Por mais amor aos números e doutorandos que por ali andem…

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…o rigor passa sempre para segundo plano quando a cegueira ideológica ataca. Inacreditável: o Insurgente, pela pena de André Azevedo Alves, dedica-se a tentar desfazer o estudo da Lancet que concluiu pela ocorrência de mais de 600.000 mortes no Iraque atribuíveis às sequelas da invasão de 2003. Começando, logo no título do post, pelas aspas marotas com que adorna a palavra “científicos”. Depois, vem a prosa crítica de um suposto leitor que se anuncia médico. E que nos diz este? Necedades de toda a forma e feitio (mas nada que assuste o bom AAA). Começando por algumas questões que imagina difíceis: “Foram feitos inquéritos a famílias escolhidas aleatoriamente, mas onde? também nas zonas menos tocadas pela guerra? ou só nas mais violentadas?” Bastava ao incrédulo sr. dr. ter-se registado no site da conhecida revista médica para ver a sua angústia resolvida (1). Eis uma primeira abordagem que nos dá logo a certeza de que o comentador nem sequer pousou os olhos no estudo que quer demolir. Revelador.
Há também a velha ladainha de “os americanos têm sempre a culpa de tudo”, insinuando que os pobres ocupantes nada têm a ver com as lutas intestinas do Iraque. Uma linda ideia que contradiz, para começar, todos os tratados que regulam ocupações. (2)
Mas há mais: “Uma das mais óbvias desonestidades do ‘estudo’ tem aliás a ver com a amostra: comparar 14 meses antes da invasão (em ‘paz’) com 14 meses a seguir (e portanto na fase em que houve guerra mais intensa e generalizada no terreno), e extrapolar os ditos casos desses 14 meses para os 28 meses seguintes, inflaciona, e de que maneira, os números.” Só que nada disto é verdade: não houve no estudo qualquer “extrapolação” e quatro períodos são analisados: pré-invasão, Março de 03 a Abril de 04, Maio de 04 a Maio de 05 e Junho de 05 a Junho de 06. Aliás, na tabela abaixo (3) fica clara esta análise.


De seguida, o diligente “médico” (Também quero brincar com aspas!) trata de nos propor um método alternativo de contagem de vítimas: a leitura da Imprensa. A sério: “todos sabemos que sempre que alguém morre vítima da violência bélica no Iraque isso nos é diligentemente comunicado pela generalidade da imprensa. Seria muito fácil essa mesma imprensa (ou algum curioso) dedicar-se a pegar nos jornais desde a altura da invasão e somar as mortes”. Para vermos o absurdo da coisa nem sequer temos de pensar em algo que um médico por certo saberia: uma grande percentagem dos feridos neste tipo de incidentes acaba por falecer nos hospitais, já longe das manchetes. Mas supor que cada morto no Iraque sai no “Correio da Manhã” é simplesmente coisa de alienado.
Por fim, o homem trata de fazer aquilo de que acusava o estudo e avança para uma média. Esta dá-lhe um total doloroso: 496 mortos por dia. Vai daí, proclama a clara impossibilidade da coisa.
Moral da história: parece-nos obscena a quantidade de cadáveres? O mal não pode ser da invasão; tem de ser aldrabice do estudo. E pensava eu que o Insurgente era sítio respeitável e mais ou menos sério.

(1) As a first stage of sampling, 50 clusters were selected systematically by Governorate with a population proportional to size approach, on the basis of the 2004 UNDP/Iraqi Ministry of Planning population estimates (table 1). At the second stage of sampling, the Governorate’s constituent administrative units were listed by population or estimated population, and location(s) were selected randomly proportionate to population size. The third stage consisted of random selection of a main street within the administrative unit from a list of all main streets. A residential street was then randomly selected from a list of residential streets crossing the main street. On the residential street, houses were numbered and a start household was randomly selected. From this start household, the team proceeded to the adjacent residence until 40 households were surveyed. For this study, a household was defined as a unit that ate together, and had a separate entrance from the street or a separate apartment entrance.”

(2) Já em 1907 a convenção da Haia rezava: “The authority of the legitimate power having in fact passed into the hands of the occupant, the latter shall take all the measures in his power to restore, and ensure, as far as possible, public order and safety, while respecting, unless absolutely prevented, the laws in force in the country.”

(3) tabela.gif
Table 4. Violent deaths by cause and time
Data are risk ratio (95% CI) or number (% of total deaths in specific period).

3 thoughts on “Por mais amor aos números e doutorandos que por ali andem…”

  1. Gibel,

    Reparaste que nem sequer defendi o estudo, apenas ataquei uma crítica completamente imbecil.
    Terei de esperar por dias menos ocupados para olhar melhor para a estatística da coisa. Mas ainda não encontrei refutação capaz.
    Cito algumas passagens de um dos links que mencionas: “Many people assume that the reports they read in the newspaper, usually from AP, or the daily Reuters “fact box” report that many bloggers (…) often repost, are more or less complete descriptions of the day’s violence. In fact, they don’t even come close.” E a única conclusão que poderemos tirar: “Are these results reliable? They are in fact the most reliable information we have about this subject.”

    Por outro lado,aqui também se lê como muitos corpos nunca se juntam à procissão fúnebre das estatísticas…

  2. The United States will preserve its rights, capabilities, and freedom of action in space… and deny, if necessary, adversaries the use of space capabilities hostile to US national interests

    US National Space Policy in full (44K)

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