O Outono do poder

Meia coisa. Às vezes quase quente. Céu azul depois de um dia de chuva. Chuva outra vez. Nada de mal. Meia coisa. Se fosse o estado do tempo. Mas é o discurso do poder, a perder apoio nas massas dos seus partidos de apoio. Uma solidão arrogante. Meia coisa. Às vezes explica-se. Nesses dias, pela metade. Vem a outra metade no noticiário do dia seguinte. Decisões surpresa. Nunca dizer “afinal”, porque essa palavra denuncia a omissão. A quem? Ao povo, que sabe e não sabe, que não é tido nem achado. Porque houve eleições. E isso basta para o exercício. O exercício do poder. Arrogante. Uma solidão. Propositada. Uma orquestra a ajudar o quase quente ou o quase frio. Os mesmos que queriam uma constituição reduzida a princípios arrasam o TC quando este decide, a pedido, de acordo com os tais princípios universais. Mas a orquestra até descobre que o TC toma decisões com base em leituras “dogmáticas” da CRP. Agora. E só agora. Que são poder. Céu azul depois de chuva. Agora omite-se o falhanço de uma política obstinada com uma voz firme contra o TC, conivente com atacantes externos da nossa soberania interna. O TC, tal que é dogmático e político, sem que a acusação seja feita a quem faz um requerimento convicto da inconstitucionalidade das normas de um governo sem normas, o PR, por exemplo, que já pediu a fiscalização de um OE, da lei da mobilidade, da lei do crime de enriquecimento ilícito e agora da convergência das pensões. Então em que ficamos? Meia coisa. Quem aciona o TC exerce um direito, diz-se; se o TC dá razão a quem aciona o TC é um caldo entornado, é uma força de bloqueio. Tomates para ir até ao fim da acusação antidemocrática e chamar ao PR os nomes que chamam ao TC não há, claro, “é um dos nossos”. Até fez o seu primeiro discurso no início da legislatura como presidente da maioria apenas, foi um ataque inesquecível, esse sim, em desvio de poder, ao governo anterior, mas foi tão bom. Contradição insanável. Mas é outono e amanhã talvez faça sol. Ou chuva. Tanto faz. A voz do poder é um eco. Mas de outras palavras. Ou de uma palavra muda: chama-se verdade. E assim entre a chuva e o sol espatifa-se o Estado de direito, o Estado social, a vida das pessoas, abandonadas, desesperadas, cortar, cortar, cortar, diz que não há alternativa, acena-se com metas cumpridas em reviravolta de má-fé do que tinham sido os objetivos em 2013. É indiferente. Não se explica. Dita-se. Porque a mentira não se explica. Disfarça-se: “os cortes são transitórios”; “subir o salário mínimo se”; “este corte é indispensável”; “há muito mais pensionistas salvos dos cortes do que apanhados pelos cortes”; é “proporcional” cortar a pensão de uma pessoa concreta de valor pouco acima do salário mínimo porque, presume-se, essa pessoa deve sofrer na carne uma visão geral sobre um e outro sistema; “cedemos”; “estamos a permitir que as famílias escolham em que escola colocam os seus filhos”, não a destruir a escola pública e a iniciar o regresso ao analfabetismo; “prefiro ser celta do que ser grego”; e assim vai o discurso da não alternativa fortalecido pelo encontro do bode expiatório desta destruição: o TC. É indiferente. Porque a solidão é sempre indiferente. Quando é escolhida. Quando é poder. A aula magna incomoda e é trucidada pelas franjas desta ou daquela palavra. Que solidão. A aula magna é o retrato da solidão do poder. Que é perigosa. Que dita. Mentindo sempre. Porque o povo existe e sabe do que se passa. Há que metê-lo num quarto à prova de som. Mas não é possível. O Outono é deste oráculo decisório e propagandístico. Não é do povo. Porque o que não tem alternativa, o que não é alternativa é a destruição do que nos define e do que nos permite sermos.

 

20 thoughts on “O Outono do poder”

  1. que texto tão lindo, Isabel. mas sabes, a alternativa é mesmo – pelo menos no que concerne ao que é sermos- esperarmos que melhores nos definam. tu e o Galamba e o Val podiam, juntos, criar um partido que limpasse este outono todo e fizesse uma primavera fresca e viçosa de oposição.

