O decano de todos nós

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Praia de Moledo (Alto Minho). Ao fundo, o monte de Santa Tegra (Galiza)

«Educámos as novas gerações para que elas fossem mais felizes e, provavelmente, mais apresentáveis. A avaliar pelo retrato de conjunto, não conseguimos nem uma coisa nem outra. Não piorámos substancialmente, mas ficámos com mais dúvidas».

Quem o afirma é António Sousa Homem, decano dos colunistas portugueses, mesmo quando José Pedro Machado ainda vivia. Damos com ele, presentemente, na revista «Notícias Sábado», onde também escreve Francisco José Viegas. Anos a fio, pudemos ler o cronista Homem no «Independente». Essas crónicas foram reunidas, não se sabe por quem, num volume de 2002, «Os Ricos Andam Tolos».

Digo que não se sabe por quem, pois duvida-se de que o venerando dr. Homem se ocupe de actividades tão banais, tão próprias de mais jovens vaidades, e pensando bem tão humilhantes, como a de reunir textos e levá-los a quem os edite. Alguém o terá feito por ele.

Conheci-lhe a curvatura do dorso, mas também a juventude do olhar, quando com ele abanquei, haverá quatro anos, em Moledo, junto à praia. Desejava eu uma autorização para publicar, numa Antologia, uma das crónicas do «Independente». Acabou por ma dar, mas tive que comer com ele uma lampreia, se há coisa que eu mais deteste. Ficámos amigos, mesmo àquela distância de nascimentos («O meu tempo é ainda o do naufrágio do Titanic», escreveu ele), que tecnicamente lhe permitia ser meu avô, bisavô do Luís Rainha e trisavô do Valupi. Do Jorge Mateus não sei, e não ouso imaginar.

O dr. António tem um blogue. Sim, viram bem. Julgava-me eu velho para isto, e há destas alegrias. Verdade seja que o mantém com os textos da «Notícias Sábado» – e, como blogspot, não é nada our cup of tea -, mas continua legibilíssimo. Além de só recomendável para espíritos com estômago. Ora vejam.

«O velho doutor Homem (meu pai) gostava de relembrar, a propósito dos assuntos mais diversos, que nem tudo tem de ter sen­tido na nossa vida; esta afirmação causaria danos fatais nos espíritos modernos, habituados a terem explicações para quase tudo. Mas, felizmente, o velho advogado e bibliómano não chegou a ouvir os psicanalistas da nova geração nem assistiu a nenhuma arenga do dr. Louçã. A minha sobrinha Maria Luísa, que vota no Bloco de Esquerda, acha graça ao ar professoral do cavalheiro e garante que, se é para ser professor, então que seja um destes, convencido de que estudou a lição e de que não pode senão ministrá-la a um auditório de eleitores. Esta forma quase absurda de positivismo enternece-me. Lembro-me do optimismo de cavalheiros de outrora, do demagogo Afonso Costa à alegria suspeita de António Ferro, e reconheço que os sinais se mantêm – a certeza absoluta, um grau elevado de infalibidade, o riso sobre as opiniões que ou não entende ou não Ihe chegam à altitude do seu magnifico cérebro, conservado pelas leituras dos mestres e pela subserviência dos seguidores».

Surpreendente? Pois é, quem nos manda ser jovens. «Um velho conservador», avisou ele, «nunca se surpreende com a história».

23 thoughts on “O decano de todos nós”

  1. Também eu ainda recordo as crónicas dum velho reaccionário minhoto no independente. E ainda há pouco tempo regressei ao livro. Não sabia do blog nem que escrevia na sábado, obrigado pela informação. Li o Tristam Shandy por causa dele – um entre muitos motivos para estar eternamente grato ao velho Dr. Homem.

  2. Um obrigado para Pedro Oliveira. O seu comentário [apagado por sua sugestão] foi precioso, e nada «picuinhas».

  3. Meu caro Venâncio,

    Muito obrigado pela sua lampreia de post e convite a visitar a montra de ideias e recordações do velhote, mas, espere aí!, não tão velhote que se distancie quatro gerações do Valupi. Trisavô dum neo-capitalista que chama “rapaz” ao Dan Brown revela, talvez, intenção de gozo ou convite ao mexerico da sua parte.

    Quanto ao Homem (apelido interessante: pense-se numa hipotética senhora chamada Maria Homem, ilustre humanista e defensora de nivelamento entre os sexos) pouco há a dizer. Prosa anódina e repousante, como peixe não reimoso grelhado que cai bem em qualquer estômago, independentemente das convicções políticas ou da ideia normalmente errada que se faz deste mundo.. Restos de salazaristas saudosos e pedreiros-livres de meia-idade terão, sem dúvida, prazer em lê-lo e pouca dificuldade em assimilar os “nutrientes” das palavras ponderadas que convidam ao sono regalado depois dum dia estafante de politiquices aldrabonas. Eu também gostaria de ser assim, calmo como o provecto senhor, mesmo que tivesse de gastar a miserável tença em comprimidos, mas, infelizmente, este malvado bicho carpinteiro é crónico e incurável.

    TT

  4. Fernando,

    “o velho doutor Homem, meu pai” surge normalmente duas a três vezes por crónica. Já desisti de as ler, é um exercício muito penoso. Por uma vez estou de acordo com o Tio Tadeu.

