«O Galego, variante do Português»?

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Um despacho da Agência LUSA foi difundido por vários média portugueses no dia 7 passado. Era a propósito dum Congresso da Lusofonia, realizado em Bragança. Informava-se-nos de que «na sessão de encerramento o linguista Malaca Casteleiro (na foto) defendeu que “também o galego é uma variante do português e como tal deve se trazido para o espaço da lusofonia”».

Fiquei contente. E pasmei. Contente por ver o mais conhecido linguista português, Malaca Casteleiro, quebrar um tabu: aquele que manda silenciar as relações – íntimas, como se vê – entre português e galego. Mas pasmado pela forma em que o fez, subordinando o galego ao português.

Com efeito, afirmar que «o galego é uma variante do português» equivale a considerar o português a norma e o galego o desvio, a «variante». Com isso se avança, dá-se mesmo – em matéria de opinião portuguesa – um passo de gigante na percepção das realidades, mas esse passo dá-se para um lado deveras estranho. Ele necessitará de ser explicado, esclarecendo como é que a região de origem do nosso idioma acaba com a «variante» nos braços. É como se o Vinho Verde delimitado fosse «uma variante» do (aliás, excelente) do Bombarral. Não será por 200 milhões o consumirem que o vinho do Oeste se tornará mais ‘autêntico’.

Leiamo-lo assim: a opinião pública portuguesa não está preparada, de momento, para ouvir a verdade toda. Esta: que português e galego são variantes um do outro. Fica-se, agora, à espera da próxima façanha. E nem tão façanha como isso, pois o linguista Luís Lindley Cintra assim o concebia, e assim o escreveu, há cerca de vinte anos.

A meia verdade de Casteleiro é já muita verdade, é certo. Mas nós já somos crescidinhos. Vai custar a entrar, a verdade toda. Mas, depois, vamos ver logo o mundo com outros olhos. Este nosso mundo peninsular, por exemplo.

P.S. Talvez desnecessário

No debate ‘ibérico’, tomei sempre posição contra qualquer aproximação política entre os dois Estados da Península. A proximidade linguística entre Portugal e uma parte do Estado vizinho nada modifica nisso. Eu faria uma festa no dia em que a Galiza se tornasse independente. Seríamos talvez os maiores amigos do Mundo. Mas opor-me-ia, sempre, a qualquer união política dela com Portugal.

Reconheço que seja difícil explicar à nossa gente, medularmente nacionalista, como se podem conceber uma continuidade linguística e uma descontinuidade política. Mas não desisto de os meus compatriotas um dia o compreenderem.

20 thoughts on “«O Galego, variante do Português»?”

  1. A verdade toda inclui um facto insofismável, que é o do distanciamento irreversível do galego em relação ao português por influência do castelhano. Actualmente, «en la práctica, gran parte de los gallegohablantes hablan un dialecto mixto, denominado tradicionalmente castrapo, que mezcla sonidos, palabras y prosodia del castellano y del portugués.»

  2. Desculpe que ouse explicar. Diz o senhor:
    «… pasmado pela forma em que o fez, subordinando o galego ao português.
    »Com efeito, afirmar que “o galego é uma variante do português” equivale a considerar o português a norma e o galego o desvio, a “variante”.»
    ACHO que o Prof. Malaca Casteleiro, como também o Prof. Evanildo Bechara, este explicitamente, se colocam na perspetivação teórico-prática do saudoso Prof. Eugénio Cosériu. Para este a língua, LÍNGUA HISTÓRICA, compreende diferentes variantes ou, se prefere, variedades que ele reduz, metodologicamente, às sintópicas, sinstráticas e sinfásicas, embora (a meu ver) apenas as duas primeiras sejam “homologáveis”, quer dizer, equipolentes, em razão do espaço ou território (as sintópicas) e em razão da classe social (as sinstráticas).
    Seja como for, as falas galegas, definidas desde ambas as perspetivas (ou desde as três) verificam ‘toto iure’ a LÍNGUA HISTÓRICA que hoje denominamos e conhecemos mundialmente como PORTUGUÊS.
    Portanto, o Prof. Malaca (nem o Prof. Bechara nem quem com eles assim opine) não está a subordinar um “dialeto” a uma língua, mas a reconhecer que as falas galegas se acham integradas na LÍNGUA HISTÓRICA PORTUGUESA com igual direito que as falas do português europeu ou as falas do português americano (brasileiras) ou as falas (de expressão portuguesa, que dizem) dos PALOP.
    E mais nada.
    Desculpe a explicação.

  3. AGIL,

    Eu citei uma agência noticiosa. Essa agência reportou uma afirmação de Malaca Casteleiro em Bragança. Essa afirmação é que «o galego é uma variante do português».

    Congratulei-me com a posição aí expressa, que tem de ser lida, antes de mais, em contexto português. E, no contexto português, ela significa a quebra dum tabu. Mais exactamente: rompeu-se a posição praticamente homogénea dos linguistas portugueses desde a morte de Cintra, segundo a qual galego e português são duas línguas, ponto. Há, agora, pois, uma voz dissonante.

