Alexandre Herculano – 200 anos depois um exemplo

«Estamos pobres, somos ignorantes, vivemos na corrupção e no aviltamento»

Alexandre Herculano (1810-1877) foi poeta, romancista, historiador, polemista e jornalista. Duzentos anos depois do seu nascimento, há sempre aspectos novos na personalidade do escritor-soldado: vejamos a sua ligação ao mutualismo e as respostas ao chamado questionário de Proust.

Sobre as Caixas Económicas, precursoras do Montepio Geral, escreveu este autor: «As caixas económicas são primeiro e agigantado passo para a solução do problema que as leis ainda não tentaram resolver; as caixas económicas são o contraste, a negação do patíbulo. Matam a perversão popular nas suas causas em vez de a punir nos seus efeitos. Criam o futuro para milhares de indivíduos que nunca imaginariam tê-lo, criando-lhes o gozo da propriedade, e nesta, um recurso para a hora da aflição e escassez, tão próxima entre as almas vulgares da hora do crime. O facto de não aparecer o nome de um único depositante das caixas económicas nas listas dos sentenciados em França e em Inglaterra é a consequência natural dos princípios em que esta instituição se estriba».

Em resposta ao questionário de Proust que lhe foi enviado por D. Camila Ribeiro de Faria, uma senhora do Porto, amiga de Bulhão Pato, Alexandre Herculano identificou-se como «Um camponês dos arredores de Santarém» e respondeu como segue:

Qual a sua virtude favorita? A lealdade.

Que mais admira no homem? A franqueza.

Que mais admira na mulher? A timidez.

Qual a sua ocupação favorita? O trabalho livre no campo.

Principal atributo do seu carácter? Pouco autodomínio na indignação.

O seu conceito de felicidade? A felicidade é uma miragem que se tenta agarrar às apalpadelas nas profundezas escuras do futuro.

Qual a maior das desgraças? Penso que é a falta de coragem e de bom senso para aceitar a realidade da vida.

Qual a cor e a flor preferidas? Todas as cores e todas as flores são belas. O que falta àquelas são combinações harmoniosas e a estas o orvalho da manhã.

Quem gostaria de ter sido? Conheço um pouco da história dos homens célebres mas ignoro o que eles sofreram ou gozaram no teatro do mundo debaixo da sua máscara. Assim recearia seriamente fazer alguma enormidade se escolhesse ter sido na vida outro diferente de mim mesmo.

Onde preferia viver? Precisamente onde estou.

Os seus autores preferidos em prosa? Os que me ensinam algo que eu ignorava antes de os ter lido.

Os seus poetas preferidos? Ai de mim! Já não leio os poetas.

Quais os pintores e compositores de que mais gosta? Deus, que compôs os quadros do nascer e do pôr-do-sol nesta região de colinas cobertas de árvores esparsas, é hoje o meu único pintor. O rouxinol que canta ao luar, numa noite de Primavera, empoleirado num salgueiro gemebundo e inclinado para o regato que murmura, é o meu único músico. No entanto, eu apreciei muito Martin, pinto do espaço e Bellini, de quem se dizia que era um compositor fácil.

Os seus heróis na vida real ou na História? Eu não gosto de heróis.

Suas heroínas na vida ou ma História? Também não gosto de heroínas.

Heróis da ficção? Heroínas de romances? Nos romances, os heróis e as heroínas agradam-me quando os seus caracteres se definirem pelo terrível e pelo profundo. São pesadelos escritos, em vez de pesadelos sonhados. O pesadelo dá, às vezes, o que eu chamo o prazer do horror, o que me atrai.

Alimento e bebida preferidos? Bifes, água com um pouco de vinho e fruta.

Quais são para si os nomes mais belos? De modo geral não tenho preferência mas antes um preconceito: há nomes que, por uma espécie de previsão instintiva, só se aplicam a tolos.

O que é que mais detesta? Entre os homens o hipócrita e nos animais o réptil: são viscosos.

Quais os caracteres históricos que mais abomina? Os tiranos. Creio, porém, que detesto um pouco mais os falsos amigos do povo.

Estado presente do seu espírito? Demasiado longo para uma ou duas linhas.

Que faltas lhe parecem merecer mais indulgência? As faltas de gramática onde não houver muitas nem boas escolas.

Qual a sua divisa? Querer é poder. Todos desejam mas só os grandes caracteres querem.

One thought on “Alexandre Herculano – 200 anos depois um exemplo”

  1. Só agora li as respostas de Herculano ao questionário. Desconhecia e gostei de ler isto, principalmente a última resposta.
    E livros, há mais recomendações? Fico a aguardar.

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