«Sortilégios da Terra», de Zetho Cunha Gonçalves

O projecto deste livro é um regresso: «Mudar de sol – regressar / à pele interior do ar.» Nascido em Nova Lisboa (1960), é em Lisboa que o poeta recorda os sortilégios da terra: «Tabaibeiro não morre de velhice / nem de sede, doente – fruto esquecido de apanhar logo se transforma em folha – escultura mudável, permanente. / Não tarda – sortilégios da terra: dá fruto.»

A poesia deste livro surge da memória de um tempo passado. Para o fazer viver de novo o poeta canta no presente: «Loengueiro não se planta – nasce: / sortilégio da terra, / no meio do mato, / pelas terras todas / do Huambo – até ao mar.» O poema não só nomeia o espaço e o tempo; inscreve-se como espaço e tempo: «Churiungo / é das palavras mais antigas – a voz, / fruto bilingue / da infância.» O poema tem a forma da cabaça porque a cabaça tem a forma de poema: «Crescem ao rés da terra / sob a manta longa / de frescura e sombra – para lugares de repouso / fermentação da quissângua e da capata – as cabaças. / Crescem ao rés da terra / imputrescíveis, / esculturados poemas – as cabaças.» O poema surge como uma ponte entre as terras do fim da Europa e as terras do fim do Mundo: «No Cutato as montanhas dançam – de gente / e de caminhos do mato / ao meio-dia em ponto. / No Cutato / entre Vila da Ponte / e o Chilandangombe / a caminho de Menongue / ou do Chitembo / abrem-se as portas das terras do fim do Mundo».

Este é um livro de quem conhece bem a terra, seus ritmos («Criança come goiaba – vai no mato: nasce goiabeira. / Quatro luas e uma chuva depois.») e seus desígnios: «a Terra que tudo dá, tudo, tudo devora!»

Editora: Bonecos Rebeldes

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