“Austeridade dissimulada”

Desde o 25 de Abril, nunca a direita conseguiu apresentar orçamentos tão equilibrados como os de 2018 e 2019, apesar de alguns governos de direita até terem podido contar com melhores conjunturas económicas e maior crescimento do que os actuais.

Contudo, faça o governo socialista o que fizer em matéria de finanças, os tenores da direita e, às vezes, do PCP e do Bloco, arranjam sempre uma acusação. Se o governo abrir os cordões à bolsa, concedendo aumentos de salários e pensões, é “despesismo”, uma cedência irresponsável aos aliados de esquerda. Se isso acontecer a menos de um ano de eleições, é também “eleitoralismo”, rumo ao aumento da dívida e à bancarrota.

Se o governo persistir no equilíbrio orçamental, concedendo alguns aumentos, investindo em infraestruturas sociais, diminuindo a dívida pública e apostando no zero de déficit em 2019, pela primeira vez em 45 anos, então a direita berra que é “austeridade dissimulada” – como hoje voltou a dizer um pateta qualquer do CDS. Têm mesmo que acrescentar o adjectivo, porque austeridade descarada e ruinosa foi a deles e toda a gente que a sofreu a conhece.

Ora os déficits orçamentais e a dívida não aumentam só por via da despesa pública. Podem aumentar se a receita diminuir. O que a direita agora reivindica para 2019 é que se baixem os impostos sobre os rendimentos e sobre os combustíveis. Como a direita diz que é pelo equilíbrio orçamental, embora nunca o tenha conseguido, concluiu-se que a satisfação das reivindicações actuais da direita se deveria fazer à custa dos aumentos dos vencimentos e pensões, à custa dos investimentos na saúde, educação e transportes, etc. Não o dizem assim claramente, porque seria impopular, mas é exactamente isso o que dissimuladamente querem – a menos que dissimuladamente desejem a continuidade dos déficits e o aumento da dívida, o que também nunca dirão.

Quem são os dissimulados, afinal?

2 thoughts on ““Austeridade dissimulada””

  1. “Contudo, faça o governo socialista o que fizer em matéria de finanças, os tenores da direita e, às vezes, do PCP e do Bloco, arranjam sempre uma acusação”.
    Parece surpreendido.
    Alguma vez foi diferente com algum governo e alguma oposição?

  2. Anonimo, nada me surpreende, vindo de onde vem. Até da parte dos chamados aliados do governo, que em princípio não seriam oposição, mas que a fazem, pura e dura, todos os dias, porque não sabem fazer outra coisa. Tal como em 2015, só a recusa de um governo PSD-CDS ou o receio de eleições antecipadas os impede de chumbar os orçamentos e derrubar o actual governo.

    Fazer oposição é útil e necessário numa democracia. Mas para se fazer oposição não é obrigatório ser demagógico, incoerente ou negar a realidade. Se a direita valoriza o equilíbrio orçamental, porque é que arranjou a fórmula “austeridade dissimulada” para o desvalorizar?

    Actualmente em Portugal podem distinguir-se nitidamente diversas correntes e estilos de oposição. Nem todos afinam pelo estilo demagógico-populista. No PSD, defrontam-se precisamente duas correntes que divergem essencialmente no modo de fazer oposição. Os que querem derrubar Rui Rio querem claramente fazer uma oposição populista, demagógica e caceteira.

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