Vinte Linhas 726

Ruslam Botiev – na Sá da Costa a amar Portugal e Fernando Pessoa

Por um destes fins de tarde que anunciam o frio de Janeiro nas dobradiças do sol de Inverno que nos engana a todos, descobri Ruslam Botiev, o pintor mongol, à porta da Livraria Sá da Costa. «Bom dia Portugal!» – foi a nossa mútua saudação pois é o título de um dos seus quadros a revisitar a cidade de Lisboa como quem a olha de Almada no comboio.

Conheci o pintor mongol Ruslam Botiev há muitos anos, estava ele todas as manhãs de Domingo debaixo do Elevador de Santa Justa. Quando chovia lá se arrecadava ele e os seus quadros nas portas do Montepio Geral ou da Livraria Portugal – se a chuva era fraca. Mais tarde passou para as escadas da Basílica dos Mártires onde já tinha mais público e um maior espaço para fugir da chuva. Que a chuva batida a vento é inimiga dos pintores.

Tempos depois descobri Ruslam Botiev no Largo do Carmo onde beneficiava da protecção do toldo de um quiosque – mesmo quando chovia os trabalhos estavam bem defendidos do mau tempo. Fez uma «rainha de Inglaterra» em borras de café que está (garante a secretária particular da soberana) nas paredes de Buckingham Palace. Tal como o amor (que é eterno enquanto dura) também a ligação do pintor mongol ao Largo do Carmo terminou um dia. Estive muito tempo sem saber dele. Diziam que estava em Alcobaça, outros que tinha voltado a Murça para fazer mais uma «porcas de Murça» iguais ou parecidas com as primeiras.

Na Sá da Costa Rusalam Botiev está bem. Abrigado das intempéries, ali trabalha e dialoga com os seus habituais compradores aos quais se juntam os de passagem pela Rua Garrett. Todos os dias ao fim da tarde em silêncio ou em voz alta Ruslam Botiev diz «Bom dia Portugal!». Este Fernando Pessoa é também uma maneira de o dizer mas de outra maneira. Bom dia Ruslam!

9 thoughts on “Vinte Linhas 726”

  1. (não leves a mal mas a primeira leitura que fiz li mongolóide. mas já passou o riso e redobrei a atenção) :-)

    consegues explicar porque é que dizes que o amor só é eterno enquanto dura? e o que é durar? é que a minha mãe foi a única mulher que o meu pai amou e ama – até porque nunca mais casou ou viveu com outra. e está viúvo há trinta anos.

  2. francamente, até a bécula goza contigo. sobra-te o cimento e o presidente da junta de freamunde, por quanto tempo?

  3. oh bécula! duro quer dizer tesão. quanto ao teu pai só posso dizer que aprendeu a lição mas não se livrou da despesa.

  4. “o frio de Janeiro nas dobradiças do sol de Inverno” – sim, isto é poesia. Bem melhor que rimas forçadas à martelada:)

  5. Não conhecia esse pintor. E tu conheces este mas ele não te conhece a ti, não é verdade?
    E pintores portugueses conheces? Eu conheço alguns. O Abel Manta, a Paula Rego, e outros. Não sei se eles me conhecem a mim. Eu já vi obras deles. Não sei se eles viram obras minhas.
    E esse da Sá da Costa, já viu alguma obra tua. Não? Porquê? Tu não obras? Então tu não és capaz de obrar?

  6. sim, Zézinho, mas como usaste a expressão pensei que a tinhas adoptado como tua também. :-)

    nonim, o meu pai é um imperador que casou com uma imperatriz. :-)

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