Pedido de demissão de Deus

Ao ver esta margarida, pousada no teu retrato, desconheço o ímpeto atabalhoado que me levou a fazer de ti fruto duma costela e germe de todos os males.

Em eras politeístas em que eu ainda não varrera heresias múltiplas e complicadas, tantas eram as mulheres sábias e formosas, de porte seguro e rara perspicácia, que não fosse eu Deus e ninguém as contabilizaria. Vi Helena causar tormentas, a Penélope tecendo e desfazendo uma teia e Atenas a nascer da cabeça do pai. A minha função era observar para logo de seguida criar um mundo melhor.

Inexperiente em matéria de criação, dei o meu melhor num espaço de uma semana. Uma das minhas criaturas humanas escreveu uma peça de teatro em três dias, mas eu tive de criar céus, terras e mares em apenas seis dias. Não me fatiguei demasiado a criar o homem. A obra da criação estava quase terminada. Peguei num naco de barro num caminho pedestre rodeado de pinheiros e amalgamei-o. O barro escasseava para dele fazer uma mulher e criei-te a ti, Eva, duma recente, frágil e encaniçada vértebra humana.

Sou Deus, mas não sei tudo. Ser omnisciente é uma treta que vem nos livros dos homens. Dão-me atributos que não possuo. Na verdade, Eva, ao contemplar-te, caí no erro de Pigmalião e a minha imparcialidade exemplar estalou em estilhaços vários. Senti o coração a pulsar, o sangue a bater nas artérias, o diafragma a trabalhar em ciclos irregulares. As minhas mãos esfriaram e humedeceram. Tive uma queda de tensão brusca e temi estragar o mundo que acabara de criar.

Eva, nesta carta, confesso, a ti e a toda a humanidade, que me apaixonei por ti no dia em que te criei. Selei o segredo no mais recôndito canto da minha alma e durante séculos, milénios, fingi que te não amava. Os teus irmãos nunca aceitariam semelhante sacrilégio e deixariam de crer no mundo em que vivem. Pacientei e perdoei sempre, mas hoje não houve quem me amparasse neste terrível desabafo.

Embora omnipotente, perco todas as minhas forças ao contemplar-te e raras vezes intervenho nos destinos do mundo. Chovem inundações, abalam terramotos, cospem gargalos terrestres; os homens, desorientados, desapossados da minha mão criadora, deixaram de sonhar. Queixam-se de amores destroçados, de invejas mortais, de perspectivas frustradas.

Em cada homem, depus um coração fértil em nervuras e sensibilidade, julgando o meu imune à paixão. Falhei no meu intento de uma criação perfeita por ignorância e pretensão. Espero que um dia me perdoeis, mas venho, através desta carta secular e humana, rescindir o meu contrato com o mundo. Não posso continuar a ser Deus.

Cláudia Rodrigues

5 thoughts on “Pedido de demissão de Deus”

  1. vês que ficou tão giro – cheio de substância que até já estou enfartada. :-)

    (mas, a mim, não me convencia: trazia-o para minha casa, para a minha cadeira de baloiço, dava-lhe rojões e laranjada e ele havia de desfragilizar e apanhar a cápsula dos céus) :-)

  2. E não vais dar tempo à casa ? E já agora a poltrona dos céus vai ser ocupada pelo teu filho, certo ? Não te esqueças de lhe dizer que aquela tareiazita que lhe demos à 2010 anos atrás era na brincadeira, foi só para ele se integrar melhor no grupo. :-)
    (Gostei do texto.)

  3. Sinhã, estava a precisar do teu empurrãozinho :-) Vou-te enfartelar na “boulangerie” que eu cá sei. Vais-lhe chamar um figo!

    VM, tens razão: lá porque Deus anda cansado e apaixonado, não quer dizer que o filho não lhe possa suceder. :-P

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