SOBRE AS IDENTIFICAÇÕES – BdIs e BdEs.

Como ontem não vi absolutamente nadinha no Diário de Notícias nem no Público que a mim me parecesse digno das atenções das cabeças desvairadas que aqui vêm largar curas temporárias para males políticos permanentes, ou mobilizante do espírito de combate das infantarias maledicentes, aproveito para visitar a secção da loiça de barro estalado que acaba os seus dias como vaso improvisado, berço de salsa ou salva, num canto de quintal duma senhora pobre e viúva.

Segue-se que aos mais curiosos foi ontem oferecida, sobre a bandeja introdutória do Valupi ao meu escrito sobre os vários cinzentos-osga que dominam os palcos políticos a leste e oeste de todas as ideologias, uma oportunidade única e não repetível para descobrirem, com um pouco de paciência, no BdE, as origens blogosféricas da minha personalidade, as minhas idiossincrasias, princípios da minha identidade a partir do ovo social e grupo sanguíneo… Felizardos, felizardos, seus leonardos, que não sabeis para onde voltar-vos. Tratava-se, para o Valupi, julgo eu, dum dever, duma homenagem, espécie de esclarecimento de roda-pé-não-se-esqueçam com a intenção prima de preparar alguns para a refeição estranha que ele lhes punha no prato.

Mas não era preciso. Assinar o que escrevo sob o pseudónimo de Germano Filipe ou o meu verdadeiro nome de Bomba Madalena II, generala da beira-rio, não influi nem agrava, altera ou beneficia o conteúdo ou significado das declarações nem a verdade das suposições nem o objectivo dos ensinamentos nem a moralidade ou imoralidade das confusões. A verdade independe do preço das maçarocas e das camisas que as vestem. Lembrem-se que o Álvaro Cunhal não assinava tudo o que escrevia. E no fim levou um dos maiores funerais de sempre, se calhar uma estátua inderrubável a eternizá-lo algures numa terra proletária como eu. Uma pessoa tem que pensar na posteridade a que tem direito.

Um dito de anónimo, quando não encerra ofensa de fazer sangue nas honras, virgindades reais, relativas ou perversas, de políticos, banqueiros e padres da melhor estirpe rabo-jesuítica, que não deixe entrever a selvajaria dum cérebro demente, na acepção física, espiritual e aritmética do termo, tem tanto valor, ou tem menos, ou mais, se calhar os dois, como valor tem a frase pomposa e pingante de rodeios e madeixas onduladas do catedrático reconhecido e respeitado. Sem desprimor para os lentes de primeira e segunda que adornam estas páginas. Valha-nos isso, senão este mundo já tinha acabado com os pios de gente como eu.

Queria acabar isto com uma frase de latim, mas não encontrei nada no frigorífico. Raios partam a sorte.

TT (forever)

11 thoughts on “SOBRE AS IDENTIFICAÇÕES – BdIs e BdEs.”

  1. Bom, sem dúvida que vens abanar a prosa aqui da Aspirina. E é curioso, pareces um pouco mais domesticado (no bom sentido, meu caro, no bom sentido) nos posts que aquilo que eras nos comentários. Pareces-me, sei lá… mais cinzento. Acho que estás a precisar de encontrar uma postazinha que te liberte, que te faça mandar o resto às urtigas.

    Porra, onde anda o Bomba que aprendi a odiar tão estimosamente?…

  2. João André,

    Acho que é uma questão de pacientarmos. O TT tem dias, tem estados de alma, tem mutantes observações das nuvens interiores e exteriores. Não desistas tão cedo de odiar. Ele há bombas adormecidas.

  3. TT é um acrónimo germânico de trítono, o acorde do diabo…ou intervalo do diabo, como alguns preferem dizer.

    Dissonâncias, portanto.

  4. José,

    Ai essa cabecinha musical. Em que ficamos: acorde ou intervalo? É que só um deles pode ser jamais ‘dissonante’, adivinha qual. Depois, nunca ouvi falar em ‘acorde’ do diabo, mas pode ser limitação.

    Mas sobretudo: há acordes muito soantes e sem graça, outros muito menos mas cheios de sugestões. Passar duns para outros, fazendo uns pedir-se a outros, brincar com as expectativas do ouvinte, eis o que faz a grande música.

    Aguardemos, pois, todos ouvidos.

  5. Sempre imaginei o “TT” com um “N” invisível pelo meio. Estaria normal na história dele. Acho que é só mesmo chegar-lho rastilho. Como disseste, Fernando, é uma questão de estar adormecido. Nuvens a mais sobre Portugal Continental, creio.

  6. Venâncio:

    Na verdade e tecnicamente, intervalo. Mas…o que é o intervalo do diabo?

    Duas notas que se sucedem, avançando três tons de uma só vez.
    Tritono, por isso.
    Por exemplo, um tom de do a re; outro tom de re a mi e em vez do meio tom do costume, para fa, aumenta-se esta quarta nota com um sustenido e…voilà! O tritom!

    Esta sonoridade ouve-se, não se lê apenas nas pautas.
    Como se há-de chamar então?
    Se um acorde precisa de três notas, porque não oferecer-lhe uma de borla, para acordarmos numa designação semântica interessante?

    Preferes mesmo assim,e puristicamente, o “intervalo”?

