«SOS! Será que estou a ficar racista?» de Manuel Geraldo

Metro de Lisboa. Um negro corpulento insulta («Querias era o banco todo para ti! Racista!») um jornalista que lhe chamara a atenção para o espaço indevido que estava a ocupar.

Manuel Geraldo, o jornalista, faz em «SOS! Será que estou a ficar racista?» (Editora CEPAS) uma compilação de reflexões e recortes de imprensa sobre uma realidade dolorosa: o decepcionado percurso do homem africano depois das independências. Um livro desiludido de um jornalista que dedicou a vida a lutar contra opressões rácicas, éticas e culturais.

Aí lemos, por exemplo, o que Mia Couto escrevia no jornal «A Capital» em 2004: «É um facto que os europeus criaram um sistema colonial e de escravatura que levou África para uma situação desastrosa, mas isso foi sempre feito a duas mãos dado que houve sempre africanos que colaboraram e participaram na construção dessa situação como um sistema. Não devendo haver por isso a visão de nós somos os puros e eles os que estragaram.»

Também em «A Capital», o cantor e compositor Fausto afirma numa entrevista conduzida por Viriato Teles: «No tempo colonial a mandioca dividia-se, agora já nem a mandioca se pode partilhar. É um povo que está completamente abandonado e o melhor é não opinar sobre os governantes. A guerra civil teve mais tempo do que a guerra colonial e, portanto, quando um povo se vê assim, a gente tem de apontar o dedo a quem está no Governo. A independência de um país concorre sempre para a felicidade, quem se vê livre do jugo de alguém tem de ser mais feliz a seguir. Com a infelicidade do povo angolano chegamos à conclusão de que não houve independência.»

23 thoughts on “«SOS! Será que estou a ficar racista?» de Manuel Geraldo”

  1. Gosto muito dessa ideia, um neo-paternalismo onde se diga aos africanos, ou a alguns africanos, o quanto eles estão a errar por sua única responsabilidade.

  2. Aqui o mau gosto è francamente repugnante para além do péssimo gosto do jogo de palavras (Tony Blair – tonibler). Abaixo de cão.

  3. Valupi,

    presumo que esse tal de neo-paternalismo não seja tanto de “dizer”, mas sim de “ensinar” que pai que é pai mesmo quando diz ensina….
    O que me parece, apesar dos paternalismos noviços ou já rançosos, é que os africanos estão a fazer asneiras. Porque bitola as devo medir é que não sei, mas basta-me ver gente a morrer de fome para perceber que algo está podre no reino africano. Sim, já sei que tentámos exportar a democracia junto com a coca-cola e a tuberculose, mas eu já nem quero discutir sistemas políticos ou práticas comerciais. Bastava-me o respeito pelos direitos humanos no geral e alguma justiça em particular.
    E afinal, a responsabilidade é de quem? Quer tirar-lhes o livre arbitrio? Acha que não têm possibilidades de escolha? Foram colonizados, explorados e continuam a ser? Sim, tudo certo, concordo, mas também sei que qualquer ser humano na posse das suas faculdades, tem o poder de escolher, ou será que tanto filósofo qur por aí andou, Cristo e Anti-Cristo incluidos, só falaram para o Ocidente? A minha avó dizia que casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão, mas pão até vai havendo só que quem o parte e reparte fica com a melhor parte e lá voltamos ao príncipio da falta de pão e da falta de razão….

  4. Além de tudo o mais nem o Mia Couto nem o Fausto são pessoas cujas opiniões possam ser desqualificadas por um qualquer «pobre diabo» que aqui chega ao volante de um computador. O problema é que a Net, tal como os caixotes de lixo, aceita aquilo que lá quiserem colocar…

  5. ernesta, refiro-me à figura do pai como autoridade. E lembro: tem autoridade aquele que é autor; isto é, que é autónomo. Sim, isto não passa de uma brincadeira com a etimologia, mas suficiente para a mensagem: o Ocidente é autor da democracia, em África muitos ainda se regem pelo tribalismo. Ora, o tribalismo é incompatível com a democracia, para além de ser um específico, e inevitável, factor de violência. Como é que os africanos tribais vão resolver a situação? Se calhar, deviam primeiro provar que compreendem o que seja a democracia, e comprometerem-se com esse modelo político, e civilizacional, antes de receberem ajuda que poderia estar a ser muito mais útil noutros locais, com outras pessoas.

