Cavaco, a grande esperança da nossa cultura

Paulo Tunhas, no Pulo do Lobo (nome bem apropriado à candidatura de Cavaco) expõe com candura o seu fraco apego à verdade e a sua elegância como argumentador. Pega numa frase de Francisco Louçã — “O que faz falta em Portugal é abrir a cultura, destruir a ideia de que a criação da mediocridade populista é a cultura de que o povo precisa e de que o povo gosta” — e apresenta de seguida uma sua “tradução”, tão peculiar quanto antagónica do original. Ele lê nessa passagem uma insuportável ofensa ao “gosto das pessoas que Louçã apelida de ‘medíocres’ (e apelida-as mesmo assim, dado o seu preconceito de classe)”.
Como é claro a qualquer pessoa que saiba juntar umas palavritas, Louçã atacou sim a ideia de que o povo só gosta de coisas medíocres, não o gosto de ninguém e muito menos “pessoas”. Tunhas tenta, muito simplesmente, inverter o sentido das suas palavras! O alucinado cavaquista ainda consegue ler no desiderato de “abrir a cultura” um sinistro objectivo: ter uma “pintinha de direito de interferir no gosto das pessoas”. Tudo “opiniões obscenas” do “ensandecido bloquista”, claro está.
Tresler é uma bonita e menosprezada arte; e encontra em Pedro Lomba um fã entusiasmado que não se conteve em juntar logo o primeiro comentário laudatório a este disparate: “excelente”.
Excelente, há que reconhecer, é a ideia central do post: Cavaco Silva é “quem melhor está colocado” para ajudar a promover um reencontro dos portugueses com a cultura. Leram bem. O homem que nem jornais lê vai ser o messias da nossa vida cultural. Isto porque, ao contrário de Alegre e de Soares, “está livre”.
Lá isso aparenta ser verdade; a fazer fé nas entrevistas do homem, ele está 100% livre de qualquer resquício de coisas vagamente aparentadas com cultura humanista. Aliás, já teve ocasião para demonstrar o seu apreço por tais assuntos, quando primeiro-ministro: entregou-os às capazes meninges de Santana Lopes.

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