Um «sim» doloroso mas decidido

Se havia um referendo em que eu queria votar, era este. Mas assim não quis o destino, com grande interferência minha, de resto. Não sou cidadão português, a minha opinião não conta aqui.

Eu iria, pois, votar. Por disciplina de cidadão, por ter feitos as contas de ser humano. E iria votar SIM. Com dez, com cem dúvidas pessoais. Mas nenhuma como votante. Eu explico.

Se uma mulher e eu tivéssemos engravidado, eu quereria loucamente ter aquele filho. Sucedeu-me duas vezes (minto, sucedeu uma vez, e vieram logo dois…), portanto sei o que se sente. Contudo, a mulher que comigo tivesse engravidado, mas sem ela o querer, teria a plena liberdade para decidir. Eu poderia beber ranho e lágrimas – mas ela decidiria. Acima de tudo, eu poria, pois, a liberdade dela.

Era esse «sim» pela liberdade da mulher – um «sim» doloroso, mas decidido – que eu daria amanhã.

Poderá alguém dá-lo por mim?

Fernando Venâncio

17 thoughts on “Um «sim» doloroso mas decidido”

  1. Só tenho direito a um voto (com muita pena minha) mas quando rabiscar a cruz vou-me lembrar-me de si, prometo. Aliás, o sentido do meu voto não é a pensar em mim, é nas mulheres em geral, e sobretudo naquelas que nem sabem o que é um blog.

    Haverá também homens que o entendem, Fernando, e certamente algum votará por si.

  2. Olá Fernando!

    Gostei muito deste post. No referendo anterior, não tinha ainda cartão de eleitor, estava quase na mesma situação, por razões muito semelhantes. Agora, já posso ir votar e gosto de saber que um homem não se põe a querer sobrepor a sua vontade à liberdade da(s) mulhere(s). Tem-se visto muito disso, nestes últimos tempos, até parece que muitos irão votar não, só porque não ficam à vontade ao pensar na liberdade das mulheres…

  3. Não sabia e é uma total surpresa. Mas se não és português trata-se de um assunto de registo civil porque em termos culturais e humanos és muito português. Quanto ao texto em so concordo a 100 por cento É esse o sentido do meu voto. Um abraço

  4. Obrigado a todos. Pelas vossas reacções, pelos vossos votos.

    Qualquer que seja o resultado (e a democracia às vezes faz doer), teremos feito a boa acção do dia.

  5. Tentei pedir outro boletim, até argumentei que havia muita gente que não utilizava o que lhe pertencia e tal… Que não, foi a resposta. Lamento. E por acaso até acho que nos fazia falta o seu voto.

  6. uns não votam porque são estrangeiros, outros não votam porque estão no estrangeiro…
    A abstenção devia ser ignorada, pois desta vez foi uma outra forma de “não” e não é justo. Para alem de que muita gente se absteve por considerar que é um tema que não lhes toca (:-s) e, por essa razão não emitem opinião… mas acaba por ser não… enfim, vamos ver como se passa agora…

  7. Trilby,

    O meu voto não foi necessário. Viu-se. Mas fico grato pela sua tentativa (ilegalíssima!) de votar duplo.

    Matilde,

    A abstenção foi só isso, uma abstenção, um não querer (ou não poder) escolher.

    O que vai passar-se agora… Pois que seja a legislação mais perfeita do mundo. Representantes do Sim insistiram, esta noite, no aproveitamento de dinâmicas criadas pelo não (acompanhamento da mulher e da família, luta pela diminuição da necessidade do aborto, etc). Isto promete muito boa coisa.

    Mas só mais isto. Não consigo imaginar (limitação minha, porventura) que, tendo ganhado o Não, houvesse quem pensasse, nesse campo, em aproveitarem-se dinâmicas do Sim…

    Sininho,

    As minhas preces? Eu não rezei. Mas pode ter havido muita gente a fazê-lo. Segundo o Louçã, houve um «Sim» católico significativo. E parece (afiançam os psicólogos) que rezar ajuda.

  8. Tens razão. Foi uma má expressão para dizer que o teu “pedido” tinha sortido efeito.
    Eu e muitos votámos «sim», com dor mas também com esperança.
    Não o fiz por mim. Não o fiz por ti (aliás só li este post depois de votar).
    Tenho a sensação que, neste momento, muitos homens sentem um “aperto” ao pensar que, numa situação futura, poderão ver a sua parceira a tomar essa decisão de uma forma autónoma, perdendo eles o direito a participarem nessa decisão tão grave e, por fim, irreversível.
    No entanto, como mulher e mãe gostaria de dizer que a maioria das mulheres que aborta, fá-lo por se sentir só, abandonada pelo seu parceiro.
    Fá-lo por medo de não conseguir suportar a imensa responsabilidade de colocar neste mundo um ser, sozinha.
    Fá-lo porque sente essa responsabilidade muito antes do homem, à medida que o seu corpo se transforma.
    Fá-lo por falta de amor, diálogo, compreensão, apoio… Onde há amor, não há aborto.

  9. Triste de ler. Incomodo se fizer notar que para além da liberdade da mulher e da liberdade do homem …há ainda a liberdade da criança?

    Louçã tem razão, Portugal entrou no séc. XXI, mais precisamente no séc.XXI AC !

    Este é o caminho de regresso a um passado primitivo, à brutalidade, hedonismo e barbárie. Se aceitamos que sejam abatidos os mais fracos e mais indefesos… Temos o Portugal do Dr. Mengele.

    ps – E não esqueçamos que em jogo estão os rios de dinheiro que representa este grandioso negócio dos matadouros legais.

  10. João Grilo,

    «Brutalidade», «barbárie», «matadouros»… Você não fala, você ressoa.

    59% dos votantes portugueses são assassinos. Não é isso que falta dizer?

  11. E você ouve, por acaso?
    A honestia intelectual exige que se responda com argumentos…
    Quanto aos votantes… (e não esqueçamos que a maioria não foi votar) a manipulação ideológica em torno do tema é tal que não é de surpreender que as pessoas andem “anestesiadas” por esta autêntica lavagem de cérebros que usa de novilíngua para chamar “IVG” a infatícidio (até “aborto” é incómodo), que clama por “liberdade da mulher” e cala ignobilmente a liberdade do nasciturno (que pode até ser também uma mulher, mas que não tem como defender o seu direito à vida).
    A mulher tem direito a ter condições para poder ser mãe. E este direito tem que ser-lhe garantido – aqui há muito a fazer (creches no local de trabalho, incentivos e apoios materiais, etc.) Se não o quiser, então deve poder deixar o filho na maternidade. Portá-lo na gravidez é apenas a consequência do acto consciente que praticou e um dever para com o nasciturno. A sociedade e o estado devem ajudá-la a cumprir este dever, com apoio psicológico, humano e material. Este, sim, seria o Portugal do séc.
    XXI. Penalizar? Principalmente os carniceiros de clínicas que fazem fortuna com este crime e …os fulaninhos “macho” que dão “umas quecas” e depois abandonam cobardemente a mulher quando ela precisava do maior apoio e segurança.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.