O gato de Fernanda – nove fragmentos

Atento, discreto, pacato. No perímetro da luz, olha a dona. O gato.

No lume aceso com a lenha do barracão antigo, as sombras são afastadas até ao sótão da infância. Aos gatos, sua paisagem, seu povoamento.

Que força empurra o gato frente ao sol no castanho-luz do telhado?

Teu gato a quem a chuva proíbe telhados e terraços. Veio do Egipto num navio de Veneza. No Cacém, sorri à dona portuguesa.

Terra trazida. Pequenas partículas de chuva nos limões e nas maçãs, invisíveis memórias de uma terra trazida. Minha terra, perto do teu gato.

Vejo intervalos de sol nos telhados do bairro, humidade permanente a respirar nas telhas como se o prédio fosse um corpo cansado, humano. O gato espreita.

Roubar alguns cabelos teus para fazer cordas de uma guitarra. Suave melodia, frente ao gato.

Há no teu olhar telhados infinitos, memória de paquetes brancos no rio e de sardinheiras vermelhas na varanda ao lado. Luz e calor. Gatos e sorrisos.

Há na tua voz um som que incorpora os sinos de Lisboa. De São Roque à Sé, da Conceição Velha à Madre de Deus. Toda a geografia de um afecto assim reproduzido, junto ao gato na janela.

9 thoughts on “O gato de Fernanda – nove fragmentos”

  1. Ai que gatos mais LINDOS!!!!!!!!

    Lá em casa tenho o Blackie… :)……………uma verdadeira mini-pantera e uma companhia sem igual… :)

  2. Sei de uma história deliciosa: um pescador remendava redes numa praia e chegou um cão trazido por dois homens que avisaram «não nos responsabilizamos pelo que possa acontecer à gata». O pescador sorriu e disse que não havia problema: a gata feriu o cão e os parvos vieram tentar reclamar os curativos. Não sabiam que aquela gata era semi-selvagem e não tinha medo de nada nem de ninguém. Parvos…

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