«Mana Galiza» no Expresso

O suplemento «Actual» do Expresso de hoje, 1 de Dezembro, inclui um dossier de oito páginas sobre a Galiza, preparado por este vosso humilde servidor. Tudo para vosso proveito e edificação. Alguns excertos:

«Na península que habitamos, na Europa, mesmo no mundo inteiro, nada nos é mais próximo do que a Galiza, nada deveria ser-nos, também, mais caro. Temos ali uma irmã: na cultura, no idioma, no modo de ser. Por ali se prolongam tranquilamente as nossas paisagens. Foi dali que, num dia longínquo, nascemos como país, depois de séculos em que o nosso Norte era somente o Sul da Galiza. E, todavia, muito disso é quase um segredo.» (F.V.)

«Portugal deveria rever o relacionamento com as nações que compõem o Estado espanhol, ultrapassando os receios que nitidamente tem. Quanto à sociedade portuguesa, depende do interesse que tiver. Até este momento não o mostrou.» (Elias Torres Feijó)

«Portugal e Galiza olham-se um ao outro nos espelhos de Madrid e contentam-se, habitualmente, com essa imagem.» (Ramiro Fonte)

«Revoltar-nos contra a imagem espanholada que temos em Portugal não quadraria com o qualificativo que, por boca do Gama, nos pôs Camões, o do «galego cauto», teimosamente disposto a sobreviver.» (Carlos Quiroga)

«Somos sensíveis ao «glamour» da monarquia vizinha (cujos namoros e partos as nossas revistas do coração seguem fascinadas) e o «Reino de España» acabou por ser-nos natural e óbvio, mais que a alguns dos seus súbditos. Não bastando isso, um ministro português chegou a declarar-se, com inaudito à-vontade, e em plena capital da Galiza, «um iberista convicto». Escusado dizer que muitos espanhóis não nos entendem.» (F.V.)

«Tratar os agentes culturais galegos como estrangeiros é um erro palmar, tão profundos conhecedores eles são da cena cultural portuguesa.» (Samuel Rego)

18 thoughts on “«Mana Galiza» no Expresso”

  1. Xatoo,
    Isso da «Portugaliza» é menos antigo do que sonhas. É invenção duns aluados do século XX.

    «Parvos sempre teredes convosco», não é?

    Fala-se-lhes no que têm de comum Galiza e Portugal, e, pronto, logo saem destravados, refazendo mapas políticos.

  2. Parabéns Fernando! :)
    Aguardo poder ler o assunto todo na internet… Por enquanto já têm “ordens” os da “família portuguesa” de me comprar um exemplar e guardar até a minha chegada no verão!

    E já sabes q eu sou defensor do termo “PortuGaliza”, embora só como referência geográfica, ao estilo “Escandinávia” ;) … Não podiamos estar de acordo em tudo!! hehe…

    Parabéns, de novo.

    Xoán(zinho)&cia, ainda desde este pelouro chantado no Atlântico.

  3. Que tal às avessas?

    Assim:

    “Acho muito bem que o FV troque os aspectos culturais com os político-geográficos e aproveite qualquer pretexto literário para o fazer”.

    É que não gosto que me apaguem comentários sem razão. Agora sim, pode vir a censura, por elogios a dizer o oposto é que não.

  4. Zazie,
    Não faço ideia de como esse comentário de que falas tenha desaparecido.
    Não vejo, também, o que possa ser censurar-te… com razão.

  5. Ok. Como dantes existiam os fantasmas, podia ter sido um fantasma mais resistente. Mas foi isso, escrevi precisamente o oposto para acentuar que a simpatia pela cultura não tem nada de ser comparada com projecto político de qualquer espécie. Como o disse de boa-fé estranhei ter desaparecido o comentário. Não há crise. Era mais uma resposta ao xatoo.

  6. Fernando, é impossível não te dar razão. Já agora, que gostarias ver acontecer na relação entre Portugal e a Galiza? Iniciativas do Estado ou de privados? Mostras culturais? Convívios de intelectuais ou de populares? O quê?

