tem sido meiga para este Governo, o que não passará, aliás, do mais básico bom senso tendo em conta o nível rasteiro do mesmo.

  2. as fundações da igreja não foram metidas no pacote das avaliações e ninguém reclamou, a igreja escapa a tudo e só faz barulho quando o poder manda contestar para legitimar a excepção. quando foi da subsidiação do ensino privado no tempo do socras fizeram um cagarim filho da puta com cavaco a reger a orquestra e a inaugurar colégios em barda.

  3. Júlio, a igreja lava as mãos, lava os pés e até é capaz de lavar os “tomates”, desde que não lhe mexam nos tempos de antena nem nos subsídios aos colégios privados que detém nem nos privilégios de que gozam as suas fundações.
    Val, “a Igreja não tem sido meiga para este Governo”: Show-off e intox!

  4. Júlio: Muitos padres até que gostam (imagino eu) de ir espreitando as moçoilas e os moçoilos dos “reality shows” e das telenovelas… APV está a ser lírico e a apelar a uma instituição que não existe tal como a imagina. Querem lá saber da cultura laica, que, ainda por cima, não costuma tratá-los muito bem!

  5. é a única forma de agradar a gregos e a troianos até se pisar em terreno sem minas – o que não deixa de ser paradoxal em virtude de ter vindo a aumentar o número de membros da igreja católica que precisa de acompanhamento psiquiátrico.

  6. A igreja sobrevive há séculos,por que lança sempre um” filho de Deus” como reserva moral de uma igreja quando comprometida com os mais ricos e a direita” .No fascismo foi o Bispo do Porto que salvou a igreja do colapso,dada a sua prestimosa colaboraçao com o regime Salazarista.Hoje tem o bispo das forças armadas Torgal Ferreira como seu representante junto do povo de esquerda, depois de terem levado a direita ao colo para o poder.A historia historia repete-se mais uma vez..

  7. penélope,

    depende de que lado do espectro político está a cultura laica. E já agora, o que nos trouxe ao ponto em que estamos não foi a cultura laica nem a religiosa. O fanatismo ateísta irrita-me tanto como o religioso. (Mas isto sou eu,claro)

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