Custa dinheiro? Claro!

Marco, ainda não percebi o que está, afinal, a criticar. A existência das obras per se ou as derrapagens e o crónico desgoverno financeiro que, infelizmente, as tem pautado a todas.

Todas essas obras que menciona não se limitam a “encher” o olho. São obras estruturantes na Sociedade portuguesa, que a enriquecem de uma forma que muito ultrapassa o valor “nominal” em euros. Quero dizer, claro que estamos a onerar as “futuras gerações” mas, caramba, não lhes estamos também a deixar algo tangível?

Repare: se tiver uma empresa e quiser aumentar / melhorar a capacidade produtiva o que é que pode fazer? Investir. Comprar equipamento novo, formar os trabalhadores, expandir as instalações. Custa dinheiro? Claro!

Obviamente, dou-lhe toda a razão quando falamos na forma como se adjudica ou se financiam estas obras. Penso, contudo, que não terei de lhe dizer que isso não é exclusivo da Maria da Lurdes Rodrigues. Inclua aí todos os governos até à data, incluindo (de forma não dispicienda, bem pelo contrário, as autarquias, esses sorvedouros “understated” de dinheiro público). Ora é isto que tem de ser mudado. E a mudança não é apenas imputável aos Governantes A ou B, mas também a todos os decisores e gestores de dinheiro público. Começa nas resmas de papel no escritório da repartição e acaba nas concessões das auto-estradas.

O que é nojento – e tenho de apoiar o Valupi – é a forma como se tenta perverter aos projectos unicamente para tirar dividendos políticos imediatos. Ao optar por nunca reconhecer o objectivo virtuoso do programa (pelo contrário, apresentando-o sempre como um desperdício de dinheiros públicos), o deputado do PCP está a alinhar com aqueles para quem, justamente, argumentam que escola pública “para quem é bacalhau basta”.

A discussão política tem de ser sempre assim maniqueísta?

No que isto redunda hoje é na aparente resignação das pessoas à política de pladur. Por agora. Apontemos os dedinhos ao Sócrates, à Milú e à restante xuxaria. O problema é que, ao expiar assim os “culpados”, não só estamos a retroceder, com o modelo de desenvolvimento reaccionário que hoje nos aplicam (o BE e PCP bem podem limpar as mãos à parede), como evitamos confrontar os presentes e futuros governos (e próprias responsabilidades pessoais) com uma cuidadosa introspecção acerca do uso e da legitimidade dos dinheiros públicos.

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Oferta do nosso amigo Gonçalo

One thought on “Custa dinheiro? Claro!”

  1. Gonçalo,

    estamos de acordo em práticamente tudo, afinal. Poderia até subscrever todo este seu comentário, agora tornado Artigo (salvo pormenores irrelevantes).

    Quanto à pergunta que me dirige no seu primeiro parágrafo, pensei que tinha ficado claro que eu não estou contra as obras feitas em si, descontando certos aspectos das mesmas (que não me parecem sequer importantes para entrarem neste nível da discussão), nem estou sequer, em princípio, contra o facto de se ter criado uma Empresa paralela ao Ministério para as executar! O que eu critico é que uma tal decisão, que me parece altamente arriscada (e a duplicação de funções públicas traz problemas vários, dos quais o financeiro é apenas uma das vertentes a considerar), não ter merecido uma resposta convincente e segura por parte da Ministra! E estou a falar apenas deste vídeo do Inquérito Parlamentar, mas poderia falar de todas as decisões mais polémicas da ex-Ministra da Educação, com as quais me congratulei quase sempre, e que até pelo arrojo e o alcance que tiveram mereciam não só uma defesa convicta e firme, como sobretudo um muito maior envolvimento público, em particular com os actores e os principais interessados, que o Ministério da Educação infelizmente nunca soube assegurar – com mais do que óbvio prejuízo prático para a apreciação global do desempenho dos excelentes Governos de José Sócrates!

    Espero que agora tenha ficado claro o que é que eu critico: que algo de tão positivo e necessário, como a modernização e ampliação das Escolas Públicas do Ensino Secundário, se tenha assim realizado quase “em segredo”, sem a devida divulgação e enaltecimento públicos, o que foi de facto uma pena – até porque a Ministra está profundamente equivocada quando profere aquela infeliz frase de que “a «Parque Escolar» foi uma Festa”, sobretudo porque PODERIA E DEVERIA TER SIDO, não fora o seu autismo suicida e arrogante, que conduz agora a este lastimável espectáculo de ver um projecto de grande valor arrastado pelas ruas da amargura não pelos objectivos em si, mas pela falta de transparência dos seus métodos! Péssima pedagogia democrática, logo quando tanta falta ela nos faz…

    Lamento ter mesmo de chegar à conclusão de que a Maria de Lurdes Rodrigues daria uma óptima Ministra, sim, mas num qualquer Governo fascista ou comunista. Uma espécie de Duarte Pacheco… Só que, em Democracia, como dá a entender e muito bem o João Viegas, o Cidadão não pode ser tratado como um atrasado mental.

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