TI’ SILVINA

Da nossa amiga Cláudia, recebemos esta bela oferta:

Ti’ Silvina. Era assim que a nomeavam. Na voz da minha madrinha, havia censura, um cariz tabu numa qualquer tentativa de abordagem da minha parte. Era-me defendido indagar. Havia sol, luz e flores. Porque ofuscar o horizonte com perguntas tão inapropriadas para a minha idade?
O que havia de mal na Ti’ Silvina? Que teria ela feito para que a minha madrinha, tão racional, a quisesse afastar da esfera do real?
Ti’ Silvina trazia sempre um chapéu de palha espampanante de abas largas e laços coloridos. Ria, bebia, dançava, e confidenciava-me que os moços se apaixonavam por ela. Ti’ Silvina tinha 64 anos.

Todos os dias, via-a caminhar para a caixa do correio. Ti’ Silvina era analfabeta. Todos os dias, esperava uma carta do Primeiro Ministro.

Um dia em que decidiu não falar sobre o Governo, pois este continuava cerrado num silêncio de sepulcro, revelara-me que tinha uma colecção de bonecas de todos os tamanhos, expostas em cima da cama. Esperei que ela me dissesse que me ofereceria uma ou que teria uma em particular guardada só para mim, mas seguiu caminho, orgulhosa, altiva, a cantarolar uma ária popular.

Na festa da padroeira, apareceu feliz. Dançava com frenesi. Quantas saias traria ela naquela noite? O bâton carmesim invadia para além da linha natural dos lábios ressequidos e cerzidos, patenteando a figura triste do palhaço ou da boneca maltratada. John encontrava-se a meu lado. Soou no ar:
– It’s so sad.
Onde via ele tristeza numa pessoa daquela idade, com mais vida e alegria do que um qualquer seu conterrâneo? Com 64 anos, acreditava no amor e procurava em bailes e festas a pessoa que a faria feliz. Nunca tinha visto a Ti’ Silvina chorar. Era forte como a Serra de Montemuro, forte como a geada das manhãs de Inverno, forte como os madrugadores das labutas do bronze.

Um dia em que tudo parecia perfeito e o sol brilhava, a luz se expandia e as flores sorriam, atrevi-me:
– Maman, porque é que a Ti’ Silvina é assim?
Notei o primeiro impulso, movimento de repulsa. A rejeição. Porém, conformou-se, acalmou. Inalou o ar apaziguador daquela tarde amena e recebi as palavras de minha mãe:
– Ela não teve sorte. Perdeu o marido e o filho em África. Foi a partir daí que ela ficou assim.
Imaginar que ela teria sido uma mulher como as outras, comungando das mesmas preocupações, azedumes e contentamentos, afigurou-se-me monstruoso, terrível, o golpe que a transformara. Minha mãe prosseguia e através da névoa criada pelo meu cérebro eu distinguia:
– Passa a vida a escrever aos ministros a pedir os corpos que ficaram em África. O mais certo é terem desaparecido. Ela não sabe escrever, mas pede a quem sabe. Nunca obteve resposta. Já lá vão 20 anos.

34 thoughts on “TI’ SILVINA”

  1. Só me faltava isto hoje. Andei o dia inteiro a tentar fugir a elas, mas agora desisti e chorei como me estava a apetecer há muito. Obrigada Cláudia.

  2. bonito e triste, Claudia. Mas olha que a Ti’ Sylvina terá tido os momentos felizes que só o quase vazio permite. Lê ‘a linha da beleza’,

  3. (imagino-te caladinha, mas contente que nem uma papoila; por falar nisso: papaver somniferum, vou dar uma de yoshi)

  4. É uma história paralela a «Ninguém escreve ao coronel» só não percebi se perdeu os dois na guerra ou um na guerra e o outro na emigração. Excelente texto.

  5. Lembro-me bem da Ti’Silvina, é verdade que ela fazia-me rir com o bom humor que tinha e com todas as suas frases inesperadas.
    Todas as pessoas da aldeia dissiam “Pobre mulher, não tem sorte nenhuma…” mas afinal quem é que semeava felicidade a volta dela?
    Lembro-me de uma vez estar com a minha irmã num pequeno armazém onde chegou a Ti’Silvina que disse logo algo que me fez rir de tão absurdo que era, e então ela virou-se para mim com um pequeno sorriso e uns olhos divertidos pelo meu riso : “eu sei que sou louca…”. E claro, eu ainda me ri mais e tenho a certeza que era o que ela queria.
    Obrigado Ti’Silvina e obrigado mana por este lindo texto.

  6. jcf, o que ralava mesmo a Ti Silvina era não saber qual dos dois morreu na guerra. Sais-te com cada uma!

  7. Obrigado Cláudia. Um velho amigo ainda hoje espera uma carta do filho desaparecido na Guerra de África. Nessa época era costume os Estados-Maiores definirem como desaparecido em combate qualquer militar cujo corpo não fosse possível localizar e recuperar, mas o meu amigo recusa-se a acreditar nisso. Por isso todas as manhãs desde há 35 anos abre a caixa do correio com esperança dia-a-dia renascida.

  8. Não me digas que não te lembras dos «colonatos» do Limpopo e da Huíla. Havia até uma Junta de Colonização Interna…

  9. Teresa, obrigada pelo teu comentário.
    Substantia Nigra, obrigada. Devo muito à Ti’ Silvina pelo texto.
    z, obrigada. Fizeste-me rir, pois eu estava calada e contentinha. LOL
    jcfrancisco, um elogio teu é como um meteorito a cair no meu local de trabalho. LOL. Tenho que ler “Ninguém escreve ao colonel” para colmatar a lacuna. Obrigada.
    Gaspar, oh maninho, estou contente com o teu comentário. Não te disse nada a ver se te recordavas dela.
    Zeca Diabo, o teu amigo, a Ti’ Silvina e quantos outros. Foi a pensar na gente que fica e sofre que escrevi isto. Abraço grande.

  10. Pois é, não vou fingir que não li. Sans rancune, é um bom texto e principalmente com o dom do ritmo e da narrativa.

    Não é muito habitual ter esse dom e consegui-lo num relato curto.

  11. ora pois, a zazie não é rancorosa. isso já se tinha visto. e o texto justifica o bom gosto.
    claudia, que honra, um comentário só para mim… ;)

  12. não posso fazer-te a desfeita de não capicuar esta: dias felizes para ti Claudia, e já agora para o yoshi e para o Gaspar e para todos vá, que assim vou junto :))

  13. Cláudia: o livro «Ninguém escreve ao coronel» de G.G. Marquéz lê-se bem pois nem é muito volumoso. Eu gostei muito.

  14. zazie, obrigada. (safei-me da Claudette desta vez)

    Valupi, concordo. Até a mim a zazie me surpreendeu :-)

    susana, claro :-) És como a cereja em cima do bolo.

    z, onde viste a capicua?

    Nik, obrigada :-)

    jcfrancisco, li muitos livros do G. G. Márquez, mas por acaso este não. Como já te disse, vou lê-lo. Não posso ficar na ignorância ;-P

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.