  2. o outono do patriarca que, no entanto, insiste em treinar o seu povo a trabalhar comendo progressivamente menos, como na história do cavalo inglês, ali era uma anedota de humor negro, aqui é a masturbação solitária do poder frente a camadas de pessoas que empobrecem, que até trabalham, mas empobrecem e, coisa ótima para o poder, deixam de ler livros ou ter acesso a bens de cultura, deixam também de almoçar, mas até engordam para espanto do patriarca, porque ao jantar os escravos da Nova Ordem Austeritária presenteiam-se com ovos e batatas fritas, frangos de aviário e molho, quando há, e depois há os outros, para deleite do grande masturbador, os pobres velhos, os velhos pobres, e os pobres pobres que se contentam com uma sopa, algumas esmolas dos ricos ricos, cada vez mais impunes nas suas negociatas bancárias e parcerias com os dinheiros públicos, de todos nós, que sucessivos governos foram entregando de mão beijada aos seus amigos privados, que isto de socialismo e de social-democracia pertencem ao passado e troca-se por uma boa e venturosa parceria «público-privada», todos impunes e arrogantes, políticos que se disfaram de comentadores, comentadores que são políticos disfarçados, e a classe que partilhou o poder teme a «onda da violência» que se perfila no horizonte, os ministros multiplcam-se em anúncios de uma tranquilidade póstuma, que vem aí a primavera pós-troika, a recompensa celeste para os sacrificados no altar do lucro, o eufemismo do mercado convém-lhes, porque é aquilo que não tem rosto nem residência conhecida ou oficial, um mal que se espalha como uma peste que assola as aldeias, chega às cidades, e somos um povo vencido pela soberba do reino, a solidão da corte ditou a nossa desgraça coletiva, amanhã talvez haja sol, e o dia da soberania esteja próximo, da última vez só durou sessenta anos, e teve que haver sangue, pouco, alguns lacaios atirados pela janela fora, agora, temo, nem haverá janelas que cheguem, nem regeneração tardia, e o sol que vem talvez justifique, na luz que inunda os becos e as esquinas do esquecimento, que os novos pobres se envergonhem de um dia tão radioso, e se escondam sem esperança.

  3. Quando o Poder não cumpre a Lei, acima de tudo a Lei Fundamental, a “legitimidade” dos votos passa a ser uma ilegitimidade partilhada entre um Poder a prazo e um Povo cúmplide à espera da fórmula para a sua auto-redenção, que pode tardar, mas sempre chega.

  4. joao lisboa,a zita seabra tambem foi “muito amiga” do teu camarada alvaro cunhal.seria o dia mais feliz da tua vida se ele te desse o privilegio de te estender a mão.não tiveste essa sorte talvez por seres um gajo mesquinho,sectario e profundamente socialfascista!

  5. Gostei muito do texto.

    A frase “prefiro ser celta do que ser grego” é curiosa. Faz-se aí uma evocação do legado histórico celtibero. Mas o que os laranjas exaltam, por seus actos e palavras, é um comportamento que desonra a força e a coragem dos seus antepassados… E que nem sequer tem sido o comportamento dos irlandeses, nas negociações com a troika…

  6. joao o regime que defendes matou milhoes! e continua em cuba e na coreia.pela pide que todo o democrata rejeitou,durante a sua existencia no tempo do fascismo passaram 10.000 portugueses. numero que inclui ( interrogados,presos e assassinados) esta diferença de nuemeros e processos,ainda saõ motivo suficiente para manter muitos portugueses ao lado do regime que derrubamos. se os quizeres confirmar compra o livro sobre os anos da pide. na fnac ainda deve haver alguns. o regime que defendes na teoria é o melhor dos mundos,o pior é a realidade.

  7. Mas o Outono já começou há mais de uma década, dura desde o dia em que Guterres saiu, empurrado para o exílio, pelas “elites” nacionais. Agora, já estamos no crepúsculo do poder.

    O crepúsculo do poder ocorre quando órgãos de soberania, tomados de assalto por grosseiro embuste propagandístico e nunca demitidos, se transformam em órgãos de tirania.

  8. “a zita seabra tambem foi “muito amiga” do teu camarada alvaro cunhal”

    O “MEU CAMARADA” Álvaro Cunhal???!!!…

    LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!

  9. Parabéns Isabel Moreira.Um ser inteligente e desempoeirado é,sempre,um ser inteligente e desempoeirado,independentemente dos tempos e as suas circunstâncias.E,a Isabel (perdoe-me o trato)é-o!

