Chamava-se Augusta Duarte Martinho, aquela solidão

Há uma mulher morta no chão de uma cozinha. Com ela, morto o seu cão, o único que a testemunhou, se bem ouvi a história. Há esta mulher morta no chão da sua casa. Está ali, morta há nove anos, naquele lugar que, em Direito, desde os Romanos, também é “domicílio”, o local, precisamente, onde presumivelmente a pessoa se encontra.  Nessa vertente, o domicílico que anda para aí citado na feira da queima das responsabilidades, tem a ver com a nossa projecção num lugar em termos de vontade: quero fazer disto a minha casa.

É então natural que esta história nos recorde, antes do Direito, às vezes tão infernal, a metáfora aguda da solidão que ela encerra.

Artigo 34º da Constituição, artigo 177º do CPP, pois, posso passar por lá, mas uma mulher posta no chão do espaço que foi a sua casa, por nove anos, morta, velada por um cão, se bem entendi, sem que a quebra das suas rotinas gerasse um pontapé na porta?

Que vizinhanças as nossas, que comunidades estas, que olhares matinais e que olhares à chegada aos domicílios permitem desaparecimentos por nove anos? E que vida era aquela, a da mulher, assim como agora se diz, da mulher, essa pessoa de nome Augusta, que não viu, felizmente, que o silêncio que põe fim à vida prolongou-se por um ano sob uma luz a ser cortada por falta de pagamento e por mais oito, porque há artigos e normas e conceitos mal interpretados.

O primo, Armando, foi 13 vezes ao Tribunal. A Vizinha, Aida Martins, foi a primeira a participar o desaparecimento.

Nove anos nada. É ler isto. As normas, os conceitos e as interpretações criminosas. Entre agentes da autoridade e vizinhos que se lembrassem da estranheza de alguém eclipsar, pena que não tenha ocorrido a um qualquer cidadão arrombar a porta: chama-se acção directa.

Agora, apurar responsabilidades. Apurar.

A solidão é tanta que não me ocorre uma banda sonora decente que me acalme. A solidão é tanta também porque uma multidão andou a interpretar o Direito no sentido daquela solidão.

11 thoughts on “Chamava-se Augusta Duarte Martinho, aquela solidão”

  1. A bem dizer, a Senhora só, morreu ontem.
    Mas é bem triste que uma Pessoa não tenha o direito a morrer no dia da sua morte.
    Paz, Senhora !
    Jnascimento

  2. gnr, psp, judiciária, tribunal de sintra. quatro instâncias a que se fez apelo e que nada fizeram apesar das (ainda assim algumas) diligências do primo e vizinhas. a ideia de que uma pessoa de idade avançada sem parentes próximos possa morrer em casa, sem alarido, nunca atravessou a mente destes agentes que, quanto mais não seja, criaram uma ameaça à saúde pública por simples negligência.

  3. Primeiro isto lembra-me uma frase de alguém em 1987 sobre um escritor italiano: «Ele morreu há 40 anos no campo de concentração, não morreu hoje». Mas vejo dolorosamente a força da informática – a casa foi vendida «on line» e foi comprada «on line» por alguém que não a viu. Ouvi outro dia uma história aterradora num autocarro: «alguém roubou livros numa junta de freguesia e a primeria coisa que a polícia fez foi abrir a «internet» e levou um livro de uma livraria sem se preocupar em saber de facto por exemplo quem eram os suspeitos da junta de freguesia por serem os mais frequentes leitores. Até parece que a polícia só sabe trabalhar com a internet…

  4. Aterrador mundo em que nós vivemos. Esta história é sinistra. Mas há um aspecto que por demais medonho me atormenta: dois seres vivos a apodrecer e ninguém sentia que havia um ambiente mórbido? Chega a tanto a indiferença humana?? Passa-se a uma porta onde fede morte (desculpem-me, mas têm que ouvir o que sinto!) e estão-se nas tintas?? Todos e mais os que são pagos para pugnar por nós?Tenho relutância por medo a admitir tamanha indiferença! SOCOOOORRO!!!!!!!!!!

  5. E nós qualquer dia vamos todos chamar-nos

    ELEANOR RIGBY,

    died in the Church and was buried along with his name.
    Nobody came…

    Father MacKenzie,
    writing the words (…), as he walks from the grave,
    no one was saved!

    ALL THE LONELY PEOPLE, WHERE DO THEY ALL COME FROM?

    ALL THE LONELY PEOPLE, WHERE DO THEY ALL BELONG?

    AH! LOOK AT ALL THE LONELY PEOPLE!…

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