Autópsia Ideológica

O Público anuncia na sua capa novas revelações sobre o assassínio de Catarina Eufémia (provisoriamente para o jornal do Belmiro a camponesa de Baleizão ainda não foi “alegadamente” morta). Socorrendo-se de um dos médicos legistas que fez a autópsia, o jornal revela que ela não estava grávida. Apoiando-se no mesmo clínico, o diário lança dúvidas sobre a sua filiação no Partido Comunista Português: “Henrique Pinheiro (o médico legista) acredita ainda que Catarina não seria militante comunista”. Uma certeza tão absoluta do dito clínico deve-se certamente ao facto de não lhe ter encontrado nenhum cartão do PCP no estômago. A ciência médica anda tão avançada, há cem anos a esta parte, que provavelmente conseguirão garantir-nos, daqui a poucos anos, que o Sr. José Manuel Fernandes nunca foi maoista.

8 thoughts on “Autópsia Ideológica”

  1. Mas se lhe custa tanto a acreditar que o médico legista estaria certo no caso da Catarina, por que é que engoliu tão tão bem a “veracidade” da descrição dos uuuuus dos macacos no seu posto seguinte? Se eu fosse a si pedia ao correspondente do Le Monde Diplomatique em Baleizão para investigar esta teoria da conspiração anti-comunista. Obrigado pela atenção.

  2. Hmmm… porque quem nos fala dos “uuu” é uma testemunha especializada no assunto (futebol), enquanto que não se está mesmo a ver a vantagem de se ser médico legista para poder determinar com certeza se alguém é ou não militante de um partido…

  3. De facto estas teorias segundo as quais Catarina Eufémia não estaria grávida nem seria do PCP já enjoam.
    Será que essa gente não percebe que o que é aqui importante é que se tratou de um crime bárbaro praticado por gente ao serviço de uma ditadura terrível?
    Mesmo que Catarina não estivesse grávida nem fosse do PCP, era uma mulher desarmada que lutava por melhores condições de trabalho e foi cruelmente assassinada e é isso que é importante porque revela a natureza do regime salazarista.

  4. Hmm… Tem razão. Mas às vezes os médicos também gostam de armar ao detective e têm, julgo, tanto direito a esse passatempo como o resto, mesmo com o ferro de passados “fascistas” na pele.. Esse médico legista podia muito bem ter usado este raciocínio: “se o PCP afirma que a Catarina andava em estado de esperança na altura em que foi morta por uma rajada do Carrejola, que verifiquei não corresponder à verdade apesar das acusações que me fizeram, ninguém me pode criticar por concluir que isso é, no mínimo, uma indicação de que os stalinistas ou andavam a pensar noutra mulher ou a enfeitarem o conto. A confusão de nomes feita por eles na altura tambem não os ajudou nada. Antes pelo contrário. E já não me vou agarrar (ainda é o medico legista a dar voltas à cuca) ao facto duma outra organização da esquerda (a UDP) ter reivindicado mais tarde a Catarina como sua militante. Até se deitaram estátuas abaixo nesse processo”.

    Aceitando isto, ou algo parecido, não elimina completamente o impacte chistoso da sua observação sobre as provas de filiação no estômago, mas esfria um pouco a vontade para se travar uma discussão desapaixonada com mira a desfazer mitos e corrigir estórias.

    De qualquer forma, muito obrigado por me ter dado essa dica do maoista. Já tenho aqui uma colecção do caraças. A esquerda (sem desfazer dos escribas aqui do jornal) é uma rapariga que nunca pàra de mexer as ancas ao serviço da comunidade, e em politica as deslocações de grande significado e revelação são sempre para a direita, sempre para a direita, independentemente do partido onde se começa a recruta. Não sei onde é que isto vai parar em termos históricos, mas tudo indica que caminhamos a passos largos para a fusão politica derradeira que contentará as maiorias. Abençoada intriga.

    PS Subscrevo as palavras do Rui Neves, mas repare-se nesta “joia” metida neste debate por um cidadão espanhol neste debate o ano passado: os carabineiros da democracia italiana mataram de 1945 a 1960 50 trabalhadores e o fascismo português limpou o sarampo a 29 de 1933 a a 1974. Não sei onde é que ele foi buscar estes números, mas, se estiverem correctos provocam algumas dores de cabeça. Pelo menos a mim.

  5. Caro Andronicus,
    Agradeço as suas observações, apenas lhe faço notar que a UDP não existia antes do 25 de Abril, o que tornava difícil a Catarina Eufémia ser militante dessa organização.

  6. Sim, eu também me apercebi disso quando li o relato dessa batalha pela posse da memória da Catarina. Provavelmente alegaram postumamente as intenções da lutadora anti-fascista, caso o PC viesse a ser acusado de revisionista. Isto há malta para tudo. Mas como, em 1954, pouco depois da morte do Zé, com o Piteira Santos e o Lyon de Castro a afastarem-se do partido, e os fogos da denúnica do revisionismo ainda longe de começarem a ser ateados? Enfim, eles lá sabem…

  7. Quem ler o Andronicus fica com a ideia que o fascismo português só “limpou o sarampo” a 29.

    Talvez fosse bom recordar que só no Tarrafal morreram 32.

    O branqueamento é difícil de fazer, por muito Tide que se use.

  8. Teófilo,

    Tive a delicadeza de mencionar que os números não eram meus. Todavia, resta saber se alguns dos 32 camaradas que morreram no Tarrafal teriam sido vítimas de tifo ou malária e não de tiros, como parece ter acontecido na Itália, de acordo com esse senhor correspondente do Estudos do Comunismo. Nada de branqueamentos, concordo consigo.

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