    Pois seja então- e fique eu com as orelhas de burros a ver se me lembro em que parte do Lark´s Tongue in aspic é que já ouvi o tritão.

    Será que o Fripp vai introduzir tritões cantantes nos toques do Windows Vista?!

  7. Diábolus,

    Há outros, além do José, a confundirem «acorde» com «intervalo». Pois há. E que é que isso prova, senão que o José não está sozinho?

    José,

    O exemplo corrente do «intervalo do diabo» é um FÁ seguido dum SI. Mas, ok, DÓ e FÁ# também servem perfeitamente.

    Já num «acorde» em que entrem um FÁ, um SOL e um SI (por exemplo num acorde de sétima dominante, em que há sempre uma diferença de três tons completos), nada se passa de diabólico, hás-de convir.

  8. Eu ainda sou do tempo em que não haviam blogues

    O espólio em apreço será denominado espólio MANUEL SERTÓRIO.
    A documentação foi oferecida por Elsa Sertório, filha de Manuel Sertório e deu entrada no Centro de Documentação 25 de Abril em 29 de Outubro de 1997. Evidenciava um cuidadoso trabalho de sistematização efectuado antes da doação.
    O estado de conservação dos documentos à chegada, considera-se bom.
    No respeito pelos critérios de arrumação originais procedeu-se à substituição completa das ferragens dos “dossiers”, como medida de precaução contra o perigo de oxidação que, aliás, alguns deles já indiciavam, bem como ao restauro dos documentos mais deteriorados.
    A documentação entregue abarca, predominantemente, as décadas de 50 a 80 do século XX.
    A parte mais representativa do espólio reflecte as actividades de Manuel Sertório enquanto activista da Oposição Política, primeiramente no exílio do Brasil e, depois, como militante da FPLN na Argélia.
    Na mesma data da doação foi entregue pelos doadores, no Centro de Documentação 25 de Abril, uma lista de documentação disponível na residência da viúva de Manuel Sertório, em Lisboa, e que diz respeito a manuscritos e recortes de imprensa de publicações de, ou sobre Manuel Sertório.

    [entre uma extensa lista de documentos]

    Série constituída por cartas recebidas e expedidas por Manuel Sertório ao longo da vida.

    […]

    Germano Filipe, 5 dossiers (1970-1980)

    […]

    (extraído site do Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra)

  9. Caro ou Cara “Eu ainda sou tempo…”,

    A sua intenção é obvia. Ou será? Seja como for, vou escrever meia-dúzia de palavras para comentar a notícia e provar que existo e que sou visitante assíduo deste blogue, ainda que desta vez a minha atenção tivesse sido alertada pelo grasnar alarmista dum pato bravo que ontem à noite sobrevoou a cerejeira japonesa que enfeita as traseiras do prédio onde nos últimos vinte anos tenho congeminado e burilado ideias disparatadas sobre assuntos muito sérios.

    Tive o grande prazer de apertar a mão pela primeira ao Manuel em 1968, num contexto de intriga política a que se convencionou chamar luta anti-salazarista e anti-fascista, saldada com as meias-solas de 1974 que todos os meninos deste século, e se calhar dos que se seguem se o Bush atacar o Irão e reduzir a Humanidade a fanicos, irão repetir com harmonia polifónica em lições de História.

    Com a ajuda da argamassa das ideias, tornámo-nos amigos a partir dessa data, tendo eu aproveitado muitíssimo da sua experiência pelas tabernas finas da histórica Oposição ao regime de Salazar, e absorvido um pouco o tipo de Marxismo intelectual que dele dimanava nessa altura e que ainda me encantava e me encantou durante alguns anos até â minha descoberta do caminho marítimo para a India.

    Mas, mais que tudo isso, era o humor do Manuel aquilo que mais me cativava. Como eu, mas mais refinadamente, também ele via motivo de riso em muitos fanatismos, peças de teatro e untuosidades políticas e de vidas privadas, e tenho a certeza de que se ainda andasse por aí, ou por aqui, aquilo que me faz rir também o faria rir a ele.

    Apesar do fosso de classe que nos separava – ele o menino burguês prodígioso capaz de encontrar os valores de x e y numa equação aos seis anos de idade, e eu o vadio de pata descalça sempre receoso que um olheiro de lama me impedisse de apanhar o caranguejo apetitoso – nunca vi no homem nada que me fizesse duvidar da honestidade das suas convicções marxistas. Também, do que não havia falta nesse passado e neste presente de lutas do propletariado são mãos amigas de intelectuais burgueses com bom coração, mormente entre os homens de Direito sempre abertos às influências das irmandades esotéricas e ao preço do chicharro em Bruxelas.

    Só lamento é que a Lili, uma mulher fantástica e uma amiga que não vejo há muitos anos por puro desmazelo da minha parte, e o resto da família não tivessem tido tempo, ou dinheiro, para escarrapacharem directamente o espólio do Manuel Sertório na Internet. Provavelmente nunca ouviram falar da Biblioteca de Alexandria.
    ….

    Espero que estas linhas tenham saciado, pelo menos em parte, a sede do fantasma clássico que virou bloguista. Sede – que é como quem diz – a curiosidade típicamente lusitana de aproveitar só aquilo que o mar vem depositar na praia…

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