Sobre «Os males da existência» de António Sousa Homem

«Toda a literatura é uma homenagem à literatura» – este pode ser o ponto de partida para a abordagem deste livro (Editora Bertrand) que recolhe as crónicas assinadas por António Sousa Homem na Revista Notícias Sábado. Na crónica «O romance de uma vida» o autor explica que o seu pai «tinha pelo romance um desprezo discreto» porque tinha lido os nove volumes de «The life and opinions of Tristram Shandy, Gentleman» de Lawrence Sterne. Sendo António Sousa Homem «um botânico amador e um coleccionador de hibiscos» nunca poderia escrever um romance porque lhe falta o «temperamento trágico». Estas crónicas são (também) uma homenagem a esse antepassado remoto. Tristram Shandy tinha o pai Walter, a mãe, o tio Toby, o criado Trim, o Dr. Slop e o reverendo Yorick. Aqui temos o velho Dr. Homem, o pai, a sobrinha Maria Luísa, a empregada D. Elaine, a tia Benedita, o tio Alberto. Não vale a pena perder tempo a escrever um romance quando se pode desdobrar esse romance em capítulos semanais – as crónicas. O autor viveu numa casa com um retrato de D. Miguel na parede, teve um avô que simpatizava com o Dr. Brito Camacho e tem uma sobrinha que vota no Bloco de Esquerda. Retrata-se («Eu sou um velho minhoto«) e retrata o mundo: «O mundo pertence aos bravos que fintam a histórias e triunfam episodicamente; simplesmente, não sabem que a vida é apenas um episódio». O seu mundo começa na província: «A nossa pobre província era apenas pobre e insatisfeita; simplesmente, não o sabia e também não sabia como era ignorante, preguiçosa e emproada.» Chega de citações para recomendar um bom romance que não se anuncia como tal mas que, mesmo assim, não deixa de o ser.

6 thoughts on “Sobre «Os males da existência» de António Sousa Homem”

  1. Então, José do Carmo:
    Entre uma ameijoa da “carne de porco à…” e um copo de branco leve, aqui do lado, o amigo faz a sua reentrée (oxalá que esteja a escrever bem) sem dizer nada ?
    Força amigo que o Aspirina está perigoso !
    Um abraço
    Joaquim

  2. Amigo – o que é preciso é não dar parte de fraco, já dizia a minha avó. Há trinta anos nestas lides, quando os jornais eram feitos a chumbo, aqui continuo no meu posto. Esta actividade trouxe-me alguns dissabores mas também muitas satisfações. Devo ao jornalismo muito do que consegui alcançar na literatura; para mim não há diferenças nem escalas de valor.

  3. Há trinta anos já nem o DN era feito em chumbo. Passou tudo a offset nos anos 70, seu Zé. Mas fica bem dizer isso assim, para impressionar.

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