Os cristãos novos da blasfémia

São só dois exemplos numa procura rápida. Há dois anos escrevi um post a gozar com a Páscoa e a crucificação de Cristo. Caiu o Carmo e a Trindade. Vale mesmo a pena lerem alguns dos comentários para terem algum contacto com a sempre tão aplaudia tolerância ocidental. Poucas semanas antes, o Barnabé tinha feito o mesmo com uma tragédia numa peregrinação a Meca (sem que isso provocasse nenhum alarido). Achei graça ir ler os comentários ao Kit Páscoa. Na assinatura dos comentadores às vezes vem um link para o seu blogue, se o têm. Cliquei em dois críticos ao mais do que duvidoso gosto do meu post. Um, AAA (André Azevedo Alves), do Insurgente, dizia: “Um desagradável mas elucidativo exercício de mau gosto”. Outro, um tal de Carlos, do Galo Verde, concordava: «Mau gosto. Adepto dum estado laico, mesmo assim me admira muito que os partidos de esquerda tentem sempre minimizar, gozar, banalizar, ideias caras ao povo que querem representar.» O que diz agora o senhor AAA? Diz que o Deus dos muçulmanos é «um Deus que não ri nem quer ser objecto de riso» O seu blogue, aliás, tem estado na primeira linha da defesa da liberdade de expressão e da blasfémia. E senhor Carlos, do Galo Verde? «O Islão tenta impor-se com a sua cultura no ocidente (os véus na França) e até exige que a liberdade de imprensa seja diminuída se estiverem em causa os seus valores.»

E estes são só dois exemplos, à pressa. O que não faltam por aí são cristãos novos nesta matéria. Sobre Cristo, a blasfémia é «mau gosto». Sobre Maomé, é «liberdade de expressão».

25 thoughts on “Os cristãos novos da blasfémia”

  1. Assim à pressa diria que este post do Daniel Oliveira é um tiro no pé. Então critica os tais Carlos e AAA por fazerem o mesmo que o Daniel faz?

    Para o Daniel também é liberdade de expressão criticar o catolicismo mas islamofobia criticar o islamismo! Não vejo grande diferença entre os três excepto nas vacas sagradas …

  2. O Daniel Oliveira não percebe a diferença entre considerar determinado texto como revelador do mau gosto de determinado autor e querer censurar esse mesmo autor? Não percebe que o que se censura é a exigência de desculpas a um governo pela publicação por um jornal de algumas caricaturas? Não percebe que ninguém pôs em causa a liberdade de expressão do Daniel Oliveira, ao passo que a liberdade de expressão dos caricaturistas foi posta em causa por fundamentalistas islâmicos? De tal forma que os caricaturistas têm de viver escondidos, receando pela própria vida? Quando o Daniel Oliveira diz que foi crucificado pelo post Kit Páscoa coloca-se na mesma posição de quem despedido por publicar as caricaturas ou de quem tem de viver sob escolta policial? Quando manifestantes em Londres dizem “behead those who insult islam”, o Daniel Oliveira acha que está em causa o direito à indignação por parte dos fundamentalistas? Que tal equivale ao comentário do AAA sobre o suposto mau gosto do post Kit Páscoa? Acha, em suma, que a islamofobia é mais perigosa do que os atentados islâmicos em Madrid e Londres, como se depreende do post “liberdade da islamofobia”?

  3. este post é um excelente exercício de memória, e ainda bem que o DO se deu ao trabalho de o procurar. é bom ver que pela boca morre o peixe, e felizmente os arquivos da net permitem guardar (para mais tarde recordar) as então damas ofendidas e as suas lágrimas de crocodilo.

  4. Acho que o post “Kit Páscoa” do Daniel foi despropositado e de mau gosto, tal como acho que as caricaturas de Muhammad foram despropositadas e de mau gosto.

    Todos estes ataques gratuitos à religião dos outros só servem para criar inimizades e tensões inúteis. Tanto o “Kit Páscoa” do Daniel, como as caricaturas de Muhammad.

  5. Sr. José Barros,
    Você é cego!
    Não consegue ver a dualidade e a incoerência dos senhores AAA e Carlos!.
    Deixe-se de retóricas

  6. O José Barros não percebe que, para além dos muçulmanos anti-democratas que pretendem censurar os cartoons e até matar os seus autores, há muitos outros muçulmanos – incluindo os muçulmanos dinamarqueses e, de maior relevância para nós, os muçulmanos portugueses – que não pretendem nada disso, mas que também se sentem incomodados ou ofendidos pelos cartoons.

    O José Barros confunde a parte com o todo.

    Da mesma forma que houve no passado católicos anti-democráticos em Portugal que pediram a supressão de expressões anti-católicas. O comportamento dsses católicos não deve ser usado como justificação para ofender todos os católicos em geral.

  7. Caro Luís Lavoura,

    Não confundo muçulmanos com fanáticos muçulmanos, nem tal se depreende minimamente dos meus comentários. A própria utilização da expressão “fundamentalistas islâmicos” no meu comentário aponta para a existência de muçulmanos decentes e moderados, como é óbvio.
    O que o Daniel Oliveira pretende é equiparar aqueles que consideraram o post Kit Páscoa como uma manifestação de mau gosto àqueles que queimam embaixadas e ameaçam de morte os caricaturistas. Isto sim, é desonesto, grave e vergonhoso.

