Os zulus do conselheiro Acácio

O fulano que foi posto a discursar no 10 de Junho resolveu definitivamente, há semanas, um problema que vinha atormentando a ciência desde tempos imemoriais. E fê-lo com uma frase impante de sabedoria acaciana: “Sim, há culturas que são superioras a outras.”

Prova? Ele deu duas, ambas curiosamente pela negativa: “Não foi um zulu a escrever Romeu e Julieta nem foi em Portugal que o iPhone foi inventado”. Ficámos esclarecidos. Estás perdoada, Bonifácio, agora te compreendemos.

Entretanto, António Guerreiro, que se debruçou há dias sobre essa mesma frase, deu ao seu autor uma sova que ele não esquecerá tão cedo.

Mas a frase do fulano não foi ainda analisada no respeitante à dualidade de critérios que nela se constata. J. M. Tavares diz que Romeu e Julieta não foi escrito por um zulu (alguém do povo ou etnia zulu), mas diz que o iPhone não foi inventado em Portugal (o país assim chamado). Deste modo, o fulano exclui que um zulu qualquer pudesse ter escrito a tal obra, mesmo que hipoteticamente tivesse sido educado em Londres no séc. XVI – um anacronismo, porque o clã zulu, da etnia bantu, só foi fundado no séc. XVIII. Em compensação, o fulano não exclui que um português a trabalhar fora do seu país pudesse inventar o tal iPhone, já que o problema não é com os portugueses como povo, mas com o país Portugal, onde é fatalmente escassa a “cultura” geradora de telefones. Uma espécie de Zululândia…

Apesar de, numa atitude de fingida humildade, J. M. Tavares colocar aparentemente o país Portugal a par com o povo zulu na classe das culturas inferiores, ele não diz nem nunca diria que um português seria incapaz de escrever Romeu e Julieta, nem até de inventar o iPhone. Segundo alega, o atraso cultural e económico do país Portugal é que impede quem nele vive de revelar o seu génio. Como diria o seu saudoso amigo Passos, a “zona de conforto” é que lixa o genial portuga. Já o zulu, coitado, por mais que nasça na África do Sul, se eduque em Oxford ou trabalhe em Silicon Valley, será sempre e só um zulu. E até já o era no tempo de Shakespeare, quando ainda não havia zulus.

5 thoughts on “Os zulus do conselheiro Acácio”

  1. Até a senhora Bonifácio se deve ter rido das intelectuais patetices do seu admirador J.M. Tavares. E o que teria pensado o senhor Presidente, a quem não devem escapar os “admiráveis” textos jornalísticos do seu protegido?

  2. Como de costume, confunde-se cultura com civilização. O iPhone não é produto de uma cultura, mas sim de civilização, isto é, é um produto de bem-estar material, ciência e técnica.

  3. o labrego descobriu que os telefones são um produto industrial e não uma cultura, logo agora que tinha sacado um subsídio para uma plantação de torradeiras.

  4. Lavoura, amigo, talvez não fosse descabido rever esses conhecimentos de ciências sociais. Mas isto digo eu, que sou mero lavrador.

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