«You’re a lady»

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Possivelmente, a humanidade divide-se – também – nestes dois grupos: o daqueles que um dia ouviram «You’re a lady», cantado por Peter Skellern, e o dos que nunca o ouviram. A existência jamais será a mesma para quem escutou essa canção soberba, saída em 1972. Não vou sequer tentar explicá-lo. Se você pertence ao grupo dos que a ignoram, não será por isso inferior, ou infeliz. Mas mais não consigo dizer.

Infeliz fui eu, que me apaixonei pela peça, sem cuidar de reparar nem no título nem no intérprete. Quando finalmente quis sabê-lo, já era tarde. Imagina você o que é andar por lojas de discos e cantarolar qualquer coisa à incompetente populaça que flanca (quando flanca) o lado errado do balcão? Pois é. Andei anos nisso. Até que me sentei ao piano, com um gravador à mão. Ajudou. Não logo, mas ajudou. Um jovem empregado, aí pelos vinte e cinco anos, disse logo, ao quarto ou quinto compasso: «Isso é do Peter Skellern. Chama-se ‘You’re a lady’. Mas não temos».

Claro, tinham-se passado quase trinta anos, já nem era do tempo dele. Mas aí está, ainda se dá com alguém competente. Que fiz eu? Pois voltei para casa e googlei título e cantor (nessa altura, não havia Google propriamente dito, mas o Altavista fazia bom serviço), e a breve trecho tinha a discografia completa da faixa. Só que… no país onde procurava, nada encontrei.

Até ontem. Procurei no programa de download de mp3 (legal, pago, e nem é caro), e em minutos, nem isso, tinha uma vintena de ‘sources’. Uma bastava-me. Uma bastou-me.

Esta tarde, pus os auscultadores, saí a dar uma volta pelas cercanias, e fui feliz como uma criança.

7 thoughts on “«You’re a lady»”

  1. Anonymous,

    As baladas de O’Sullivan, de que citas uma, banham (imagino-te a querer dizer) na mesma magia. Seria daquele tempo?

  2. Fernando,

    Vê lá tu que já me tinha esquecido completamente desse rouxinol sem expressão facial, que na altura me fazia lembrar o filho dum diplomata apostado em dar ao pai um grande desgosto com as suas manias de embalar meninas anémicas. Imagino-te a saborear os seus trinados, mas imagino-te, também, todo enrolado nos grandes problemas da deserção patriótica anti-marcelista. Calhou, julgo eu, esse gajo cair-te no goto nesses tempos difíceis. Daí as melancolias e saudades?

    Por meu lado, bruto como sempre, os meus gostos em música pop nessa era de coronéis centravam-se mais em brasileiradas em inglês da Astrude para carregar a bateria sob as cuecas e nos seus compatriotas de protesto. Foi a minha fase de apreciação do capitalismo de Almo Dover. Hoje, depois duma regressão na direcção do progresso das ideias, considero o Grande Pop como parte integrante da Grande Manipulação das Cabeças Ocas e ai temos a provar-nos mais um Bono, na esteira dos outros inúmeros multimilionários, a administrar um negócio dum bilhão de libras do mais esterlino possivel, em mercados musicais ou não, ao mesmo tempo que encanta os amigos dos povos pobres com palmadas nas costas dos presidentes do altar G 8 para a solução Global.

    Na verdade, pop e rock em grande escala não têm, a meu ver, nada a ver com Música. Música é a música dos musiquins como eu, a que arranco ao meu keyboard em notas sem futuro que me distraiem sem corromperem nem enganarem ninguem. Mas não vou discutir este ponto contigo porque sei que sabes muito melhor do que eu as voltas que o Diabo dá nestas coisas das cantilenas e melodias.

    Finalmente, vou dar-te o prazer de não te sentires sòzinho, falho de memória por coisas que te encheram de paixão musical nos anos 70, nesse tipo de procura. Também eu tentei, mas já desisti, de saber o nome duma canção-melodia chorada por um trio qualquer sul-americano, ai por volta de 1959. Tenho uma pena enorme que não conste dos oito gigabites de música antiga que consegui descarregar nos bons gempos do Napster. Mas tenho uma consolação: quem a compôs não é certamente milionário e quando quero voltar atrás basta-me assobiá-la. O deleite auditivo é quase igual, com a desvantagem de que por vezes se me embarga o assobio.

  3. TT,

    Rápido (espero voltar). É um prazer único ver-te divagar assim.

    Pergunta que leva baldes de água no bico: porque não sobes, de novo, ao andar superior?

  4. Caro Mário Azevedo,

    A gravação deste número no You Tube é deprimente. Ouça uma versão com qualidade (mesmo MP3 serve perfeitamente), e depois diga.

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