Vinte Linhas 723

A primeira redacção a sério do menino Tomás

«Escrever é revelar o pensamento» – isto se lia num dos livros obrigatórios da quarta classe do meu tempo, lá por idos Abril e Julho de 1961. E concretizava a ideia: «Se o pensamento for turvo e confuso a escrita também será turva e confusa». Não é o caso em apreço, longe disso.

Lembro este texto antigo ao ler o recente trabalho do meu neto Tomás a quem a professora da primeira classe solicitou uma redacção com cinco frases dando especial atenção às maiúsculas e aos pontos finais. O resultado foi este: 1- Eu gosto do Horrid Henry. 2- O meu bebé é pequeno. 3- Eu amo o meu bebé. 4- O bebé Lucas tem os dedos pequenos. 5- Ele gosta de amachucar papel. (Falta explicar que o Horrid Henry é uma colecção de livros muito popular em Londres e não só).

Ver o resultado do trabalho do menino Tomás, o seu desenho letra a letra, palavra a palavra, frase a frase, a paciente construção de uma mensagem, tudo isso me deixa emocionado. Há pouco tempo, num café do Chiado, soube pelas lágrimas de uma senhora arménia que um seu sobrinho-neto não nasceu no dia 23 de Julho de 2006 num hospital de Beirute porque a mãe da criança entrou em pânico perante as bombas israelitas a caírem (mesmo!) nos hospitais e teve um aborto espontâneo horas antes do trabalho de parto. O meu neto nasceu à mesma hora e no mesmo dia num hospital universitário londrino, rodeado de todos os cuidados e atenções. Além do calor humano à sua volta. Dá que pensar.

Tudo isto prova (se fosse preciso) que nós somos aquilo que as nossas circunstâncias ditam em cada momento. E estar em Islington não é o mesmo que estar em Beirute num dia do Verão de 2006. A nossa vida é um mistério, não é um negócio. Pois. E ainda bem. Boa sorte, Tomás!

15 thoughts on “Vinte Linhas 723”

  1. Obrigado, Olinda! Tentei aproveitar o pessoal para falar do geral. Agora andam políticos franceses e turcos a discutir se foi ou não um genocídio. Coisa de números – não de pessoas…

  2. Pois há uns meninos que estudam outros que copiam.
    A professora diz aos alunos para desenharem o órgão sexual feminino.
    Nisto uma das alunas, a Joaninha, incapaz de fazer o desenho, abriu as pernas e espreitou para debaixo da saia.
    O Joãozinho vê e grita:
    – PROFESSORA, A JOANINHA ESTÁ A COPIAR!!!
    Redação, redação é esta:
    Composição aluno 9ºano das Caldas da Rainha
    “O Pipol e a Escola”
    Se não entenderem à 1ª, leiam em voz alta para vocês, assim fica mais fácil entender as palavras! OK, people!

    ‘O PIPOL E A ESCOLA’
    Eu axo q os alunos n devem d xumbar qd n vam á escola. Pq o aluno tb tem Direitos e se n vai á escola latrá os seus motivos pq isto tb é perciso ver q á razões qd um aluno não vai á escola. Primeiros a peçoa n se sente motivada pq axa q a escola e a iducação estam uma beca sobre alurizadas.
    Valáver, o q é q intereça a um bacano se o quelima de trásosmontes é munto Montanhoso? Ou se a ecuação é exdruxula ou alcalina? Ou cuantas estrofes tem um cuadrado? Ou se um angulo é paleolitico ou espongiforme? Hã?
    E ópois os setores ainda xutam preguntas parvas tipo cuantos cantos tem ‘os Lesiades”s, q é u m livro xato e q n foi escrevido c/ palavras normais mas q no aspequeto é como outro qq e só pode ter 4 cantos comós outros, daaaah.
    Ás veses o pipol ainda tenta tar cos abanos em on, mas os bitaites dos profes até dam gomitos e a Malta re-sentesse, outro dia um arrotou q os jovens n tem abitos de leitura e q a Malta n sabemos ler nem escrever e a sorte do gimbras foi q ele h-xoce bué da rapido e só o ‘garra de lin-chao’ é q conceguiu assertar lhe com um sapato. Atão agora aviamos de ler tudo qt é livro desde o Camóes até á idade média e por aí fora, qués ver???
    O pipol tem é q aprender cenas q intressam como na minha escola q á um curço de otelaria e a Malta aprendemos a faser lã pereias e ovos móis e piças de xicolate q são assim tipo as pecialidades da rejião e ópois pudemos ganhar um gravetame do camandro. Ah poizé. Tarei a inzajerar?

    Qué caxa jcf?

  3. óbrigado oh xico! há bués que o mercado livreiro ansiava pela tradução das obras completas do teu neto. tamém fiquei impressionado com o trabalho de construção das mensagens, 5 frases de 5 cinco elementos, temos shakespear. o ministro alvaro já tem dificuldade em entender 3 palavras seguidas, agora vai ter que meter explicador para entender o puto.
    não entendi aquela bucha do beirute, da arménia e do islington, deve ser uma subtileza da benedita para sacar um patrocinio à embaixada do líbano.

  4. aproveita jcf, letra por letra, antes que o miúdo se junte a um certo pipol bretão e faça gazeta às aulas. ah poizé! aproveita todas as letrinhas, abô Xico

  5. …nem em inglês, nem em português, no é vero? Façamos de conta que se trata de uma linguagem universal da qual os petizes já nascem ensinados, incluindo o mestre Tomás.

  6. baril, ganda pontaria…

    agora vê o Grosz na companhia do Nick, numa de arte universal…

    e com esta me despeço,
    uma boa noite e um grande abraço
    da sempre tua
    anonima

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