FMI: um susto previsível

Não foi susto algum.

O Governo de Passos Coelho, enquanto discutia o OE de 2013, anunciava já a necessidade de cortes adicionais de 800 milhões de Euros e de veio também anunciar, claramente e sem vergonha, a necessidade de restruturar o “Estado Social” a partir de um número: 4 mil milhões de Euros.

Em plena discussão do OE de 2013, o Governo assumia previamente o seu fracasso e a sábia certeza de um retificativo sangrento do já comatoso – para os portugueses –, OE.   

Por isso mesmo, toda a discussão na especialidade do documento mais importante para a nossa vida económica, independentemente do seu conteúdo, segundo quem jura defender a CRP, foi inquinada: que verdade havia nos números dos relatórios setoriais se estavam anunciados cortes daquele calibre? Naturalmente, nenhuma.

O OE de 2013 é uma selvajaria, contém normas inconstitucionais, mas é um documento parcelar de um plano mais vasto, plano esse que começa por saber, e ainda assim fazer, um OE sem outro resultado que não mais do pior que vimos em 2012.

Não foi, por isso, susto algum.

O infame documento do FMI, encomendado pelo Governo, participado pelo Governo, significando por parte de Passos a assunção de um protetorado para o qual não tem mandato, chegou com a receita para os tais milhões e milhões de cortes que temos de fazer. É o FMI que diz – uma defesa do Governo – ainda veremos o que do estudo será “aproveitado”.

Ora o estudo, cujo custo ainda não foi divulgado, para além de se basear (acredito que de propósito) em critérios errados a um ponto aflitivo (veja-se o tratamento dado às pensões e às reformas, enquanto despesa social do Estado, como se os beneficiários não contribuíssem ao longo da sua vida para aquelas), tem de ser desmontado, porque parte de uma “mensagem” ou de uma “narrativa” do que é o Estado Social ignorante, mas ainda assim, passível de enganar.

O estudo, que não é uma reforma do Estado, mas um amontoado de cortes indignos, mente sobre a lógica contributiva em que assentamos, ou omite-a, donde ter por implícito antes de cada corte, que o Estado só pode “gastar” um euro que seja com os miseráveis dos miseráveis. Esta subversão do Estado Social, pretendendo fazer esquecer que todos pagamos impostos progressivamente numa lógica de solidariedade, e por, isso mesmo, todos, mas todos têm acesso ao melhor que há de disponível na medicina pública, pobres ou ricos, para dar um exemplo de um dos pilares do Estado Social.

Os inspirados técnicos do FMI, inspiradores desde logo de Carlos Moedas, fingem não saber que o Estado Social representa não apenas uma despesa, mas um investimento e uma percentagem substancial do rendimento das famílias.

Mas temos um Governo. Parece que quer refundar o Estado Social. Qual é o estudo exigível a tal propósito ou justificativo de cortes aqui e ali? Nenhum.

A refundação do Estado Social, para a direita, não tem uma ideia que seja: tem um número, exatamente aquele que corresponde ao desastre das suas medidas de desgovernação.

 

 

 

8 thoughts on “FMI: um susto previsível”

  1. os socialistas, em particular, continuam muito fracos no parlamento (um estágio no psd fazia-lhes bem). porque surge o nº 4000 milhões e não 8000 milhões ou 800 milhões? alguém sabe ou alguém perguntou a quem de direito? e esse valor (ou outro) decorre directamente das políticas de austeridade, do ir para além da troica, e da incompetência em atrair investimento externo e interno e fomentar as exportações, ou nem por isso?

  2. “A refundação do Estado Social, para a direita, não tem uma ideia que seja”
    Ai tem, tem. Tem a ideia da destruição do Estado para depois apanhar o que restar dele e usar em proveito próprio, como aliás já está em certa medida a fazer mesmo antes da sua liquidação.
    O relatório do FMI é apenas e tão somente uma etapa no “carnet de route” desta maioria no sentido de qualquer coisa que me ecuso a nomear para não acordar fantasmas. Na realidade Isabel Moreira sempre abandonámos o país, por fome, por miséria e raramente pelo tão decantado espírito aventureiro. Hoje, alguns dos melhores de nós, saem por desespero, desesperança e raramente com vontade de voltar. Estamos num país que não é para jovens e dói aos velhos.

