(ou, transigindo, de que lado passarás a morrer, a clarear)?

Li todos os livros de Rui Nunes. O primeiro livro que li (tinha 17 anos) chama-se “Enredos” e nele descobri a liberdade para dizer e escrever o mundo como o vejo, sempre contra o medo, sempre buscando a inscrição dos vetados a apátridas. Esse livro foi agora reeditado e recentemente rasgado pelo brilho da leitura de Conceição Caleiro, no “Público”.

Há, no entanto, outro livro. Parece uma despedida. É este. Tem por título um verso do poema de Nuno Guimarães: (ou, transigindo, de que lado passarás a morrer, a clarear)?.

É raro encontrar uma dedicatória nos livros de Rui Nunes. Este tem: “em memória de Tonito B.”.

Rui Nunes é um escritor que luta na sustância e na forma (daí as palavras em desuso a que se refere Conceição Caleiro, daí a minúcia) contra a desatenção que permanentemente ocorre no mundo; é uma luta para que a história do mundo não seja, precisamente, a história dessa desatenção.

E então este livro. Uma derradeira inscrição. Num Portugal sufocante. O Tonito é um gay dobrado no areal para comer a sombra que o persegue, num ambiente piscatório ofegante, de há umas décadas, o autor é a criança que olha e não entende, paneleiro, paneleiro, são 33 páginas de desamparo, daquela terra como outras, mas esta é a história que se conta, que se inscreve, que não esconde culpas, que faz a denúncia de quem devia afastar o desamparo, como a mãe, e o Tonito (paneleiro, paneleiro) cortou os pulsos e enterrou-se numa banheira cheia de água.

“E o Tonito morreu, ou morria, assim repetido. Já não se anuncia, nem anuncia: está aqui. Nos meus olhos abertos. Desfeitos. Aqui, é por todo o lado.”

 

6 thoughts on “(ou, transigindo, de que lado passarás a morrer, a clarear)?”

  1. li apenas o Grito de Rui Nunes. reconheço-lhe uma voz inconfundível por dentro da literatura da dor, da doença e da morte – mas dispenso-a, não por considerar que o mundo precise de facilitismos de narrativas, porque a densidade e a escuridão são eleitas. o mundo, os mundos, precisa – obviamente e sem narrativa óbvia – de leveza e de manhãs claras.

  2. Já li “o Grito” e “Osculatriz” mas, se Deus quiser, hei-de ler os outros todos, pois, apesar de remeter a universos com que não tenho muita afinidade, fico com a sensação de não existir forma mais perfeita de encaixar palavras.

  3. É minha impressão ou à palavra “sustância” falta o “b”? Essa palavra não muda com o AO. O “b” lê-se e a principal regra do acordo é de que se escreve tudo o que se lê, pelo que, muitas vezes, alguns vocábulos se escrevem de forma diferente em Portugal e no Brasil – como é caso de “receção” e de “recepção” (no Brasil lê-se o “p”, por cá não). E, volto a lembrar que, contrariamente ao que muitos pensam, “facto” continua sempre escrever-se com “c” em Portugal.

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