    Você tem um leitura diferente da afirmação de Casteleiro. Deixe-me dizer-lhe que é ALTAMENTE IMPROVÁVEL que ela seja a adequada. Até hoje, nada, em tudo quanto Casteleiro disse ou fez, fazia prever a afirmação citada, e muito menos ainda a elaborada interpretação que você dela dá. Nos seus (dele) dicionários, o da Academia e o Houaiss (e que melhor que a descontinuidade dum dicionário para mostrar a «unidade» duma língua?), não há sombra de Galiza ou de galego.

    Admito que Casteleiro tenha encontrado, há uma semana, e em Bragança, a sua Estrada de Damasco. Mas daí até ele admitir uma fórmula em que português e galego entrem em pé de igualdade faltam cair, para ele, as Muralhas de Jericó.

    (E, ainda assim, está bem mais perto da terra prometida do que esse outro nosso bonzo linguístico, o académico brasileiro Leodegário de Azevedo Filho, que chamou ao galego – num texto que você recordará – «um dialecto rural do português»).

    Claro que você resolve as coisas reduzindo tudo a «falas». É a conhecida linguagem do Reintegracionismo ortodoxo galego (de que você, Antonio Gil Hernández, é – informo a malta daqui – o reconhecido ideólogo). Como essa ortodoxia recusa, em bloco, todo o papel do establishment galego na questão, tem de valer-se dessas deprimentes categorias de «falas». Para essa facção ideológica, nada na Galiza há de linguisticamente oficial, pelo que os galegos se exprimem num português (!) mal falado e mal escrito.

    Ora, a coisa é bem mais simples, e apenas repetirei o que eu próprio disse numa entrevista à Grial, a melhor revista cultural galega: «Na Galiza, a minha língua chama-se galego». A frase aparece, escrita assim, com destaque, na capa da revista. O que equivale – digo-o ao leitor português – a redaccionalmente brincar com o fogo.

    Suponho que é, o meu, um ponto de vista mais humano. Mas admito que não seja, para o seu gosto, suficientemente anti-espanhol.

  4. Senhor Venâncio, o senhor AGIL esteve (como eu) presente na palestra do prof. Casteleiro, em Compostela. Faça o favor de não dizer mais parvoíces e repare no que lhe dizem aqueles que ouviram as palavras do Professor da boca dele.

    Por outra parte: há muitas maneiras de entender a frase que você, tirando-a de um jornal, põe em causa. Você só entende uma delas porque é você um polêmico nacionalista português. Procura a polêmica para o seu blogue. Procura a visão (sic) que ache mais adesões. E por cima procura-a para os portugueses, sendo você, como é, holandês.

  5. Parabéns Fernando pelo texto. E parabéns ao Prof. Casteleiro por falar em voz alta. (Não podia ser menos com aquele apelido que soa tão galego! ;) )

  6. Bastonada,

    Você esteve em Compostela, eu não. Valho-me do que leio no PGL.

    «Começou o professor Malaca agradecendo o convite da organização. Assinalou conceitos indicados por Bechara, afirmando que: “temos que ser poliglotas dentro da própria língua”, e sabermos inserir a diversidade na unidade.»

    Compreendo que, na perspectiva do Reintregracionismo galego, isto soa como uma sinfonia. Mas, para um português, nada de galego é implicado nisso.

    Tenha calma. Se realmente Casteleiro tivesse passado a exprimir-se na vossa linguagem, isto teria sido, dentro da linguística portuguesa, um terramoto. Ora, você apercebeu-se de alguma coisa? Mais: conhece alguma posição ou afirmação passada de Casteleiro (e o homem escreveu muito, e deu muitas entrevistas a jornais) que insira o galego na «nossa língua»?

    P.S. 1. Casteleiro disse em Compostela que, na próxima edição do dicionário (não se diz qual, mas admitamos que o da Academia), «os galeguismos poderiam também ser incorporados». Vamos ver. Seria uma revolução. Mas, para já, repare no condicional.

    P.S. 2. O meu passaporte holandês tornou-se agora má recomendação? Pode explicar melhor? Ou você só quis mostrar que sabe coisas duma celebridade?

    Xanzinho,

    Um abraço, para esse país verde (qualquer que seja) onde estás.

  7. Nacionalismo português estandar: incapacidade para separar política e lingüística.

    Medo a Espanha e ao reconhecimento científico e práctico de que a língua que falamos se chama português em Portugal, porque inevitavelmente implicaría (para você) consecuências políticas.

    Hai que lho dizer tódo-los dias: que galego e português formem parte do mesmo sistema lingüístico não quer dizer que a Galiza queira integrar Portugal (além de que alguns não queiramos ser espanhois tampouco).