    Ps: não é preciso salientar a diferença entre a consideração de que X é de mau gosto e a consideração de que X deve ser censurado. Se há coisa que o AAA e outros não fizeram foi exigir que o Daniel Oliveira eliminasse o post Kit Páscoa. Aliás, ninguém na respectiva caixa de comentários o fez. Não há, pois, analogia possível entre os dois casos. Mas o Daniel Oliveira, por esta altura, deve pensar que vale tudo…

  8. Caro Daniel Oliveira,

    Considerar algo de «mau gosto» cai ainda dentro da liberdade de expressão.

    O que me pergunto é se da próxima vez que alguém em meu redor considerar que a minha roupa é de mau gosto, lhe posso por essa razão destruir a casa, e arder a sua foto no meio da rua, como forma de manifestação política contra o facto de alguém criticar o modo como me visto.

  9. RAF,

    Se for um radical muçulmano, de turbante na cabeça, e cachecol do Arafat pode fazer o que quiser! Se for cristão ou judeu não se atreva sequer a dizer que o comentário foi de mau gosto, sob pena de ser julgado pela superior moral aqui do Daniel Oliveira.

  10. José Barros, há diferenças substanciais entre publicar piadas de mau gosto (como o Kit Páscoa) num blogue, ou na internet em geral, e publicá-las num jornal. Nunca ninguém, que eu saiba, pediu a censura a um blogue devido a alguma graçola anti-religiosa. Mas já houve em Portugal pedidos (com sucesso) de censura por parte de católicos. Em tempos não muito distantes.

    Convem lembrarmo-nos disto para compreendermos adequadamente aquilo que se passa agora. Os protestos presentes de muitos muçulmanos são análogos aos protestos pouco longínquos de muitos católicos. Não são só os muçulmanos hoje que pedem censura; católicos também a pediram – e obtiveram – não há muito tempo.

  11. Esperem aí: eu critiquei os cartoons e quem os fez e defendi a sua publicação. Se acham isso normal, estão a discutir o quê comigo?

    Quanto ao mais, expliquei porque critiquei o cartoon da bomba. Pelo seu conteúdo, não por ser blasfemo.

    Eu dizia, no meu post Kit Páscoa, que os católicos fazem o elogio do sofrimento. Éo que eu acho. Ninguém então quis discutir o conteúdo comigo, mas apenas o facto de eu o ter feit.

    Eu quero discutir o conteúdo dos cartoons dinamarqueses: dizem que o Islão é por natureza violento Eu discordo. Mas ninguém quer discutir isso comigo., Nem querem discutir se os cartoonistas o deveriam ter feito ou não. Desta vez, querem discutir as reacções dos muçulmanos.

  12. Nao vejo contradicao nenhuma em defender a liberdade de expressao e apontar o mau gosto daquilo que bem nos apetecer.

    Liberdade de expressao e deixar os estupidos dizerem estupidezes e poder criticar os estupidos por tal. Gostava era que existissem menos!

    Uma palavra de apreco a odete santos por nao reagir violentamente a um post do Daniel Oliveira

  13. Foi a única coisa que fiz: defendi que os cartoons eram de mau gosto. Para dizer a verdade, ainda não vi ninguém defender que eles não podiam ser publicados. O debate´é, necessariamente, o conteúdo dos cartoons. Mas esse ninguém quer fazer.

  14. “…Goste-se ou não se goste do post a verdade é que, como Cristão, entendo que a liberdade de dizermos o que queremos é do mais importante que o Ocidente Cristão conseguiu em 2000 anos de história.” Escrevi isto em relação ao Kit Páscoa e reafirmo o mesmo em relação aos cartoons de Maomé. Um abraço

  15. campeão, quantos dos que escreveram comentários desfavoráveis à tua piada foram queimar a sede do bloco de esquerda? quantos juraram matar-te pela blasfémia?
    essa é a grande diferença.
    “quem não percebe isto, não percebe nada”

  16. Daniel, eu lembro-me desses dois posts, e aliás fui um dos que protestei pelo “kit de Páscoa”. Num caso e noutro, o mau gosto imperou, disso não duvido. Mas a justificação da altura é que se podia gozar com tudo, a Igreja era uma instituição poderosa que devia ser caricaturada, etc. de acordo que os cartoons da questão são extremamente infelizes, mas a razão de uma provocação devia valer para as duas crenças. A não ser que os cristãos tenham feito algo que mereça pior tratamento que os muçulmanos.

  17. Eu já dise o que tinha a dizer sobre manifestações violentas. Mas as acusações de tentativa de limitar a liberdade de imprensa começaram antes. Recordo: a primeira embaixada foi incendiada no S+abado. Na quarta já os muçulmanos eram acusados de fanatismo por boicotarem os produtos dinarqueses.

    E eu, desde o princípio, quero apenas debater os dois pesos e duas medidas de quem acha que há coisas engraçadas mas só se forem com os outros.

  18. Devo poder gozar com os pretos por serem pretos?
    Devo poder gozar com a homossexualidade?
    Devo poder gozar com os seropositivos?
    Devo poder gozar com as mulheres que abortam?
    Devo poder gozar com a sua mãe?
    Devo poder gozar com o sofrimento, a doença e a fome?
    Devo poder gozar consigo? Toma-lo como uma anedota de ser humano?
    Não haverá limites dados pelo bom senso para o meu e o seu (inegável) sentido de humor?
    Por muito que nos custe o entendimento do conceito, a paixão de cristo é, para os cristãos, prova do imenso de amor que Deus nutre pelos homens. É a pedra basilar da fé cristã. Gozar com ela, é gozar com o que de mais importante e essêncial existe para eles. É o último insulto.

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