Ironias – vamos fingir que a questão é o “aborto”

O PSD, acolhendo as ideias sem preconceitos de António Pinheiro Torres, aprovou no seu congresso a reavaliação do modo como a lei do aborto é aplicada em Portugal.

O tema não é a IVG – perdão, o “aborto” -, o tema é a infiltração na JSD e no PSD do conservadorismo extremista obsoleto que se lambuza de alegria com a possibilidade de punição das mulheres espanholas. Os mesmos que fingem desconhecer as regras de um referendo e dizem, com espanto, que uma pergunta de resposta sim ou não, como a CRP manda que seja, não tenha lá toda a regulamentação. Até porque se tivesse, António Pinheiro Torres, Isilda Pegado e companhia teriam sido, claro, a favor da IVG, certo?

Os mesmos que sabendo de todos os bons resultados na aplicação da IVG (por exemplo ao nível da taxa de repetição), resultados esses que traíram todas as suas previsões, encontraram sob os ventos de Espanha uma nova luta: as taxas moderadoras.

Soa bem, mas as pessoas sabem que a IVG pertence à categoria de actos médicos sem taxas nomeadamente por causa do sigilo. Ora vamos ver: se uma mulher decide interromper uma gravidez sem o conhecimento do cônjuge (as razões poderão ser infinitas, mas todas elas … dela) irá a mesma pedir àquele a declaração conjunta de IRS para fazer prova de insuficiência económica? E se uma menor com idade legal para interromper uma gravidez exercer esse direito sem querer, como é sua prerrogativa, que os pais saibam? O que faz? Vai pedir aos pais a declaração de IRS como dependente arriscando o sigilo da sua decisão? E uma mulher que por duas vezes recorre à IVG? Deve ser punida como defende este PSD arcaico? E por quê? O PSD sabe o que levou uma mulher a ter a infelicidade de interromper 2 vezes uma gravidez? O PSD faz desta mulher uma “reincidente”, jogando propositadamente na terminologia do direito penal, na terminologia da culpa.

O tema não é a IVG – perdão, o “aborto” -, o tema é a infiltração na JSD e no PSD do conservadorismo extremista obsoleto defendido pelos nomes de sempre, os que alegram este blogue, que afirma violentamente o que os novos inspiradores do PSD afirmam com uma linguagem aparentemente diferente. São contra tudo o que a lei civil consagre que não seja o espelho do código canónico. São contra o divórcio, são contra os homossexuais – ser contra as uniões de facto ou  casamento (noutra linguagem, casamento entre sodomitas) ou o que quer que seja é consequência -, são contra a lei da mudança de sexo (na petição explicavam como as pessoas podiam organizar-se para cometer grandes crimes e depois mudar de sexo para fugir à lei – apesar de as autoridades competentes ficarem, claro, com os dados identificativos da pessoa em causa antes e depois da mudança de sexo), são contra a educação sexual nas escolas, exigem que o estado financie as famílias que recusam o ensino público, mesmo onde há oferta, e que querem os seus filhos em colégios decentes, são contra a lei da PMA (das mais restritivas da Europa) e sem um pingo de honestidade intelectual continuam a tentar ser um de nós.

Não são. O país não se revê na ideologia totalitária sobre as escolhas pessoais de cada um.

E o PSD?

 

6 thoughts on “Ironias – vamos fingir que a questão é o “aborto””

  1. … e vais ver que o Joaquim Azevedo vai dar uma ajudinha ao governo PSD/CDS na questão da natalidade e da falta dela propondo a revisão da lei da IVG, perdão, do “aborto”, só para chatear as espanholas.

  2. Para o Torres e muita boa (!) gente estas modernices da IVG para todos, é só um enorme desperdício de dinheiro, pois os ricos terão sempre o problema resolvido os restantes que se amanhem nos vãos de escada, na clandestinidade ou que passem a barrigas de aluguer…

  3. Não são precisas “taxas moderadoras” ao IVG; já há a censura moral. Se a direita acha que as taxas moderadoras são precisas, então é porque essa rapaziada não está a fazer bem o seu trabalho. Se precisam, agora, de “moderar” a IVG — não através dos ensinamentos da fé cristã, mas metendo o vil metal ao barulho — parece-me que Deus poderá não apreciar o que estes alegados fiéis andam a congeminar em seu nome.

    (Suspeito que estes supostos cristãos só se precupam com a vida intra-uterina porque querem que continue a haver, no futuro, mão-de-obra para explorar. Reponham o que levaram, com a austeridade, que logo resolvem esse problema.)

  4. Gostaria só de referir que, embora sendo mulher, não percebo por que motivo, se deve descurara questão da paternidade, pois nos milhares de motivos que podem levar a mulher a abortar, eles nunca poderão ser apenas dela, porque a criança não foi concebida apenas por Ela!

    Gostaria que se olhasse para esta questão, pois se se censura veementemente os pais (homens) que, em caso de divórcio, se divorciam também dos filhos, considerando-se que têm o dever de prestar alimentos e exercer a paternidade a todo o tempo e em plenitude. Não vislumbro razão para que “esse egoísmo” de que, nós mulheres, nos socorremos quando nos convém, vigore!

    A igualdade não se concretiza se for só para nós, mas sim para ambos os géneros!

    Daí pensar que, se fosse homem gostaria de ser “tido e achado” na questão do Aborto, não devendo ser excluído, à partida, dessa decisão, pois se a gravidez continuasse, também seria pai e teria deveres e obrigações provenientes dessa condição.

    Sendo mulher e mãe, também não consigo imaginar estar grávida, tomar uma decisão difícil como essa, e não consultar a pessoa que comigo “participou” nessa concepção.

    Pensem nisso por favor!

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