Conta de sumir

Factualmente, a notícia é esta: ontem, 15 minutos depois do arranque do debate quinzenal no Parlamento, o primeiro desde o desafio de António Costa a António José Seguro, a bancada socialista tinha 34 deputados presentes (em 74), ou seja, a maioria dos eleitos do maior partido da oposição estava em falta. Depois, a pouco e pouco, lá foram aparecendo, acabando por compor a bancada.

Em termos de análise parece legítimo ligar esta realidade a uma outra, conhecida dias antes: 45 deputados do PS pediram então à presidente do partido, e também deputada, Maria de Belém, que convocasse um congresso extraordinário eletivo, ao arrepio da vontade da direção de Seguro.

E os dois factos, somados, permitem uma opinião: a maioria da bancada socialista, oriunda das listas hierarquizadas nas últimas eleições a que concorreu José Sócrates (outro facto), está a colocar os interesses internos à frente dos interesses do País. Utiliza o tempo de trabalho, pago pelos impostos dos portugueses, para tomar posição na luta pelo poder que está a decorrer no interior do PS.

Assim, sim, somam-se dois factos e chega-se a uma opinião. Há mais uns quantos factos, mas o João Marcelino fez muito bem em ignorá-los, não vamos complicar uma soma tão simples.

Por exemplo, este debate quinzenal também foi o primeiro após a discussão da moção de censura que o PCP apresentou ao Governo. O João Marcelino já não está recordado, mas nesse debate o secretário-geral do PS, que tinha dado uma certa indicação de voto aos seus deputados, resolveu não comparecer no debate, e não se ausentou apenas 15 minutos, só apareceu para a votação final. Também é um facto que os tais deputados que exigiram a convocação de um congresso extraordinário estão longe de estar sozinhos nessa exigência. O jornal que o João Marcelino dirige está farto de dar notícia de outros militantes e ex-dirigentes do PS a exigirem exactamente o mesmo. Mas como não pode dizer que só o fazem porque estão todos a ser manipulados por Sócrates, fez bem em ignorar mais este facto. Claro que o que motivou a actual disputa pelo poder no PS, ou seja, o facto de Seguro ter obtido um mau resultado nas últimas eleições, também é melhor não se acrescentar à soma. E está fora de questão juntar o facto de as sondagens mostrarem que há uma parte significativa de eleitores que concorda com as exigências dos tais deputados.

Na realidade, o Marcelino nem precisava de facto nenhum para chegar à conclusão a que chegou. Podia simplesmente ter dito que os deputados socialistas, escolhidos por Sócrates, andam a esbanjar o dinheiro dos nossos impostos, porque sim. Para alguns dos seus leitores era o que bastava.

One thought on “Conta de sumir”

  1. Factualmente, a notícia é esta: houve um angolano que comprou a controlinveste.
    Em termos de análise parece legítimo ligar esta realidade a uma outra, conhecida há alguns dias: vai haver um despedimento colectivo no Diário de Noticias.
    E os dois factos, somados, permitem uma opinião: O tio de José Sócrates (outro facto) garante que o sobrinho almoçou com o Eduardo dos Santos para combinar o afastamento do Marcelino.

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