  6. Valupi,

    e porque terão de abandonar o tribalismo? Sim, a democracia blá blá blá para além de todos os outros, mas isso de vendermos democracia parece-me demasiado mítico – deixávamos os cruzeiros agora deixamos os poderes tripartidos e a representação popular? E porque terá isto de funcionar em sociedades que não são melhores nem piores que as nossas, mas diferentes? Há muitos anos atrás apareceu uma corrente antropológica que defendia ser um erro científico estudar tribos ancestrais, em estado de virgindade civilizacional, perdidas no meio do nada, com a finalidade de perceber as raizes da cultura do ocidente e a evolução seguida. Essas tribos, e exactamentre por viverem como viviam no mesmo tempo que civilizações tão diferentes, tinham que ter histórias internas e estimulos externos específicos, que alterariam toda a validade de quaisquer resultados. O mesmo se passa com África, ou com a Ásia, ou o Médio Oriente, ou o Ocidente. Crescemos todos de uma forma diferente e é demasiada arrogância nossa ter a pretensão que criámos o sistema político menos imperfeito de todos, que melhor funciona e que é a solução para todos os problemas, em qualquer tempo, espaço ou cultura.
    Em África, como em qualquer outra parte do mundo, tem de haver respeito pelos direitos humanos e justiça. A forma como se organizam politicamente para lá chegar é mesmo o menos importante.
    Sim, liberdade de autodeterminação, liberdade religiosa, liberdade de escolher os nossos representantes, independência dos poderes, igualdade perante a lei, tudo isso são conceitos associados à democracia e há muito que se acredita que são essenciais em qualquer sociedade livre e justa. Mas será mesmo assim? Não estaremos a tentar vender o nosso Deus aos Aztecas só porque acreditamos que é melhor e não podemos questionar a nossa mundividência sob pena de ficarmos completamente perdidos?
    Não, não tenho respostas, mas antes de tomar como válido o que quer que seja faço muitas perguntas.

  7. ernesta, não me parece nada que a forma como se organizam politicamente não seja crucial para que cheguem (ou não) ao respeito pelos direitos humanos.

  8. Que bela merda de texto, caramba. Não me ria assim há bastante tempo. Obrigado pela partilha, Fernando.

  9. Susana,

    O que me parece é que não podemos continuar a ter a ilusão que iremos conseguir a quadratura do circulo. Sim, a democracia tem funcionado, mas sabemos que não é o sistema perfeito. Percebe-se que em África ou se muda toda uma cultura, o que me parece difícil, ou terão de ser os Africanos a arranjar um sistema alternativo que seja socialmente justo e que funcione.
    Sim, claro que a organização política é absolutamente crucial para que se chegue ao respeito pelos direitos humanos, mas parece-me que chegámos a determinadas premissas que já nem questionamos porque tomamos como boas e éticamente irrepreensíveis e quando o baile pára culpamos sempre os dançarinos, porque a música só podia ser boa. Mas se, desta vez, tivermos mesmo de mudar é o chão?

  10. 1. Um texto insonso.

    2. O tribalismo serviu (bem) durante milhares de anos e tem regras perfeitamente democráticas. O que está provado não servir é a “democracia eleitoral à moda de cá” transplantada para um tecido social que lhe é avesso.

    3. Ao tonibler: o senhor é de Coimbra? ROTFL :)

  11. Mea culpa pela ambiguidade, Fernando. Estava a falar da citação do Fausto (a comparação qualitativa entre duas guerras pelo critério da sua duração, a independência como concurso para a felicidade, a conclusão final, etc.). Não estava, como não era de facto óbvio, a falar do post.

