Chegar a bom porto

Desta vez estive nos Aliados no meio de um mar de gente. A ex-classe média e os mais desfavorecidos reencontraram-se na praça e na rua. Diz quem costuma vir que há muitos anos que não via coisa assim. Claro que também havia por lá o tradicional folclore da esquerda radical, mas a coisa foi tão desorganizada que penso que ninguém se sentiu constrangido ou manipulado. Famílias inteiras, avós, pais e netos. Diversos amigos e conhecidos, alguns das proveniências políticas mais improváveis. Muito civismo, mas também bastante desespero. Pessoas a procurar manter a dignidade, mas a contenção parece estar no limite.

E agora? A situação parece estar num impasse. Passos pode tentar o truque do “ouvi o País, recuo e até remodelo”. Mesmo com a colaboração dos inefáveis spins de serviço da direita na comunicação social portuguesa, parece-me muito difícil que a generalidade da população volte a acreditar na suposta credibilidade desta gente séria e competente como Passos, Relvas ou Gaspar. Se havia algo que unia a generalidade dos participantes na manifestação de ontem era a necessidade de afastamento deste Governo. O recuo nas principais medidas anunciadas significaria também que Cavaco e Portas ganhariam este round por KO a Passos e a Gaspar. Gaspar, na melhor das hipóteses, ficaria a prazo, antes de se acolher no banco mais a jeito. Passos ficaria à guarda de Cavaco e de Portas, ao abrigo da lei da proteção dos menores. O Governo, mesmo com alguma cosmética, ficaria com um Primeiro-ministro semimorto a apodrecer em “modo Relvas”. O País, mais tarde ou mais cedo, ficará ingovernável.

Há a hipótese de se devolver a palavra aos cidadãos. Neste momento, em cima da decisão do orçamento para o próximo ano, com a fragilidade das lideranças de Passos e de Seguro, arriscamo-nos a ficar pior, com a legitimação de soluções vazias, impreparadas e precárias, gerando uma situação pós-eleitoral ainda mais confusa e instável, numa palavra, ingovernável. O impasse agravar-se-ia e, com a população desesperada, teremos um campo fértil para todos os populismos de direita, de esquerda, ou dos candidatos a Berlusconis que por aí espreitam.

Existe, ainda, o cenário do Governo de iniciativa Presidencial. Se a maioria da população e os principais partidos confiassem no juízo do Presidente, poderia ser, nesta fase, uma solução minimamente razoável. É certo que as medidas que nos esperam são muito difíceis de assumir sem uma forte legitimidade eleitoral. Mas, com um Presidente com grande reconhecimento e empatia nacional e um Governo minimamente equilibrado e competente, a coisa poderia compor-se.

Infelizmente, saiu-nos Cavaco na rifa. Cavaco poderia tentar um golpe de asa com a dupla Rio – Costa. Embora com diversas posições que me preocupam bastante, Rio e Costa são dos poucos que ainda me parecem neste momento ter as condições mínimas para conduzir este barco de malucos no meio desta brutal tormenta. Isso significaria, na prática, um golpe de estado Presidencial para afastar Passos e Seguro das lideranças do PSD e PS, o que, com a atual fragilidade de Cavaco e conhecendo como funcionam os partidos, me parece extremamente improvável.

Assim, muito provavelmente e porque no fundo sempre desejou continuar a ser o eucalipto do regime, assistiremos nesse cenário ao regresso do ventríloquo Cavaco, liderando, por interposta pessoa, o que resta da tralha cavaquista e da tropa fandanga do Pingo Doce. É certo que Ferreira Leite, Bagão Félix, ou Vítor Bento nos parecem neste momento criaturas extremamente equilibradas e de uma competência a toda a prova quando comparadas com Passos, Relvas ou Seguro. No entanto, na melhor das hipóteses passaríamos do vazio de ideias de Passos, Relvas ou Seguro para o bafio das receitas das pseudo-elites decadentes como Ferreira Leite, Bagão Félix, ou Vítor Bento. E, mais cedo, do que mais tarde, a população, cada vez mais desesperada, descobrirá que, afinal, o Governo da iniciativa de Cavaco é mais do mesmo e, aí, não será apenas o Governo a cair.