  7. Valupi,
    Parecendo certo que um salto qualitativo, seja em que domínio for, não é de esperar a curto prazo, teremos de apostar nos pequenos passos simultâneos em vários domínios:

    1. algum conhecimento mais da Galiza moderna, ou da Espanha como conjunto,
    2. mais contactos culturais (música, artes cénicas, design, DB),
    3. mais conhecimentos individuais e colectivos,
    4. algum sinal do Estado Português de que reconhece a especificidade da relação com a Galiza,
    5. um desafio de futebol Portugal-Galiza, e depois Galiza-Portugal (como houve recentemente entre a Galiza e o Uruguai),
    6. a próxima boa ideia simples e realizável que nos surgir.

  8. Fernando, olha uma coisa engraçada:

    «A prova mais espantosa da vitória da língua de Camões sobre a de Vondel foi fornecida pela capital colonial holandesa de Batávia, “ a rainha dos mares orientais”. Os Portugueses nunca aí estiveram, a não ser como prisioneiros de guerra ou como visitantes ocasionais ou de passagem. No entanto, o dialecto crioulo constituído a partir do português foi introduzido por escravos e criados domésticos da região da baía de Bengala e era falado pelos Holandeses e pelas mulheres de casta intermédia nascidos e criados em Batávia , por vezes com exclusão da própria língua.»

    pag. 133, O Império Marítimo Português (1415-1825), C. R. Boxer, 1969, (trad. Inês Silva), Edições 70, 2001

  9. Z,
    A história é gozada. E exemplar.

    Com dois descontos: os holandeses gostam ainda hoje de falar línguas estrangeiras, e, além disso, nunca mitificaram a sua.

    Mais ou menos a propósito. Quando foi (suponho que por inícios dos século XVIII) necessário decidir qual a língua dos futuros Estados Unidos da América, a questão foi levada a votação em certo grémio decisor (desculpa, escapam-me pormenores). As opções eram: inglês ou alemão. Ganhou o inglês, como imaginas. Mas nunca imaginarás isto: por diferença de um voto.

    Comentário democrático desalentado: um copo de vinho a mais ou a menos, uma noite mais bem ou mal dormida, a fidelidade canina ou amorosa a um outro votante, podem decidir tanto na História do Mundo.

  10. … bem engraçada essa história, Fernando. É como dizes, um efeito borboleta, quiçá um beijo, and we got the new Empire

    Lá no livro também diz isso: que os holandeses achavam uma ‘honra’ falar outra língua, a espressão é do autor, que é inglês. Não tenho pó aos holandeses no te preocupes, a não ser quando é com a selecção que os cumo, carago, e é verdade que aí invoco uns traumas coloniais que ainda não esqueci, mas também o Caboclo Capiroba já tratou do assunto noutras terras. Tenrinhos. E além disso gosto de uma data de coisas daí, Spinoza inclusivé (o Descartes era muito birrento, mas tenho de lhe estar agradecido e ao monóxido de carbono também)

    Agora vou bazar, ao nimas, ainda não-sei-o-quê, com um provável ‘cozido’ pelo meio…

  11. Fernando, olha mais:

    Em 1739 os hindus tomaram Baçaim, era uma grande cidade com 5 igrejas e conventos. Caiu com honras de guerra, e os hindus cunharam o provérbio “guerreiros como os portugueses”.

    Não muito longe, no espaço e no tempo, em Damão entrava por ali adentro das muralhas um daqueles visitantes_espião estrangeiro, e não via ninguém, nem sentinelas havia, descobriu ele depois que entre as 12h e as 16h toda a gente fazia 4 horas de sesta, e os soldados também!

    (isto tudo conta o Boxer)

    Estes tugas f*dem-me a vida mas derretem-me o coração

  12. Non é este o único artigo que teño o gusto de ler á súa persoa, referente ás relacións entre Portugal e a Galicia.Coincido con vostede en que somos pobos irmáns ,illados por circunstancias históricas ,e o día que esquezamos receios mutuos e recoñezamos que ¡é tanto o que nos une e tan pouco o que nos separa ! teremos dado un gran paso para acadar unha xuntanza definitiva ,fructífera e agarimosa.É o meu desexo que esto que parece unha maravillosa utopía non tarde moito en se converter en realidade.Obrigada.

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