  3. “Na realidade Isabel Moreira sempre abandonámos o país, por fome, por miséria e raramente pelo tão decantado espírito aventureiro.”

    tamém há os que fugiram por motivos políticos, os que prometem pirar-se por causa do irs e os que vivem cá na qualidade de evadidos para não serem notificados.

  4. Pois há os que fugiram por motivos políticos e que salvo raras e honrosas exepções, regessaram para se amesendar na gamela do orçamento com algumas idas/estadias à estranja em representação da Nação. Há os que prometem pirar-se por causa do irs, mas que nunca chegam a vias de facto poque no fundo sabem que para eles irs é sempre que um homem quiser. E há os que vivem cá na qualidade de evadidos para não serem notificados, porque em verdade de te digo irmão ignatz que na realidade almejam sempre uma oportunidadezinha de beijar, não esqueçamos que estamos no post de uma Senhora, o olho do ânus dos poderes instituídos.

  5. Também eu, no mínimo, fico estupefacto com tanto alarido à volta deste “pseudo/hipotético/suposto/designado” relatório do fmi.

    Bem vistas as coisas, a verdade é que não trouxe novidade nenhuma. Já é famigerado de um lado e do outro. E fico estranho porque é só mais do mesmo.

    Desde já deixo a minha declaração de interesses: recuso-me a ler o original do que quer que seja que o Moedas disser que está bem feito.

    Voltando ao assunto. O suposto fmi diz que estamos a mais na educação, a mais na segurança, a mais no funcionalismo público e, no fundo, a mais em todo o lado. Nenhuma novidade. O “suposto” PM já nos mandou emigrar há uns meses. A racionalidade mínima não nos permite pensar outra coisa que não seja sermos demasiados para a ideia de País que a mente desmesurada do Passos Coelho consegue equacionar. Aqui o Relvas não conta sequer porque ser dr. muito antes de o ser ultrapassa-nos.

    Aliás, o relatório é claro no sentido em que temos tudo a mais. A começar pela História. O relatório não diz mas devia estar lá escarrapachado porque, isso sim, eles nunca nos vão perdoar. E nisso temos o Barroso, o nosso palhaço mor.

    Quanto a Sol a mais, nem falar. Enquanto a ciência não puder controlar isso temos que “empreender” soluções. Se 11 meses de trabalho dão direito a 12 /18 dias de indemnização por ano, a distribuição de senhas para 3 a 5 dias de praia/ano não me parece nada mal. E nem temos que cumprir horário. Prontos, ficamos pelos 15 dias de indemnização e pelos 4 dias de praia/ano.

    Houve muito quem demonstrasse preocupação com o aumento das taxas moderadoras na saúde. Mas isso já está a acontecer. Mas quantos serão realmente os ingénuos que pensaram: Bem… o Paulo Macedo vai parar por aqui? Se forem muitos, adorava ter estado nesse grupo.

    Na educação, qual é a novidade? Só se for a postura dos professores que (de tristes) da avaliação que tanto contestaram, estão a gostar de passar a miseráveis. O PM não tinha dito já que estava a ponderar taxas para a educação. O número de alunos por turma não aumentou? Os cortes nas Universidades ou na Investigação não estão já a criar enormes dificuldades no funcionamento das Instituições. Mas existiria ainda alguém ainda com expectativas que o valor das propinas, das bolsas ou do número de alunos por turma “tendencialmente” viesse a manter-se ou a diminuir? Só posso ficar parvo com as reacções da respectiva classe.

    Nada justifica indignações. Toda a gente sabe que o re_la_tório do fmi divulgado, foi sempre o “pograma” deste governo e que é para continuar. Só ao Be e ao Pcp se pode reconhecer algum direito à revolta porque foram eles que colocaram esta canalha no poder. E, por coincidência, “poder” é a palavra mais procurada no dicionário, por cá e no ano anterior!?…

    Só por curiosidade, alguém sabe dizer-me quantos postos de trabalho o cluster do pastel de nata do nosso querido Alvarinho já criou? Também deve estar grávido. Temos que perguntar aos Secretários de Estado. Aliás, parece que todo o governo está grávido. Sempre que existem dúvidas, vem um SE.