Ah, sim, e há também aquela coisa da Europa. Ou isto se resolve em termos europeus ou então, simplesmente, por muito competente que seja qualquer governo português, isto tem tudo para correr mal. Sim, claro que desejo com todas as forças estar enganado. E são manifestações genuínas e com elevado civismo como as de ontem que me dão, apesar de tudo, uma réstia de esperança que é possível chegarmos todos a bom porto.

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Oferta do nosso amigo JP1

13 thoughts on “Chegar a bom porto”

  1. “teremos um campo fértil para todos os populismos”

    José Sócrates prometeu criar 150 mil postos de trabalho.

    Agora já seriam precisos pelo menos 500.000. Talvez o Zé Seguro ou A. Costa possam chegar-se à frente na altura certa e prometê-los.

  2. por muitos que o costa ou o seguro prometam o passos garante destruir muitos mais com a colaboração activa da central que recebe % nas indemnizações. o que nos tem valido são os postos de trabalho que o gerómino e o louceiro têm criado.

  3. joão, josé socrates,criou 130 000 postos de trabalho.a crise levou-os! só não havia crises nos paises pseudo comunistas!mais tarde todos descobrimos que era tudo mentira.veja os ordenados minimos da generalidade desses paises e fica a perceber o que os anos de social fascismo lhes deixou como legado.Muitas empresas do nosso pais foram deslocalizada para leste do paraiso.Não foram ainda resgatados,porque os anos de miseria “habituou-os” à austeridade.

  4. Também estive nos Aliados no meio de um mar de gente.

    E como diz Aquiles no canto XX da Ilíada: ” até os tolos percebem factos”.

    Será que o tolo do Passos é o único tolo que não percebe?

  5. João., tu que pareces tão bem informado, e tão justo, consegues dizer-nos quantos desses 150 mil empregos prometidos foram criados? 100 mil? 50 mil? 10 mil? Mil? Cem? Um? Nenhum? Conta-nos lá. Se não souberes, manda o primeiro número que te aparecer no bestunto.

  6. João, a população já deixou de engolir essa. Passa para outra que essa já era. Concentra-te apenas no governo actual que bem precisa, e que em matéria de promessas diga-se de passagem, já vai destacadíssimo e isolado e ainda à 1 ano começou a corrida.

  7. O Sócrates não prometeu. Tinha como objectivo. Objectivo não é promessa. Viste mal, João. Vai lá ler o cartaz outra vez…

  8. não fui eu a escrever, mas não acrescentava nem tirava uma palavra:
    http://domingosamaral.com/32021.html
    (antecipadas desculpas alheias às senhoras mais sensíveis que não gostam de ler palavrões, sobretudo quando vindas de mulheres…e que acham que é falta de auto-respeito, também há aqui disso, no aspirina, abençoado)