    Mas posso falar dele também. E desse teu registo tão peculiar de fazer uma justaposição de matéria diversa sem opinares sobre ela. É irritante, porque só tu conseguirás apurar a eficácia do método.

  12. ernesta, o tribalismo é um modelo antropológico comum, não apanágio dos africanos, como se sabe da escolinha. Também os habitantes da Europa e da Ásia, algures no tempo, se organizaram em tribos. Depois da entrada no neolítico, da revolução agrária, levando à alfabetização e aos crescentes aglomerados humanos, chegando às urbes, o tribalismo já tinha perdido eficácia, já não era resposta com futuro. É disso que se fala: vida urbana, a noção de Estado, o respeito pelos Direitos Humanos (que nunca nenhuma tribo poderia desenvolver, dado o etnocentrismo tribal oposto ao humanismo universalista), e um sem-número de características que associamos ao primado do direito, não se fundamentam em sociologias e racionalidades tribais.

    Os teus dilemas são falsos. Quando vemos um adulto a cortar o clítoris a uma criança é nosso dever impedir o acto, quer ele tenha origem tribal, religiosa ou ambas. E repara: não está em causa saber quem tem a razão absoluta. Se calhar, é o louco que quer violentar dessa forma aquela criança. O que eu te digo é que, mesmo assim, mesmo sem ter essa divina presciência, é nosso dever intervir. Caso contrário, perderemos a identidade. É isto. E isto é a nossa civilização, aquela que quer defender todo e qualquer ser humano apenas pelo facto de o ser.

    Quanto às soluções para os problemas africanos, ninguém as tem. Por isso, deviam ser os africanos os primeiros a procurá-las, mas eles não o estão a fazer.

  13. “Eu ainda sou do tempo em que os pretos iam trabalhar, de borla, para as roças de São Tomé” – Dona Sãozinha

  14. Valupi,

    Lá por termos passado do tribalismo para uma suposta cultura urbana, isso implica que este modelo seja o certo? Que são os gangs citadinos se não uma forma de tribalismo, ou uns milhares de anos chegam para nos curar das supostas maleitas tribais quando nem o dente do siso nos conseguiram tirar? E sim, se vida urbana implica a noção de estado – as cidades como organização política – isso não leva necessáriamente a direitos humanos. Meter tudo no mesmo saco é histórico, mas também histérico. E levar o tribalismo directamente ao corte do clítoris, como se fosse ritual “enformativo”, é levar o histerismo até quase até ao sítio dele, o útero própriamente dito, e que fica logo acima e um pouco à direita.
    E o resto respondo amanhã, que a noite vai longa e estou com sono.

  15. África tem muitos problemas, um dos mais importantes e de difícil solução é a divisão territorial. As fronteiras foram marcadas sem ter em conta as populações, misturando e dividindo tribos ou nações -depende do ponto de vista-. Que passaria na Europa se as fronteiras foram traçadas de novo a esquadro? Quantas guerras civis estalariam, quanto tribalismo surgiria?

    O grande pecado dos dirigentes africanos foi, é, respeitar as fronteiras que lhes deixaram os colonizadores. Tornando-se os defensores duns estados artificiais.

  16. João Pedro Costa: o post só é meu no sentido em que corresponde a uma nota de leitura de um livro que eu li. A parte substancial das opiniões pertence a Mia Couto e Fausto Bordalo Dias. Que critiquem os meus poemas tudo bem, que ignorem a antologia publicada no Brasil tudo bem mas confusões – não obrigado. Escrevo em jornais sobre livros e autores desde 1978 e já não tenho pachorra para certas coisas. Acima de tudo confusões.

  17. ernesta, o facto é que as cidades, e de facto, levaram aos direitos humanos. Porquê? Porque foi nelas que nasceram o direito e a filosofia. Os direitos humanos são um dos mais elevados bens desse casamento.

    Entretanto, a tua referência ao corte do clítoris está uma bela confusão, efeito que vou atribuir ao soninho.

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