O telefonema de Marcelo ao enfermeiro Luís

Na imprensa e nas redes sociais li bastantes comentários críticos sobre o destaque dado em Portugal, nomeadamente pelo presidente Marcelo, ao enfermeiro Luís Pitarma, que serviu de anjo de cabeceira a Boris Johnson nos cuidados intensivos. O telefonema de Marcelo ao enfermeiro, cumprimentando-o pelos elogios que recebeu do chefe do governo britânico, teria sido revelador de “provincianismo bacoco”, segundo uma dama que escreve num jornal de Lisboa. Outra opinante de igual calibre lembrou os heróicos enfermeiros portugueses que nos nossos hospitais arriscam todos os dias a sua vida, mas aos quais “Marcelo não telefonou”. A maioria destes críticos expressou a ideia de que o enfermeiro Luís não fez nada de especial ou até que “não fez mais do que a sua obrigação”. Daí denunciarem como “pacóvio” o cumprimento telefónico feito por Marcelo ao enfermeiro nosso conterrâneo. Note-se que esta gente tanto louva o pessoal hospitalar por estar a “arriscar a sua vida” como acha que ele “não faz mais do que a sua obrigação”.

É óbvio que as bicadas de que Marcelo foi alvo neste caso procedem de gente ressabiada com a sua actuação como presidente desde 2015. Mas o que esses e outros críticos (por sinal provincianos e pacóvios) não referem e até escondem é a importância que teve a referência elogiosa feita por Boris Johnson aos enfermeiros imigrantes. Os milhares de portugueses, enfermeiros ou não, que trabalham no Reino Unido, que receiam perder o emprego e que são muitas vezes alvo de hostilidade xenófoba sentiram bem a importância desse reconhecimento público feito com invulgar pormenor e enorme destaque. Creio que isso não terá também escapado a Marcelo, que de provinciano não tem nada.

Na imprensa inglesa e internacional também surgiram denúncias de “hipocrisia” pelos elogios de Boris aos enfermeiros imigrantes que cuidaram dele ou por ter chamado “tesouro nacional” ao NHS que agora lhe salvou a vida. Lembram esses críticos a campanha de demonização dos imigrantes, coadjuvada pelo mesmo Boris, com o fim de promover o seu Brexit. Lembram também os esforços do Partido Conservador durante os últimos dez anos para desmantelar o NHS, mediante brutais cortes orçamentais feitos com a concordância e o voto do mesmo Boris. Cortes que, aliás, terão provocado, segundo a imprensa reporta, o regresso de milhares de enfermeiros estrangeiros do Reino Unido para a Europa após o Brexit.

Os elogios de Boris aos trabalhadores imigrantes e ao NHS, que foram visivelmente pensados e planeados pelo governante, parecem-me menos uma hipocrisia do que um reconhecimento. Será talvez um arrependimento tardio e muito para inglês ver, mas que não deixa de o ser. As suas declarações foram ouvidas e lidas por muitos milhões e ficaram registadas. O susto que Boris apanhou e que os ingleses continuam a apanhar obriga ainda mais o primeiro-ministro a cumprir com a sua promessa de desviar para o NHS os 350 milhões de libras semanais que, antes do Brexit, alegadamente iam para a Europa. Cá estaremos para ver.

5 thoughts on “O telefonema de Marcelo ao enfermeiro Luís”

  1. Também a primeira-ministra neo-zelandesa telefonou à enfermeira sua compatriota que o Boris destacou.
    Só para termo de comparação…

  2. . 1 – deu positivo em 27mar, ficou em casa 12 dias e foi para o hospital em 5abr, no dia seguinte entrou nos cuidados intensivos e 5 dias depois voltou para casa. 4 noites nos cuidados intensivos é pouco para quem esteve 2 semanas a chocar covides.
    . 2 – logo de seguida prestou declarações e nem sequer tossiu
    . 3 – não perdeu peso e fisicamente aparentava estar na mesma, talvez um pouco mais despenteado.
    . 4 – a malta que o tratou foi escolhida a dedo e assinou contratos de confidiencialidade.
    . 5 – depois disso voltou para casa e continua desaparecido em combate à pandemia.
    . 6 – o pitarma e a jenny não o salvaram de nada, quando muito quem o salvou foram médicos, mas para esse não ouve agradecimento personalizado.
    . 7 – o marcelo deverá ter ficado curioso porque fez um simulacro parecido para dar à sola e ganhar tempo para saltar os episódios que não lhe agradavam.
    . 8 – por agora o pitarma safou-se do 10 de junho, mas tem fortes hipóteses de ser mandatário dos jovens emigrantes na candidatura marcelo21.
    . 9 – isto não é provincianismo bacoco, é saloiísmo realista a facturar.

  3. Eheheh
    O Cummings anda a papar a última temporada de “Anatomia de Grey”. No fim o Pitarma casa com a Jenny, o Boris é o padrinho e o Marcello vai vender pastéis de nata no copo de água .

  4. Júlio:
    Boa reflexão!
    Vamos aguardar para ver como é que Boris se vai comportar. Para mim os políticos são, regra geral, uns manhosos pouco confiáveis, à primeira contradição dizem logo que as circunstâncias mudaram.

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