    “Vão-se foder.
    Na adolescência usamos vernáculo porque é “fixe”. Depois deixamo-nos disso. Aos 32 sinto-me novamente no direito de usar vernáculo, quando realmente me apetece e neste momento apetece-me dizer: Vão-se foder!
    Trabalho há 11 anos. Sempre por conta de outrém. Comecei numa micro empresa portuguesa e mudei-me para um gigante multinacional.
    Acreditei, desde sempre, que fruto do meu trabalho, esforço, dedicação e também, quando necessário, resistência à frustração alcançaria os meus objectivos. E, pasme-se, foi verdade. Aos 32 anos trabalho na minha área de formação, feliz com o que faço e com um ordenado superior à média do que será o das pessoas da minha idade.
    Por isso explico já, o que vou escrever tem pouco (mas tem alguma coisa) a ver comigo. Vivo bem, não sou rica. Os meus subsídios de férias e Natal servem exactamente para isso: para ir de férias e para comprar prendas de Natal. Janto fora, passo fins-de-semana com amigos, dou-me a pequenos luxos aqui e ali. Mas faço as minhas contas, controlo o meu orçamento, não faço tudo o que quero e sempre fui educada a poupar.
    Vivo, com a satisfação de poder aproveitar o lado bom da vida fruto do meu trabalho e de um ordenado que batalhei para ter.
    Sou uma pessoa de muitas convicções, às vezes até caio nalgumas antagónicas que nem eu sei resolver muito bem. Convivo com simpatia por IDEIAS que vão da esquerda à direita. Posso “bater palmas” ao do CDS, como posso estar no dia seguinte a fazer uma vénia a comunistas num tema diferente, mas como sou pouco dado a extremismos sempre fui votando ao centro. Mas de IDEIAS senhores, estamos todos fartos. O que nós queríamos mesmo era ACÇÕES, e sobre as acções que tenho visto só tenho uma coisa a dizer: vão-se foder. Todos. De uma ponta à outra.
    Desde que este pequeno, mas maravilhoso país se descobriu de corda na garganta com dívidas para a vida nunca me insurgi. Ouvi, informei-me aqui e ali. Percebi. Nunca fui a uma manifestação. Levaram-me metade do subsídio de Natal e eu não me queixei. Perante amigos e família mais indignados fiz o papel de corno conformado: “tem que ser”, “todos temos que ajudar”, “vamos levar este país para a frente”. Cheguei a considerar que certas greves eram uma verdadeira afronta a um país que precisava era de suor e esforço. Sim, eu era assim antes de 6ª feira. Agora, hoje, só tenho uma coisa para vos dizer: Vão-se foder.
    Matam-nos a esperança.
    Onde é que estão os cortes na despesa? Porque é que o 1º Ministro nunca perdeu 30 minutos da sua vida, antes de um jogo de futebol, para nos vir explicar como é que anda a cortar nas gorduras do estado? O que é que vai fazer sobre funcionários de certas empresas que recebem subsídios diários por aparecerem no trabalho (vulgo subsídios de assiduidade)?… É permitido rir neste parte. Em quanto é que andou a cortar nos subsídios para fundações de carácter mais do que duvidoso, especialmente com a crise que atravessa o país? Quando é que páram de mamar grandes empresas à conta de PPP’s que até ao mais distraído do cidadão não passam despercebidas? Quando é que acaba com regalias insultosas para uma cambada de deputados, eleitos pelo povo crédulo, que vão sentar os seus reais rabos (quando lá aparecem) para vomitar demagogias em que já ninguém acredita?
    Perdoem-me a chantagem emocional senhores ministros, assessores, secretários e demais personagem eleitos ou boys desta vida, mas os pneus dos vossos BMW’s davam para alimentar as crianças do nosso país (que ainda não é em África) que chegam hoje em dia à escola sem um pedaço de pão de bucho. Por isso, se o tempo é de crise, comecem a andar de opel corsa, porque eu que trabalho há 11 anos e acho que crédito é coisa de ricos, ainda não passei dessa fasquia.
    E para terminar, um “par” de considerações sobre o vosso anúncio de 6ª feira.
    Estou na dúvida se o fizeram por real lata ou por um desconhecimento profundo do país que governam.
    Aumenta-me em mais de 60% a minha contribuição para a segurança social, não é? No meu caso isso equivale a subsídio e meio e não “a um subsído”. Esse dinheiro vai para onde que ninguém me explicou? Para a puta de uma reforma que eu nunca vou receber? Ou para pagar o salário dos administradores da CGD?
    Baixam a TSU das empresas. Clap, clap, clap… Uma vénia!
    Vocês, que sentam o já acima mencionado real rabo nesses gabinetes, sabem o que se passa no neste país? Mas acham que as empresas estão a crescer e desesperadas por dinheiro para criar postos de trabalho? A sério? Vão-se foder.
    As pequenas empresas vão poder respirar com essa medida. E não despedir mais um ou dois.
    As grandes, as dos milhões? Essas vão agarrar no relatório e contas pôr lá um proveito inesperado e distribuir mais dividendos aos accionistas. Ou no vosso mundo as empresas privadas são a Santa Casa da Misericórdia e vão já já a correr criar postos de trabalho só porque o Estado considera a actual taxa de desemprego um flagelo? Que o é.
    A sério… Em que país vivem? Vão-se foder.
    Mas querem o benefício da dúvida? Eu dou-vos:
    1º Provem-me que os meus 7% vão para a minha reforma. Se quiserem até o guardo eu no meu PPR.
    2º Criem quotas para novos postos de trabalho que as empresas vão criar com esta medida. E olhem, até vos dou esta ideia de graça: as empresas que não cumprirem tem que devolver os mais de 5% que vai poupar. Vai ser uma belo negócio para o Estado… Digo-vos eu que estou no mundo real de onde vocês parecem, infelizmente, tão longe.
    Termino dizendo que me sinto pela primeira vez profundamente triste. Por isso vos digo que até a mim, resistente, realista, lutadora, compreensiva… Até a mim me mataram a esperança.
    Talvez me vá embora. Talvez pondere com imensa pena e uma enorme dor no coração deixar para trás o país onde tanto gosto de viver, o trabalho que tanto gosto de fazer, a família que amo, os amigos que me acompanham, onde pensava brevemente ter filhos, mas olhem… Contas feitas, aqui neste t2 onde vivemos, levaram-nos o dinheiro de um infantário.
    Talvez vá. E levo comigo os meus impostos e uma pena imensa por quem tem que cá ficar.
    Por isso, do alto dos meus 32 anos digo: Vão-se foder”

