Sobre «A cidade do Homem» de Amadeu Lopes Sabino

Nas suas robustas, desafiadoras e substanciais 555 páginas de texto corrido, este livro da Sextante Editora, sem deixar de ser uma biografia imaginada e um romance de ideias que nos dá a ver o Mundo pelo olhar do protagonista é, também e ao mesmo tempo, o resultado de uma paixão paralela entre a vida do autor do livro e a do seu herói.

Amadeu Lopes Sabino (n. 1943, Elvas) é condenado em 1972 por crimes contra a segurança do Estado e despachado para Penamacor. Desconfiados, os comandos da Companhia Disciplinar dão-lhe um lugar de faxina na secção de justiça mas, aos poucos, sabendo-o licenciado em Direito, logo o encarregam de despachar dezenas de processo esquecidos nas gavetas da secção. Perante camponeses analfabetos, simples marginais, malteses pobres, acusados sem provas nem indícios, o faxina exerceu de facto as funções de oficial de justiça e libertou presos dos cárceres, muitos deles por simples motivo de prazos excedidos. Foi um acto poético e passados 38 anos muitos desses elementos da Companhia Disciplinar ainda lhe estão gratos.

António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) viveu em Elvas como juiz togado do Conselho de Guerra da cidade e, nos intervalos dos julgamentos dos soldados elvenses que, mal pagos e mal alimentados, pediam pelas portas e desertavam para as suas aldeias, escreveu o poema O Hissope sobre o cataclismo local que foi a recusa do deão José Carlos Lara em entregar o hissope em sinal de cortesia e reverência ao bispo D. Lourenço à porta da casa do Cabido. Ficou a cidade com 17 mil almas (povo, soldados, padres) dividida em dois partidos.

No tempo livre dos afazeres militares, António Dinis discute em Elvas com amigos licenciados em Direito. Não só a política nacional mas também a Poesia: «Como é possível viver livremente da pena num país governado pela censura e pelo preconceito, e onde os fidalgos e burgueses não lêem livros, nem sequer os que compram ou encomendam ou pagam?»

O seu círculo também discute a Europa, tal como hoje: «A Europa necessita de uma cadeia de comando. Em cada Estado, em cada família, em cada cidade, em cada regimento, em cada tribunal, deve haver um Pai, um Comandante».

Tal como hoje – não há exagero na expressão. Num anacronismo calculado e explícito, Amadeu Lopes Sabino envolve nesta estrutura narrativa citações de autores diversos como Tomás António Gonzaga, Nicolau Tolentino, Fernando Pessoa, Cesário Verde, Gil Vicente, Camões, Gabriel Garcia Marquez, Garrett, José Régio, Eça de Queirós, Camilo, Cecília Meireles, Bocage, Mário Beirão, Jorge Luís Borges, António Ferreira, António Vieira, Jorge de Sena, António Nobre, Cesariny, Sophia, Rui Knopfli, Correia Garção, Malheiro Dias ou Silva Gaio. Entre outros.

Do ponto de vista das ideias discutidas nas conversas do herói do livro, são citadas obras de Voltaire, Diderot, d´Alembert, Helvetius, Rousseau, Leibniz, Hobbes, Locke e Montesquieu. Entre outros.

Ao acompanhar as viagens de António Dinis (Elvas, Lisboa, Brasil) o autor descreve a vivência diária do magistrado e regista tanto a ementa dum jantar com o Marquês de Pombal («pão, azeitonas, ovos cozidos e chá») como um repasto dos juízes a sós – «ovos com presunto e pato com macarrão».

Na sua carreira de magistrado, o autor de O Hissope contacta pessoalmente com o Marquês de Pombal. Este insiste na prudência («a prudência é dever do governante») e coloca-se entre o povo («não suporta mais impostos que paguem exércitos, armadas, canhões, munições») e a nobreza – «sabe esgrimir e caçar mas desconhece o que é combater de trincheira aberta».

No Rio de Janeiro surge esta conversa: «O bater das asas de um papagaio numa floresta do Brasil pode provocar um furação no deserto de Gobi. A assinatura de um governante em Whitehall pode originar um massacre em Shangai». O mundo está mais unificado do que parece.

O século XVIII é também um tempo de utopias. António Dinis afirma que «a Cidade do Homem deve ser a geometria e talvez também a álgebra e a aritmética, aplicadas à arquitectura e à política» e, mais à frente, Marcinkus sugere fazer da Ibéria uma ilha vogando à procura da Utopia, «uma Nova Atlântida, uma república imune aos apelos das sociedades corruptas edificadas sobre bezerros de ouro».

António Dinis oscila o seu pensamento entre as coisas infelizes em Portugal («as mentes lusitanas prezam a santa religião, a santa censura, a santa ignorância e a santa obediência») e as coisas felizes no Brasil: «as negras e as índias desempenham funções similares às das sereias do Guadiana. Com uma particularidade: não são miragens mas fêmeas humanas, vivas e bem vivas».

Partindo de uma Cidade do Homem inicial (Elvas), a biografia de António Dinis procura chegar à Cidade do Homem ideal: pelo estudo in loco, pela observação directa dos conflitos e dos poderes, pela visão do lado de dentro dos tribunais portugueses e brasileiros mas cedo chega a uma conclusão afinal provisória como todas: «O Universo é um poço de enigmas e a Humanidade está apenas no começo da aprendizagem. Que são cinquenta gerações de homens para entender os mistérios da vida?».

5 thoughts on “Sobre «A cidade do Homem» de Amadeu Lopes Sabino”

  1. Agora num contêxto mais alargado, este livro já foi aqui focado (Um Livro por Semana 201) no passado dia 14 deste mês, com a foto da capa. Não será demais tanta insistência? Favores da Editora?

  2. Vai-te encher de moscas, pá. Não é a primeria vez nem será a última que um livro é focado de dois modos, um mais conciso e outro mais extenso. Deixa-te de provocações parvas.

  3. Penamacor, Penamacor, bonita Penamacor. O JFK conhece?

    Não responda assim a quem o lê. Pois se faz poesia, comenta livros, porque há-de responder assim?

  4. Caro amigo conheço Penamacor de passagem depois de Monsanto e Penha Garcia. Hoje nada tem a ver mas a historia é de 1972…

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