    NÃO MESTURAR ALHOS COM BUGALHOS (POLÍTICA E LINGÜÍSTICA).
    A própia existência da PS está demais. Se está a falar de lingüística, comentando as declarações dum lingüística, porque acaba declarando, de jeito preventivo, que só lingüística eh, só lingüística, nada de política!!

    NACIONALISMO E PARANOIA

  8. Para ser justos, no comentário anterior, onde di “nacionalismo português” poderia dizer perfeitamene “nacionalismo espanhol” e por suposto tambem “nacionalismo galego”.

  9. JoseTR,

    O meu «P.S.», advertindo para as implicações (na realidade, as não implicações) políticas do meu posicionamento, tem duas razões. Vou explicar-lhas.

    1. Há, em Portugal, grupúsculos de extrema-direita – gente pouca, mas barulhenta – que usam um tipo de linguagem que um incauto (você, por exemplo) poderia aproximar da minha. Tal gente, pretextando a proximidade linguística, sonha com a anexação da Galiza. Não o dizem assim, claro. São mais líricos.

    2. Há, na Galiza, grupúsculos de extrema-esquerda – gente pouca, mas barulhenta – que usam um tipo de linguagem que um incauto (você, por exemplo) poderia aproximar da minha. Tal gente, pretextando a proximidade linguística, sonha com a restauração da Grande Galécia, que vinha para uns até ao Vouga, para outros até ao Mondego, para outros ainda até Santarém. São, também, está a ver, basto líricos.

    Não quero ver-me confundido nem com uns nem com outros. Tenho, de resto, por eles o mais figadal desprezo.

    Espero que agora entenda.

    P.S. que talvez possa interessar-lhe

    Quem isto escreve é um português alentejano, quase quase algarvio, de antepassados mouros, mais exactamente berberes, não tem (alguém o lembrou aqui acima) sequer passaporte português, e vive (e vota) desde há mais de 30 anos no estrangeiro.

    Portanto, quanto a paranóias nacionalistas, estamos falados, sim?

  10. Obrigado polo de incauto, duas vezes.

    Pessoalmente, não tenho despreço (nim figadal nim doutro tipo) por qualquer opção política, secesionista ou anexionista, pero especialmente não o tenho polas pessoas que a defendem salvo que seja antidemocrática. As que enumera não o são, se as pessoas que as defendem pensam acada-las, por ejemplo, mediante referendum. Podo estar dacordo ou não com elas, mais penso que demonstra pouca convicção democrática o simple e subjectivo “desprezo”, mais aínda se é desprezo polas pessoas.

    Respecto à P.S. que talvez possa interessar-me.
    A resposta à sua pergunta é não.
    A súa procedência, longe de livra-lo de qualquer suspeita, acrescénta-as. E o feito de não poder votar no seu país (já somos dois), tampouco. Ambos poderiamos ser os nacionalistas mais paranoicos deste blogue. XD.

    Para rematar, reitero a ideia-força que já escrevira antes: Não mesturemos a política com a lingüística. Galiza é o berço da lusofonia, a língua que se fala em Galiza, aínda é português, e polo tanto não podemos viver de costas, do ponto de vista lingüístico.
    A política não fai mais que emborralhar o debate lingüístico e o próprio futuro da NOSSA língua, na Galiza.
    Saúde.

    PS. Peço desculpas por qualquer gralha (que serão muitas). Fai bem poucas semanas que começei a escrever com a ortografía portuguesa.

  11. JoseTR,

    Vai ter de explicar-me (maneira de dizer) que signifique isso: «a língua que se fala na Galiza ainda é português».

    Desculpe, não entendo. A dizer alguma coisa desse tipo, eu diria que «a língua que se fala em Portugal ainda é galego».

    Mas posso estar a ver mal.

  12. Pois claro que vê mal. Mal pode ver com esses guias que leva nos olhos. Nem que fosse você cavalo, ou ministro…

    As duas afirmações («Galego é ainda Português» e «Português é ainda Galego») são possíveis e mesmo correctas SE EXPLICADAS E CONTEXTUALIZADAS. Mas, sejamos francos, você quer é só polemizar um pouco.

  13. Bastonada,

    Esgotada a argumentação, entrámos («Você quer é…») pela adivinhação de intenções.

    Foi sempre o trajecto dos fracos.

  14. Ai agora já não me queres aqui? Deixa estar que volto mesmo a chamar-te para apresentares os meus livrelhos, sobretudo os do meu carecão favorito, o Kellas.

    António

  15. Fernando: O português é originário da Galiza, mas essa Galiza nom se cingia ao espaço ao norte do Minho, que na actualidade usufrui o nome da Galiza. O português ou galego, nasceu na faixa mais ocidental Compostela – Guimarães, e aí que temos o modelo linguístico e originário do português. O galego é o português próprio, e acho que a expressão do professor Malaca, se se pensar o galego originário como o que era, verdadeiro português nom faz problemas

    alexandre

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