Vinte Linhas 490

Délio Gonçalves – Todas as filarmónicas perdidas

Quando Délio Gonçalves iniciou a segunda parte regendo a Orquestra de Sopros do Conservatório Nacional nas ruínas do Carmo com a peça «Majestic Solemnity» de Menno Bosgra, senti um arrepio. Mais uma vez percebi que viver é juntar filarmónicas perdidas. A minha primeira filarmónica foi a Catarinense, com o meu avô (trompete), os meus tios (contrabaixo e pratos) e o meu tio-velho Joaquim, a mais bela tarola do Mundo. Depois no Montijo, entre 1957 e 1960, vivi e perdi mais duas – a Imparcial e a Democrática. Perdi também a de Alcochete que ouvi na Senhora da Atalaia. Perdi depois a de Vila Franca de Xira que tocou em Novembro de 1969 no funeral de Alves Redol. Mais tarde perdi a Banda da Carris que ensaiava no cimo do Elevador da Glória e abre o meu livro «Transporte Sentimental». Por outro lado o concerto terminou com a peça «Festival Dance» de Charles Gounod e acontece que o meu neto Thomas passa todos os dias à porta da casa onde viveu Charles Gounod em Blackheath Park. Não é ingénua esta ligação entre o meu avô e a sua solene trompete que tantas vezes ouvi nas missas cantadas da igreja de Santa Catarina e o meu neto que poderá um dia ser um músico mas, mesmo que não venha a ser, passa todos os dias pelos mesmos caminhos do autor do «Fausto». Não me passou despercebido o olhar cúmplice de Carlos Mendes ontem perante o seu filho João que actuou nas ruínas do Carmo com o seu terceto sob o nome de Jazzafari. No fundo, bem no fundo, viver é coleccionar filarmónicas perdidas. Délio Gonçalves dirigiu tão bem a Orquestra que mais do que a música da pauta desenhou uma música na alma de todos nós, os que já perdemos várias filarmónicas.

2 thoughts on “Vinte Linhas 490”

  1. JCF:

    É bem verdade o que relata sobre as filarmónicas. Na minha terra existe uma e sabe-se o quanto custa mantê-la, se não fosse uma direcção abnegada, há muito que tinha desistido. Hoje contratar uma banda é caríssimo. Por esse motivo passam o ano com uma dúzia de festas e uns concertos aqui na terra, com o patrocínio da Câmara Municipal. Além desta, existe a Escola Infantil de Música que são os futuros músicos da Banda Musical de Freamunde. Mando um vídeo. Não está nas melhores condições mas, mesmo assim não resisto.

    http://www.youtube.com/watch?v=cbHUqBef6W8&feature=related

    Temos outros grupos associados à Associação Pedaços de Nós, que é um grupo suportado por associados e alguns carolas. Destes fazem parte a Big Band, Grupo de Percussão, os instrumentos são reciclados de latas de tinta, o grupo castanholas. Também envio um vídeo de cada grupo. Espero que goste.

    http://www.youtube.com/watch?v=eU5gUv1sDEU&feature=related

    http://www.youtube.com/watch?v=z6zdIW_UAd4&feature=related

    http://www.youtube.com/watch?v=oWBWGbVltEc&feature=channel

    Somos uma terra com tradição musical. Temos vários músicos espalhados por várias orquestras e Bandas Militares.

    A Banda de Freamunde foi fundada em 1822, tendo sempre até hoje uma actividade ininterrupta.

    Tem como actividade principal o ensino e promoção da cultura musical.

    Da sua Escola têm saído grandes músicos que actualmente integram os quadros das Bandas da G.N.R., P.S.P., R.I.P, Força Aérea, Marinha, ex-Orquestra do Teatro Nacional de S. Carlos, Orquestra Sinfónica Portuguesa, professores nas Escolas Profissionais e Artísticas de Viana de Castelo e das Caldas da Saúde, etc..

    Da, sua vasta actividade, destaca-se o facto de ter actuado por todo o pais e de ter efectuado quatro digressões ao estrangeiro, uma a Espanha e três a França, a convite das comunidades portuguesas e respectivos consulados.

    Participou em vários concurso, tendo sido destinguida com diversos prémios nomeadamente uma “Batuta encastuada a Ouro” e uma “Medalha de Ouro”.
    Em 1979, alterou-se a designação de Banda Marcial de Freamunde, para Associação Musical de Freamunde, alteração que se impunha pela polivalência que a Instituição atingiu principalmente no aspecto da formação.

    Em Maio de 1992, a Associação Musical de Freamunde viu reconhecido o seu trabalho em prol da cultura musical, com a prestigiosa distinção “Pessoa Colectiva de Utilidade Pública”, atribuída pela Presidência do Conselho de Ministros.

    Em 6 de Novembro de 1995, recebeu da Câmara Municipal de Paços de Ferreira a “Medalha de Ouro de Altruísmo e Mérito”, como reconhecimento do seu papel insubstituível no campo da música e da formação musical.

    Contactos
    Outeiro –
    Freamunde
    4590FREAMUNDE
    Porto
    Portugal
    Telefone: 255 879256

  2. Obrigado, Amigo. Já estive na sua terra numa festa de sportinguistas ao lado de Manuel Fernandes e o vice Menezes Rodrigues. A ementa foi capão no forno, um espectáculo. Apenas duas notas: antigamente a rádio emitia marchas militares antes da transmissão dos jogos domingo à tarde – nos Açores era habitual terminar um telegrama a anunciar um feito desportivo, fosse na Madeira ou noutra Ilha, com a seguinte frase PODEM CHAMAR AS FILARMÓNICAS.

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