    Enquanto não interiorizarmos que o País é demasiado pequeno para os interesses que colocaram no poder o Passos e o Gaspar só podemos lutar cada vez mais com os meios que a democracia nos permite. E isso é tudo menos o que a maioria fez ontem no Parlamento ao recusar discutir o relatório porque o filho do Menezes achou ofensivo chamar de criminosas as políticas do governo. Que conceito de crime tem o rapaz, se +e que leu o código civil? Não me parece que crime seja necessariamente matar pessoas. O OE 2012 passou com inconstitucionalidades, e tenho a certeza que isso significou a limiar mínimo de sobrevivência para muita gente. Não morreu ninguém? Felizmente. E a adjectivação de criminosas às políticas foi mais do que suficiente para a maioria parlamentar não aceitar dar sequer opiniões sobre o relatório. Palavras, palavras… palavras para quê? São artistas portugueses. A equipa do Gaspar não conseguiu sequer um sms para deixar umas dicas ao grupo parlamentar? Disse ele, o Gaspar, que está a pagar a formação que teve no país. Antes de mais temos que perguntar quem é que lhe pediu contas? E devemos prevenirmos-nos para o pior porque, dizem, o sr. tem uma formação de excelência.

    Nós sabemos muito bem que tudo desta governação é muuuito inteligente. Não é só o relatório. Se as previsões falham é por culpa das estúpidas das circunstâncias. Com a certeza que não nos vão conseguir vender o País à peça, só temos que decidir se este espectáculo de governação deve ser taxado a 6 ou a 23 de iva. Pornografia ou arte política?

  6. Os FoMInhas, agora arvorados em Goldman Sachs e Moody’s dois-em-um, continuam a querer vender este jardim de um subprime à beira mar plantado.

    Fazer mais por menos?! Será que os FoMInhas decretaram, entretanto, que as leis da conservação da massa e da energia não são válidas?! Pior ainda: será que a 2ª Lei da Termodinâmica, essa mesmo que diz que quem tenta fazer mais com menos, acaba a fazer menos com mais, foi ilegalizada, em terras do tio Sam?!

    Em economiquês, a 2ª Lei da Termodinâmica apenas nos diz que, na maior parte dos casos em que se pretende “racionalizar” os custos, está-se, de facto, a diminuir a despesa por aumento de custos indirectos e da geral degradação da panóplia de externalidades que acrescem aos factores de produção.

    Vai-se a ver e se calhar os FoMInhas planeiam fazer passar uma lei, no nosso parlamento de maioria laranja, a decretar que a 2ª Lei da Termodinâmica é falsa. Não seria a única vez. Houve, no passado, um político americano que fez aprovar, pela sua bancada, um decreto que ficou na história como a única tentativa de fazer validar uma hipótese científica por via legislativa. Este episódio, que se conta entre pessoas do meio universitário como uma piada, está bem contada na wikipedia:

    http://en.wikipedia.org/wiki/Indiana_Pi_Bill

  7. Não vejo nenhuma novidade no relatório do FMI. O que é triste, nisto tudo, é o facto de ainda não termos caido na realidade e terem de ser os de fora a obrigar-nos a mudar de vida.
    No entanto, acho que o Estado não pode desinvestir na educação. Pois a sobrevivência do próprio Estado, depende de contribuintes mais instruídos, com capacidade em criarem maior valor acrescentado no seu trabalho e, com isso, oferirem de maiores rendimentos, logo mais receitas tributárias.
    Na saúde, acho que se deve controlar mais os gastos. Isto não significa que não deva haver saúde para todos. Acho que não garantir a saúde a todos os cidadãos, é um retrocesso civilizacional.
    Na defesa, deve haver uma maior racionalização dos meios e procurar ter uma Forças Armadas verdadeiramente eficazes. Para quê, o Exército ter 35.000 homens quando só há, no máximo, uma brigada de aerotransportados de 3000 homens, com capacidade operacional de cumprir todas as missões?
    Acho que o problema da redução dos 4.000 milhoes deverá ser feita à custa da racionalização dos serviços públicos e diminuição das negociatas que continua a haver entre o Estado e muitos tubarões do regime que se sentam sobre o OE para o repartir.

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