    Nessa revista mantenho-me fiel ao Pedro Mexia, apesar de, ao que parece, lhe ter sido recomendado que levasse a melancolia para outras paragens.

  5. Cláudia,

    Pois digo-lhe mais: segundo informações – exclusivíssimas – do próprio, o blogue foi-lhe disponibilizado, em ‘leasing’ imagino, por outro bloguista, certo Sérgio Aires, que por acaso até tem um blogue próprio basto baril, este:

    http://destaque-a-amarelo.blogspot.com/

    De resto, deixe lá o velhinho referir-se tão cerimoniosamente ao papá. Estão-se a perder maneiras – já não se diz «a senhora minha mãe», e não era tão lindo? – e ele apenas compensa as perdas.

    Mande sempre.

  6. Tiozinho,

    Longe de mim mexericar, você sabe. Repare, se não reparou (e isso seria incrível em si), que eu disse que «tecnicamente» o Homem podia ser trisavô do Valupi e (aproveito para acrescentar) também do Zé Mário.

    Esse «tecnicamente» tem que ser respeitado. Um gajo aos doze anos, ponhamos aos quinze, já pode ser pai. Não exagerei, pois, mesmo sabendo-se que o Homem nasceu em 1920. Ele é que exagera, dizendo-se do afundamento do Titanic, o que é uma grande, mas essa muito grande, liberdade poética.

  7. Não se amofine, senhor. Como eu não inventei nada, posso concluir que o post inicial do blog do Dr. Homem é enganador.

  8. Eu não me amofino por tão pouco, senhora. «Enganador» parece-me o termo exacto. Há qualquer coisa que não bate certo com este Homem. Sinto-o na minha água, diria um holandês, referindo-se, julgo, aos fluidos que nos percorrem.

  9. Passando por aqui, aproveito para confirmar que sou de facto o responsável pelo blogue onde são inseridas semanalmente as Crónicas do António Sousa Homem. A organização deste arquivo foi naturalmente autorizada pelo próprio ASH.

  10. Atendendo à idade do senhor, e só por isso, eu deveria ter-me abstido de comentar o seu post, a menos que fosse para corroborar as suas palavras, não é Fernando? É capaz de ter razão. Mea culpa. Se achar por bem apagar os meus comentários eu compreendo.

  11. Ó Cláudia, por quem é! O senhor, venerando como está, tem ainda assim – ou talvez por isso – um ‘fair play’ que já não se usa hoje, garanto-lho. Não se apaga nada, qual!

  12. Fernando,

    O senhor acrescentou um parágrafo ao seu comentário das 12.56 ou estou a precisar de descanso?

  13. Não era necessário agradecer.
    Possuo o livro: «Os Ricos Andam Tolos» e leio as crónicas do Dr. Homem com agrado, admirando a mestria que o cronista emprega no manejo da língua, da nossa língua.

  14. Eu lembro-me das crónicas do Dr. Sousa Homem – deliciosas, mas por vezes um pouco repetitivas – da revista Grande Reportagem, não do Independente. Entre 2001 e 2003, pelo menos, apareciam na revista deirigida por Francisco José Viegas.
    Eu vou para Moledo desde sempre, e não só no Verão (quase que nasci lá), conheço a terra de lés-a-lés, e nunca antes de ver as crónicas tinha tido conhecimento da existência do “velho conservador”. Presumo que more lá em cima na feguesia, ou seja, na chamada “Moledo-aldeia” (em contraposição a Moledo-praia). No feriado de 1 de Maio almoçei lá e pensei se nenhuma daquelas casas próximas da igreja paroquial seria a morada do Dr. Sousa Homem.
    E lá me roubou o Fernando a ideia que eu tinha para um post…

  15. João Pedro,

    Muito obrigado. O nome do monte está corrigido, e até melhor do que você supunha, talvez. O nome galego (portanto o oficial em topónimos da Galiza) é aquele, SANTA TEGRA.

    Depois, sim, decerto. O Dr. Homem publicou crónicas na «Grande Reportagem». Mas anteriormente tinha-o feito no «Independente», onde também o Francisco José Viegas cronicava, sobre ervas, condimentos e afins.

    Aliás, já reparou que onde escreve o Dr. Homem escreve também o Viegas?

  16. é verdade, na Galiza o nome é Santa Tegra. Mas sempre me habituei a cahmar-lhe Santa Tecla, mais comum por cá.

    Ignorava que o Dr. sousa Homem tivesse escrito no Independente, assim como FJV. Mas as datas batem cert; julgo que ele só terá surgido na GR por volta de 2002, quando a mesma já era dirigida por Viegas. É caso para pensar que ao lado das memórias de um “velho minhoto” podemos sempre encontrar sugestões de charutos, cervejas e cozinha.

  17. Sérgio Aires,

    Seja simpático, conte-nos lá como – ou em que termos – o Dr. Sousa Homem lhe sugeriu, ou propôs, a criação desse blogue. É curiosidade da mais pura. Faz-me espécie um tão idoso senhor pensar, sim, pensar sequer em servir-se destes exactos meios, mesmo tendo tanta excelente coisa para dizer.

  18. Quanto ao topónimo Tegra correctamente reabilitado na Galiza, devrá corresponder, julgo, o nosso Tecla consagrado por uso secular. Não é porque os chineses denominam a cidade de Pequim por Beijing que nós vamos de imediato redenomiar os nossos mapas.

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