«Tu»

A presidente da maior confederação de sindicatos holandeses trata por tu o ministro do Trabalho. O presidente do conselho de universidades holandesas (que vai sempre de bicicleta para o trabalho) trata por tu o ministro da Educação. Vários presidentes de grandes bancos holandeses tratam por tu o ministro das Finanças.

E julga alguém que este Reino, de onde vos escrevo, amanhã se desmorona?

5 thoughts on “«Tu»”

  1. Se o industrial, topando o operário, suspende a passada, flectindo a cabeça, com dois dedos na aba do chapéu, com graça saúda “como vai você?” E se o outro responde, cortês e afável, tirando o barrete, que leva ao peito, onde cruza as mãos, “muito bem, senhor, e vossa senhoria?” Que é isto, meu caro F. V.? Sem hesitar lhe digo: a civilidade.
    Se o operário, vendo o patrão na Havanesa, se aproxima dele, lhe põe no ombro a manápula calosa, e então lhe pergunta “como estás, meu velho?” E se o patrão lhe aperta o costado, num abraço, embora curto, quente, e lhe responde “muito bem, e tu?” Sabe isto o que é, meu bom amigo? Eu lho asseguro: a civilização.
    Amigo certo et nunc et semper
    F. M.

  2. Sempre nos faltou massa crítica, meu caro, densidade específica.
    A nossa dimensão humana é restrita.
    A cultural é a da capela.
    A mental nem a isso chega.
    Donde resulta que o poder, e a consciência e segurança dele, padeçam de relatividade insanável.
    Quem o tem, mesmo se em parcela diminuta, cultiva-o, inflaciona-o, amplia-o, segura-o, mantém-no.
    Dar confiança ao outro, um tu qualquer, Deus nos livre, que lá se nos vai o estatuto!
    Em toda a Europa há sindicatos de polícias, de militares, de tudo.
    Cá é o que se sabe. Por medo. Por fragilidade. Por falso pudor de se nos verem as cuecas.

  3. Bem, depois de ler o post ia fazer uma qualquer piada brejeira onde misturava sindicatos e patronato, plebeus e senhorios. No entanto o comentário do Daniel “comoveu-me”. Não no sentido de me pôr aqui a choramingar, mas no sentido de me pôr a pensar. Era mesmo bom que o Mundo fosse assim: civilizado, em vez de preso por pseudo-estatutos e narizes empinados. O respeito é muito bonito, sim senhor, mas estarei a desrespeitar o meu pai (por exemplo) ao tratá-lo por tu? Não, claro que não. Vejo o “tu” como confiança e proximidade. Já o “você” é frivolidade e desconfiança. Pronto… foi o que arranjaste, Daniel. Não sei se a piada não teria sido a melhor escolha, mas aqui fica a minha opinião.
    Abraços

  4. L. Romudas
    Obrigado por esse verbo conjugado na 2ª pessoa do singular. Até Deus Eu trato por Tu.
    Toma lá um abraço. Com força.
    Daniel

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