Dadas, Albert

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O primeiro “Viajante Louco” — diagnosticado em 1886 — era um humilde trabalhador parisiense que começava a sentir uma vontade irresistível de viajar sempre que ouvia falar numa qualquer paragem longínqua; pouco depois, acabava invariavelmente por se pôr a caminho até alcançar destinos improváveis, por vezes a centenas ou milhares de quilómetros de distância. Uma vez terminada a peregrinação insensata, desprovido de qualquer memória ou pista sobre a sua identidade, ele tratava de angariar o dinheiro suficiente para regressar de comboio. Só que perdia sempre o rumo a meio do trajecto, embarcando noutra viagem incompreensível, depois de rasgar mais uma vez os seus documentos. Constantinopla, Argel e Moscovo foram cidades nos itinerários destas demandas não de descoberta mas sim de esquecimento. Depois, à medida que relatos de tais viagens sem rumo transbordavam das revistas médicas para os jornais europeus, os transes peripatéticos de Dadas começaram a infectar a imaginação popular. E pouco tardou até que eclodisse uma verdadeira epidemia de Fugas Dissociativas, denominação actual deste distúrbio. Os contaminados partiam sobretudo de França, mas logo os caminhos da Alemanha, Rússia e Itália se viram juncados de tristes viajantes de olhos vagos e passos obsessivos. Abraham Cutter sustentava que estes nómadas alucinados obedeciam aos ditames de uma Egosfera desequilibrada, como bússolas humanas condenadas a perseguir um Norte sempre imprevisível e errático.

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