«O tubarão de Luís Filipe Menezes»

Eu já tinha lido. E tinha pensado que o fulano havia visto bem, muito bem mesmo. Era um artigo do historiador Rui Ramos no Público de hoje. Uma visita ao Da Literatura deu o empurrãozinho para chamar mais atenções para um artigo excepcional. Como os quiosques fecharam já – e essa chuva não pára – há motivos, mais esses, para pôr o texto aqui. Divirta-se. «Não quero ridicularizar Menezes», afirma Rui Ramos. Você acredita?

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«Não sei se fazemos um grande favor aos políticos quando lemos os seus livros. Experiências recentes fazem-me pensar que não. E Coragem de Mudar, que Luís Filipe Menezes fez sair durante a sua marcha para a liderança do PSD, confirmou a impressão. Li-o só agora. E, sem recomendar a leitura, sempre direi que talvez tivesse poupado alguns erros de previsão acerca da liderança do autor.

O livro de Menezes inclui uma entrevista especialmente reveladora acerca da sua pessoa. Não me refiro à pessoa privada, que não nos deve interessar, mas à sua pessoa pública, ou mais exactamente: à imagem que ele gostaria de dar de si próprio. Eis o que descobrimos: “Sou capaz de fazer dois mil quilómetros num fim-de-semana para ver uma exposição.” Ou isto: “Cosmopolitismo, para mim, é navegar ao luar nas Marquesas, é entrar no Triângulo Dourado e acampar no Norte do Camboja” (p. 21). Não temos aqui alguém a expor-se aos seus semelhantes, segundo o método radical de Rousseau, mas uma pessoa desesperada para ser aceite. Ou, nas suas palavras, “amado” (p. 45). É uma carta de amor, e, como tal, ridícula. O destinatário somos todos nós. E parece que Menezes imaginou, como qualquer rapaz de 15 anos, que nós, como qualquer rapariga de 15 anos, nos deixaríamos comover por devaneios de Indiana Jones, fúrias cinéfilas e vestígios de leitura.

E depois, há o medo do tubarão. Sim, leram bem: o tubarão. Porque inesperadamente, castigando os seus adversários, Menezes diz isto: “Há dois anos, algures no deserto de Omã, deitado ao luar a olhar para as estrelas, tive tanta pena destas pseudo-elites liderantes do meu Partido, cujo único deserto a que chegaram nunca está a mais de dez quilómetros da sua casa, que nunca tiveram frio à noite no deserto, que nunca tiveram medo de um tubarão…” (p. 44).

Não sei se, off the record, os entrevistadores recolheram mais pormenores. Na conversa registada está só o que transcrevi, com as reticências do original. Não sabemos em que circunstâncias o tubarão assustou Menezes. Desconhecemos se estavam ambos no mar, ou ambos em terra, ou um no mar e outro em terra, e qual deles. Menezes parece convicto que só ele, entre as “pseudo-elites”, teve alguma vez medo de um tubarão. Os políticos portugueses vivem por vezes com noções bizarras da sua própria singularidade. Louçã julgava que só ele conhecia o “sorriso de uma criança”.

Não quero ridicularizar Luís Filipe Menezes. Mas não me importaria de ridicularizar esta imagem de Indiana Jones à moda de Gaia que Menezes pensa que lhe convém dar de si próprio. Ou de ridicularizar os conselheiros que o deviam demover destes lapsos. E tudo isto merece comentário, porque há na história do tubarão mais do que ingenuidade ou distracção: há uma estratégia política.

Menezes parece convencido de que a política portuguesa pode ser reduzida a simples contrastes pessoais de imagem e estilo. É esta a sua ideia. Uma ideia imposta pelas circunstâncias que fazem com que o PSD, em termos de propostas, apenas possa acusar o PS de plágio. E uma ideia que Menezes partilha provavelmente com José Sócrates. É na imagem que mais se distinguem. Ambos se esforçam por passar por gente lida e desportiva, satisfazendo os requisitos da classe média urbana. Mas depois, Sócrates cultiva a determinação, por contraste com a reputação de inconsistência dos líderes do PSD; e Menezes, a bonomia e a grandeza de alma, por oposição à suposta impaciência de Sócrates. Eis a política reduzida a um jogo de espelhos. Peter Schlemil perdeu a sombra. No caso dos nossos políticos, ficaram as sombras e desapareceram as pessoas.

E as sombras escondem muita coisa. Por exemplo, Menezes quer um PSD de “centro-esquerda”, como em 1975. Exibe até uma “visão tradicional de esquerda” (p. 27). Acontece que um estudo de Ana Belchior, resumido no PÚBLICO de 2 de Dezembro, sugere que o eleitorado do PSD se posiciona à “direita” – mesmo mais à direita do que o do CDS. Que sintonia haverá entre esta liderança de “esquerda” e os eleitores mais à direita de Portugal? Chegará bradar contra a Constituição? Talvez por isso, temos visto Menezes a fazer o possível por não se definir: a ameaçar e a retirar as ameaças, a dizer e a desdizer-se, a ser uma coisa de manhã e outra à tarde. Assim vai criando uma imagem de movimento sem precisar de sair do mesmo sítio.

Talvez lhe baste ser o suplente de Sócrates. Ousaria ser mais, sem o trauma do tubarão? O do Spielberg era de borracha. E o seu, dr. Menezes? Se era amarelo e foi a sua mãe que o pôs na banheira, não devia ter tido tanto medo.

8 thoughts on “«O tubarão de Luís Filipe Menezes»”

  1. fmv,

    Escapou-te o essencial, caro amigo. A parte do tubarão era uma piada directa a Marques Mendes, coisa de quem está no deserto de Omã mas não é grão de areia, lua e não estrelinha, almoço inteiro do bicho e não mero farrapinho entalado entre dentes de tubarão. Topas? Com os políticos em geral (e os líderes do PSD em particular) há que ver sempre para além das palavras e aquém das acções.
    Eu tinha razão: devias ter lido o riacho das flores. Mas talvez tenha sido melhor assim.

  2. Ah, RVN,

    Continua a a escapar-me o essencial. Agora agravado com a ignorância de onde seja… o riacho das flores.

    Imagino-o título de alguma plaquete, dum indescoberto bardo. Topei?

  3. O que eu noto, é que existe em todos estes políticos um lado de calimero (desde Santana a Sócrates, passando pelo cujo), que adora a bajulação. Felizmente o poder pode dar-lhes isso, pois existem cada vez mais “profissionais” nessa área, nas assessorias…

    O problema é quando saem do poder. Provavelmente precisam de terapia…

  4. o tubarão do Meneses não é o Angelo Correia? Um que vai voltar um dia é o Morais Sarmento, acho. Até lá vamos rindo com as actuações de prima dona deste aqui. Mas como vai andar ‘de esquerda’, é bom para lembrar ao PM e ao PS umas coisas…

  5. Cá para mim o Menezes deve ter visto o Gang dos Tubarões e sentiu-se qual Oscar zé ninguém a sonhar com o cimo do recife… mas agora sim, já tem o seu o Lenny Santana e a vida virou uma festa..

  6. Fernando, o Rousseau era louco, tinha a mania da perseguição, e o LFM é também louco mas tem a mania de perseguir. E quem lê LFM ou não está bom da cabaça ou confundiu o Advento com a Quaresma e quis fazer penitência. (Tomaste um Alka Seltzer?)

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