V9

O que é revoltante, mas absolutamente revoltante, é que uma classe profissional que se encarrega (ou devia encarregar) de formar as próximas gerações se comporte como funcionários de repartição, preocupados com o seu umbigo, com a mediania que a todos protege, esquecendo completamente qual a missão, e deixando-se manipular da maneira mais abjecta. Mas é uma consequência da falta de ligação que têm à escola, aos alunos, aos pais. Porque é que haviam de a ter, quando tudo o que lhes interessa é decidido por uma estrutura gigantesca e impessoal em Lisboa?

Esta estrutura educativa é uma aberração. Todos sabemos quais os resultados dos grandiosos “planos quinquenais” na antiga União Soviética, e no entanto continuamos a tratar a educação como algo que pode ser planeado e gerido a partir de um centro. Não pode. São demasiados funcionários, demasiados professores, demasiadas realidades e especificidades locais, é um alvo demasiado fácil e suculento para interesses puramente políticos. Quem tem as melhores condições para decidir como organizar a escola, que professores contratar, que condições oferecer, são as estruturas locais. Gostava de ver o Mário Nogueira a fazer as mesmas fitas se do outro lado estivesse um presidente da câmara, com a população do seu lado, preocupados com os resultados nos exames nacionais. Como dizia o Maradona aqui à uns tempos, e com o qual concordo completamente, a avaliação dos professores é simples: há um director de escola. Esse director decide quem são os professores competentes, e promove-os. Os incompetentes, despede-os. Responde, apresentando resultados, perante os principais interessados – os pais. Como acontece em qualquer estrutura que se preze. Como acontece, por incrível que pareça aos nossos funcionários educativos, nos colégios privados.

É que há um ponto que acho que os professores e respectivas estruturas sindicais não estão a ver bem: enquanto andam às turras com quem os quer ajudar a oferecer um ensino de excelência, há quem ofereça uma solução simples, e cada vez mais procurada por quem se preocupa com o essencial, e tem meios para o fazer. Basta ver aqui, aqui e aqui, entre muitos. Crescem como cogumelos, porque há cada vez mais procura. Já não estamos a falar dos tradicionais colégios de elite. Estamos cada vez mais a falar de classe média pura, que adere, muitas vezes com esforço, a locais que sentem que a vocação é a correcta: os filhos deles. É o meu caso, por exemplo, com grande pena minha, que sempre desprezei elitismos e condomínios fechados. Mas que escolha tenho? Sujeitar a educação dos meus filhos a uma escola onde os professores são todos “iguais”, tanto faz um como outro, mudam constantemente, não há o mínimo critério na sua contratação e manutenção, e ainda por cima permanentemente em conflito? E que, como bem diz o Val, muitas vezes não têm a mínima vocação, sendo papável a exasperação por terem de lidar com miúdos? Basta-me ouvir as histórias de horror da minha vizinha de baixo, que caiu na asneira de inscrever as filhas na primária pública. E verificar as diferenças de nível entre os nossos filhos de idade semelhante. Enquanto puder, não obrigado. Nem que tenha de sacrificar tudo o resto, vão ter uma educação digna desse nome.

E de referir que estas novas estruturas não se limitam a captar alunos de pais como eu, mas captam também os melhores professores, criando um círculo vicioso que será cada vez muito difícil de quebrar uma vez imposto. Porque se a educação pública é vista como inferior, e a privada é cada vez mais acessível, não tenham grandes dúvidas sobre o que sucederá – o mesmo que já sucede com a saúde. O que significa que haverá, cada vez mais, duas classes de cidadãos: os que podem comprar uma educação de excelência para os filhos, e os que não podem. Graças aos sindicatos e ao BE, do lado dos professores, e à direita retrógrada, que alegremente ataca o programa Parque Escolar (que, coincidência ou não, aproximou as condições da escola pública à oferta dos privados), essa é uma realidade cada vez mais presente. Era esse o objectivo? Se era, os meus parabéns, a estratégia tem funcionado lindamente.

__

Oferta do nosso amigo Vega9000

9 thoughts on “V9”

  1. Isto devia ser lido em todas as televisões e comentado em todas as rádios. Para a história há-de constar que o puro oportunismo do BE e do PCP se aliou à direita, apostada em destruir a escola pública. Louça nunca vai poder lavar-se da ignominia, por mais homilias que faça. A alma do BE ficou patenteada na idiota CPI e no relatório final, da lavra do bloquista Miguel Macedo. Nem a idade que aparenta o fez ter vergonha na cara. Esta gente do BE que foi esperança de renovação para muita gente desiludiu por completo.

  2. É a institucionalização definitiva da plutocracia, de notar que para rematar a parvoeira depois quem tem melhores médias vai para a universidade pública e os piores para as privadas, aumentando ainda mais as diferenças.

    Assim isto acaba mal—–

  3. O sistema que ainda os suporta e do qual não abdicam é o do tempo do Estado Novo e uma das cartilha, a minha, era esta;

    FORMAÇÃO CORPORATIVA de António G. Mattoso e Antonino Henriques.
    Ensino Técnico Profissional.
    Livraria Sá da Costa.
    8º edição actualizada.
    1970.

    Nenhum governo terá poder para os enfrentar, porque toda a FP está assim organizada, além disso é a razão de ser de uns quantos oportunistas politico-dependentes.

    Por isso, doa a quem doer, venha a Regionalização. Uma vez por todas deixem de dizer mal de Lisboa e de quem honestamente aqui trabalha.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.