  9. Estão com pressa, muita pressa:

    Paris, França 13/09/2012 21:24 (LUSA)

    Paris, 13 set (Lusa) – O secretário de Estado das Comunidades, José Cesário, afirmou hoje que a RTP internacional tem “uma programação lamentável”, considerando que o canal “tem sido o parente pobre da RTP” e só a privatização poderá resolver o problema.

    José Cesário participou durante a tarde na iniciativa “Entrevista Pública”, organizada na rede social facebook pelo LusoJornal, um semanário dirigido à comunidade portuguesa em França e na Bélgica.

    “A RTP internacional tem realmente uma programação lamentável. Sinceramente, penso que só no contexto da privatização total ou parcial da [televisão] pública essa questão poderá ser resolvida. Até hoje, a RTPi tem sido o parente pobre da RTP pública, que a tem desprezado”, disse.

    O secretário de Estado fez a afirmação em resposta às questões colocadas pelo diretor do semanário, Carlos Pereira, sobre “as críticas que as comunidades fazem” a este canal.

    José Cesário afirmou ainda que as permanências consulares conseguem superar “parcialmente” o encerramento de diversas representações consulares em França registadas nos últimos anos (no início deste ano o Governo encerrou os vice-consulados de Clermont-Ferrand, Nantes e Lille).

    O governante considerou que “é impossível responder com eficácia a todas as comunidades” portugueses residentes no país, algumas a viver “a milhares de quilómetros do consulado mais próximo”.

    Contudo, defendeu o trabalho que tem sido feito pelo Governo: “Neste momento, por exemplo, está a realizar-se uma permanência em Bourges. Nunca lá houve qualquer consulado e há muitos portugueses”, acrescentou.

    “A rede consular está a evoluir em todos os países do Mundo. Cada vez se justifica menos ter escritórios fixos, tendo em conta a grande mobilidade das nossas comunidades. Por isso a nossa aposta passa por ter alguns bons consulados e uma rede eficaz de permanências consulares, que nos está a levar a imensas cidades onde nunca apoiámos as respetivas comunidades”, concluiu José Cesário.

    JYF.

    Lusa/fim.

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