Pedido de esclarecimento

No Parlamento, há o mundo das Comissões especializadas em função da matéria e o mundo do Plenário.
Consigo entender que ali, nas Comissões, onde mais se trabalha, o tom de quem governa seja outro, mais cordato, mesmo quando se lhes diz, por exemplo, que seria bom ouvir o conjunto de entidades evidentes que se pronunciaram pela inconstitucionalidade do enriquecimento ilícito.
Podem concordar, não concordar, concordar mais ou menos, mas não querem, enfim, uma lei que esbarre no TC. E é asim noutras matérias. Trabalha-se, discorda-se, respeita-se o que é o contributo de cada um.
Chegamos ao Plenário e há, claro, o efeito mediático a que nenhum Partido pode ser imune. É aqui que estão os minutos dos telejornais e é aqui que sem cuidado se escorrega para a demagogia.
O que já não entendo nem aceito é esta superioridade moral que tomou conta da direita, excitada com o poder, pouco disfarçando os seus tiques autoritários. Em todos os debates, como no de hoje, lá vem a cartilha de frases:
“quem são vocês para isto e aquilo?” (porque só estamos aqui há 3 meses);
“está a perguntar, senhor Deputado? Com que lata se só estamos aqui há 3 meses?
E por aí adiante.
Sempre sorrindo.
Seria bom explicar às bancadas que suportam o Governo que o PS e os restantes Partidos têm a função de fazer as perguntas que tiverem por pertinentes, explicar a esta gente que fomos mandatados para isto, que começamos a abrir a boca no dia um, e tem sido um espanto, um espanto fazer perguntas e propostas alternativas à direita que nunca resolveu uma crise que seja em Portugal e que revogou nos tais 3 meses, três mesinhos, o contrato com os seus eleitores.
É assim: da sede do poder ao medo do poder.

6 thoughts on “Pedido de esclarecimento”

  1. O sr eng em 2005 não precisou de de 3 meses para revogar o contrato que tinha com os eleitores, numa época em que não estávamos numa situação tão caótica como hoje, e a sr deputada nessa altura não se deve ter importado com isso, caso contrário não teria feito parte das listas do PS nas últimas eleições. É pena é ao longo destes últimos 2 anos não ter a mesma visão da governação que tem desde 5 de Junho, pois decerto que teria ajudado o governo anterior a tirar o país do buraco em que estamos metidos e não teria deixado as coisas chegar ao ponto actual.

  2. À uns anos atrás estava eu sentado numa acção de recrutamento de uma dessas famigeradas consultoras, sim, dessas que supostamente governam o mundo, quando um indivíduo de uma empresa de recrutamento decidiu lançar um tema para a mesa, éramos cerca de 20 mancebos, para discutirmos. O assunto subjacente ao tema não é exactamente relevante, mas rapidamente se percebeu uma coisa:

    – Quem não está à vontade com o assunto rapidamente divaga e lança a confusão numa discussão que tinha o propósito de avaliar sabe-se lá o quê.

    E é precisamente o que acontece em qualquer comissão, reunião, ajuntamento ou bancadas de um campo de futebol ao intervalo.

    Depois sucede o que acontecia em casa do meu pai: “Isto é uma democracia mas quem manda sou eu!”

    O facto de haverem tiques autoritários só demonstra uma realidade dura: Quem não se sabe respeitar tem que se impor. E isto sucede à dezenas de anos tanto no nosso belo rectângulo como noutro pedaço de terra qualquer.

    Como esta coisa da democracia republicana é cíclica é só esperar pela sua vez, ela há-de chegar. Quando chegar só tem que se decidir: ou opta pelos tiques autoritários ou faz-se respeitar.

    Cumps

  3. Sócrates respondeu muitas vezes coisas desse género à bancada PSD, geralmente com toda a razão. Chamavam-lhe arrogante por causa disso. Quando não tinham argumentos, lá vinha, em desespero, o “arrogante”, apoiado numa comunicação social 90 por cento ao serviço da direita. Nunca achei Sócrates arrogante, pelo contrário. Também não acho Passos Coelho arrogante, pelo menos até agora.

    Se os deputados socialistas de agora por acaso disserem o contrário do que disseram os deputados e os governantes socialistas quando estiveram no poder, merecem que isso lhes seja lembrado.

    Mas o problema destes tipos do PSD é que desde 2008 não fazem outra coisa senão martelar, tipo disco rachado, que a origem do “buraco” e das dificuldades que Portugal atravessa não foi a crise financeira internacional e a crise das dívidas soberanas europeias, mas sim a política do governo de Sócrates. É uma argumentação falsa, bacoca e demagógica de quem julga o povo estúpido, porque entre 2005 e 2008 a única crise que eu me lembro que havia em Portugal era um profunda crise no seio do PSD.

    O PS estava no poder quando a crise veio. Vai pagar por ela com ou sem razão, como sempre acontece em qualquer país do mundo quando há uma crise grave. Se o PSD estivesse no poder em 2008, pagaria pela crise também, o governo nem teria chegado a 2010, estou certo. Tinha sido corrido logo em 2009, se não antes.

    A crise veio, pois, dar um balão de oxigénio a este partido laranja completamente desnorteado do ponto de vista político e ideológico (foi Balsemão quem o afirmou), afundado nas suas guerras intestinas e enlameado por inúmeras histórias escabrosas de corrupção, promiscuidades e crimes económicos e não económicos. A verdade é que a crise que veio penalizar fortemente Portugal veio, simultaneamente, salvar o PSD, repescando-o de uma longa cura de oposição a que Guterres e Sócrates o condenaram depois da “gloriosa” governação de Cavaco. A crise pode até ter salvo o PSD da desintegração como partido, pois essa era uma das possibilidades que se perfilavam no horizonte. Meneses, Santana e outros ambiciosos irrequietos já conspiravam abertamente, estão decerto lembrados.

    O filão da crise salvadora vai ser explorado até ao osso por estes demagogos do PSD, contem com isso. Não têm mais nada a que se arragar.

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