Pequeno exercício de história virtual

Pergunta:

Se o PS tivesse sido o partido mais votado em 4 de Outubro, com 36 ou 38% dos votos, como as sondagens durante longos meses indicaram, o que se teria passado?

Resposta:

Exactamente o mesmo que se passou: negociações falhadas do PS com a direita, negociações bem-sucedidas do PS com a esquerda, terminando com acordos de apoio do BE e do PCP a um governo minoritário chefiado por António Costa.

Teríamos a mesmíssima histeria da direita, acusando o PS de fazer acordos contra-natura com partidos revolucionários que querem Portugal fora do Euro e da Europa, que não respeitam os compromissos internacionais, blá, blá, blá.

Cavaco teria também feito o mesmíssimo e vergonhosíssimo discurso que fez a 6 de Outubro, tentando impor condições políticas às negociações entre partidos e tentando excluir o BE e o PCP de qualquer acordo partidário ou parlamentar com o PS.

Uma pequenina diferença haveria, porém. Após as eleições, António Costa teria sido chamado a Belém – tal como Passos Coelho o foi em Outubro –, mas Cavaco teria ameaçado não nomeá-lo primeiro-ministro se o líder socialista não lhe apresentasse uma solução governativa com estabilidade e durabilidade. Há muito que Cavaco vinha avisando que exigiria tal solução, dado considerar que governos sem apoio maioritário no parlamento não eram estáveis nem duráveis (sem razão, porque Guterres governou assim entre 1995 e 1999). Sabemos hoje – se alguma dúvida havia – que essa exigência de Cavaco era destinada apenas ao PS, se eventualmente recolhesse mais votos que o PSD e o CDS juntos, mas não tivesse maioria absoluta. Nomeando, como nomeou, Passos Coelho à frente de um governo sem maioria no parlamento, o presidente da República renegou sem vergonha os seus princípios e a sua palavra – que já não valiam nada, diga-se.

No fim, teríamos exactamente o mesmo resultado que agora se perfila: um governo minoritário do PS apoiado por uma maioria absoluta de esquerda no parlamento.

Cavaco deve agora chamar Costa e convidá-lo a formar governo. E depressinha, que se faz tarde.

 

13 thoughts on “Pequeno exercício de história virtual”

  1. Penso que Cavaco foi um PR golpista em favor da sua familia política e dos seus amigos. Se não só de si mesmo e dos seus amigos. A intentona de Belém, num país de democracia um pouco mais adulta, deveria ter-lhe acabado com a carreira ali mesmo. O primeiro sinal das suas intenções golpistas veio no célebre dia 7 de Julho de 2007 (penso que é esta a data) quando interrompeu as férias para fazer uma declaração ao país sem o mínimo motivo que o justificasse, e afrontando a unanimidade parlamentar!!!Ninguém ligou muito ao facto. Seria sol a mais ou coisa do género. Afinal, era o primeiro passo na senda do golpismo ao longo de dez anos miseráveis de presidência cavaquista.
    No que está a acontecer agora eu dou-lhe o benefício da dúvida. Ele diz que estudara todos os cenários. Acredito. Mas havia um, que nem ele nem eu alguma vez prevíramos, depois do que se passou nos trágicos idos de Março 2011. Os mesmo partidos que,&nesse ano fatídico, nos entregaram a Pedro, Paulo & Comandita decidiram, desta vez, afastá-los da nossa frente. Os quatro anos de destruição de tudo o que cheirava a Abril sobressaltaram as gentes de esquerda que sinceramente militam em todos os partidos da esquerda. O resultado das eleições de 4 Outubro eram um pavor: mais 4 anos de Pedro, Paulo & Comandita, viabilizados por um PS sem solução governativa. A não ser que…”o PS só não será governo se não quiser”, disse Jerónimo. E o PS de Costa quis. Ninguém esperava. A vida tem destas surpresas. Conseguirão os quatro mosqueteiros aguentar a violência dos ataques, ou a nossa direita só tem garganta quando canta do alto do poleiro?

  2. Os da direita entraram em esquizofrenia anti esquerdalhada; e é pena que alguns autores tinham muita categoria a escrever, mas agora ensandeceram.
    O tiro no Cavaco , desporto muito popular não deve deturpar os factos; até agora fez o que devia fazer e apesar da algazarra dos tudologos de serviço acredito que vais fazer o que está certo,nomear o dão sebastião Costa, confirmando a escolha do parlamento. Se há coisa que Cavaco nunca defraudou foi o respeito pela lei.

  3. “Se há coisa que Cavaco nunca defraudou foi o respeito pela lei.”

    Cadê a escritura da casa da Quinta da Coelha? E a venda das acções do BPN, também foi no espírito da lei? Tá certo…

  4. Mandaram-me esta por e-mail:

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    A CAMISA VERMELHA

    Napoleão Bonaparte, durante as suas batalhas, usava sempre uma camisa de cor vermelha.

    Para ele era importante porque, se fosse ferido, na camisa vermelha não se notaria o sangue e os seus soldados não se preocupariam e não deixariam de combater.

    Uma prova de honra, coragem e valor.

    200 anos mais tarde, Cavaco Silva usa sempre calças castanhas.
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  5. E a venda do Pavilhão de Portugal que nos custou 60 milhões de euros, ao genro por 20 milhões de euros emprestados pelo BES quando já se sabia no BP quem ia falir!
    E o genro estava impedido de fazer negócios com o estado porque a sua empresa de eventos e lavagem de dinheiro estava falida e devia 6 milhões de euros de impostos, mas fez-se na mesma!!

  6. Pois é Júlio mas o Cavaco vai empaliar até onde puder .
    Agora vai à Madeira buscar auxílio ao Poncha Jardim, que vai arengar o costume contra o bolchevismo e agitar o espantalho de separatismo.
    Para Cavaco, o Parlamento é o círculo restrito de gajos e tipos da direita mais conservadora e reaccionária possível, que compõem a sua casa civil e militar . São esses e os conselheiros presudenciais, que ele escuta . Desse círculo, o mais reaccionário, é o conselheiro Ignatz, um perigoso salazarengo travestido de monárquico liberal .

  7. De facto, Júlio, tens toda a razão: foi Cavaco Silva que criou uma camisa-de-forças política ao PS; esse constrangimento foi uma das gotas de água que desbloqueou a aliança da esquerda. A outra gota de água (do lado do PCP) foi a fúria privatizante de serviços públicos do neoliberalismo internacional. Há uma poderosa conjunção de objectivos, que deixa a direita nacional extremamente nervosa.

  8. Só gostei da primeira frase, bastante assertiva: “se o PS tivesse sido o partido mais votado”. MAS NÃO FOI!

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