  10. edie, quando dizes que incito ou legitimo a violência, isso é uma extrapolação perigosa das minhas palavras. Em minha opinião, penso que as eleições continuam a ser a melhor forma de todos darmos a volta a isto. Considero que deveríamos realizar eleições o quanto antes.

    Não faço apelos à violência quando digo que estamos a transitar de democracia para tirania. Não podemos ignorar acontecimentos históricos como sendo a transformação da república romana numa monarquia imperial ou da república de Weimar no terceiro Reich. Convém não esquecer nem censurar aqueles que procuram entender e explicar esse fenómeno. Vejo como saudável a postura de Mário Soares mas falta, contudo, ir à raízes do problema.

    É um lugar comum dizer que a democracia não se reduz nem a um articulado legal nem a uma colecção de instituições. Porém, como sabemos, tudo isso é indispensável ao seu funcionamento; as instituições são, digamos que, o corpo da democracia. Porém, um corpo sem alma é um morto-vivo. Falemos então da essência, ou alma (no sentido filosófico, de princípio que busca uma finalidade) da democracia. A alma da democracia é a partilha do poder pelos cidadãos. Este conceito opõe-se, forçosamente, a qualquer estratificação social súbditos/soberanos, que é a argamassa social que legitima os regimes não democráticos.

    Tirania, palavra com origem grega, significa “liderança ilegítima”; é uma forma de governo oposta à democracia, onde o órgão que detêm o poder o faz de forma ilimitada. Onde esse órgão não necessita, efectivamente, de prestar contas a outros órgãos pelos seus actos. Numa tirania, o poder é exercido de forma absoluta.

    A ideia de que a democracia se esgota num acto eleitoral, de quatro em quatro anos, atenta contra a alma da democracia. Como devo, então, interpretar a mais recente tentativa de condicionamento do Tribunal Constitucional, conduzida pelo governo e pelas instâncias europeias? O sintoma mais claro da transformação de uma democracia numa tirania é, como todos deveríamos saber, a violação do princípio da separação de poderes. Esse princípio é indispensável à interdependência dos poderes, constituindo essa interdependência a alma democrática do exercício da soberania entre actos eleitorais. Ora, sem um corpo dotado de alma, as eleições convertem-se em plebiscitos.

    Por outro lado, a tirania não significa, por si só, violência ou despotismo. Houve monarcas absolutos esclarecidos. O despotismo é consequência do exercício imoral do poder absoluto. O despotismo ocorre muitas vezes em lideranças hereditárias, e decorre da corrupção moral que o exercício do poder absoluto acarreta. Porém o tirano esclarecido, apesar de governar com poderes não circunscritos, tenta sempre não perder de vista a legitimação popular. Para se manter, a tirania necessita do consentimento da população. É por isso que o tirano esclarecido procura a legitimação no populismo, e mesmo no plebiscito.

  11. Belíssimo post. Creio que a Isabel está no caminho certo para se encaminhar em direção à Literatura. Seria interessante se viéssemos a descobrir, nestes dias de chumbo, uma notável escritora.

  12. joaopft,
    não percebeste, mas estava a ironizar (dizendo o contrário do que penso).
    Mas valeu a pena a brincadeira, porque ganhei uma resposta rica e séria. Concordo em tudo com o que dizes e que coloca a importante questão de como lidar democraticamente com o poder tirano (no sentido do exercício imoral do poder absoluto – acrescento tornado abusivamente absoluto). Ou seja, quando um poder mina e usurpa as “instituições que dão corpo à democracia”, dando um golpe na dita, como agir?

  13. ai estes fãs são tão distraídos: a isabel já é escritora com obra publicada. Por acaso até tenho o Ansiedade (o último), e confesso que me dediquei com afã à leitura mas não consegui passar de 1/3 do volume. desculpa lá, Isabel. Profundo, íntimo, mas em círculos repetitivos e fechados sobre si (tu) própria. Cansativo.

  14. Tou a ver! Exactamente aquela literatura de que os poucos leitores que há em Portugal (uns 6%) teriam grande vantagem em livrar-se!

  15. “A aula magna incomoda e é trucidada pelas franjas desta ou daquela palavra.”

    é só isto que tens para dizer? o valupi já apresentou 3 teses de mestrado em violência, a bécula mais de uma centena de comentários laudatórios e tu que participaste na coisa, ficas-te por uma linha semi ambígua.

  16. sabes aquela …” you say tomeito ad I say tomato”?. pois, é uma questão dos ditos, diga-se de que maneira se disser…

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