Aspirinas

O Acaso pode favorecer a humanidade ?!…

A reestruturação dos modelos económicos assenta quase sempre na sua insustentabilidade, atingindo inevitavelmente a politica que lhes serve de suporte.

O neo liberalismo fez o seu caminho e deixou as suas marcas. Neste início de século, assistimos a mudanças talvez estruturantes, na economia e no bem-estar das populações. A par dos vários constrangimentos económicos que o mundo hoje vive, existe o flagelo dos desastres ambientais que populações já não perdoam, mesmo as menos afectadas.

O último grande desastre ambiental provocado pela BP no golfo do México é disso exemplo. Tanto quanto já é público, o problema deveu-se a falhas provocadas pela pressão desenfreada imposta pela gestão da BP. Sendo a extracção petrolífera feita cada vez a maiores profundidades, o aumento do risco faz-se sentir e quando juntamos a esse facto uma diminuição das medidas de segurança, temos os ingredientes indispensáveis para a eclosão da catástrofe. Lamentavelmente, a ganância especulativa tem para a gestão um peso superior ao desastre ambiental, porque o que verdadeiramente importa para estes gestores é remunerar accionistas, esquecendo que fazem parte dum planeta que já está em risco. Neste caso específico, o acaso talvez tenha feito um favor à humanidade. Não nos podemos esquecer que o lóbi americano tem sido fortíssimo, recusando sistematicamente medidas fundamentais em matéria ambiental. Esta é a ocasião imperdível de converter uma crise numa oportunidade.

Se as grandes catástrofes podem impulsionar novos paradigmas, o infortúnio ocorrido no golfo do México, vivido pelo mundo quase em directo, desencadeará politicamente, a disponibilidade para adoptar outra atitude.

As populações impuseram medidas reais à governação e ao presidente Obama. O nó cego que este tipo de energia impôs ao mundo, pode estar a ficar frouxo. Recordando as palavras do presidente Obama “está na hora de assumir uma politica de energias limpas”, classificando mesmo o problema em causa como o “11 de Setembro do ambiente”.

A BP terá as maiores dificuldades em sair deste problema. Se a sua falência for uma realidade, de que forma as restantes petrolíferas poderão ser afectadas, tendo em conta que a BP é a segunda maior petrolífera mundial, com mais de 265 biliões de dólares de facturação anual. Julgo que podemos estar perante dados completamente novos neste xadrez da especulação petrolífera.

Por outro lado, se este acidente desencadear um incidente no pipeline que liga a indústria petrolífera à indústria financeira, a que espécie de crise poderemos assistir?

Noutra perspectiva, a adopção de níveis de segurança mais sofisticados na extracção da matéria prima, desencadeará maior pressão ao nível do preço do produto final, o que estrangulará ainda mais as economias dos países (mais e menos desenvolvidos), que deixarão de olhar para as energias alternativas como uma aventura de quem não tem recursos energéticos fósseis, assumindo-a como fundamental nos seus processos de sustentabilidade económica.

O que está para vir é uma incógnita, mas tenho por convicção que mudanças de forma de conteúdo estão em desenvolvimento.

*

Oferta da nossa amiga Carmen

9 thoughts on “Aspirinas”

  1. Pois é isso mesmo: apostar nas energias limpas e renováveis. Parece que o «amaldiçoado» Sócrates é que tem razão. Entretanto, o chefe da oposição, de seu nome Cavaco, vai recebendo no seu palácio os Mira Amaral deste País que sonham com o nuclear.
    Isto é que vai uma calhandragem!

  2. É bem verdade, estamos perto do ponto crítico em que o ambiente será mais importante do que as divisões ideológicas, religiosas e étnicas. E isso será um regresso às mais remotas origens da Humanidade.

  3. Carmen, as questões ambientais vão ser sempre sacrificadas, o sol quando brilha não é para todos, mas podemos diminuir esse impacto ambiental (pegada ecológica).
    Enquanto for mais barato obter energia através dos combustíveis fósseis não faz sentido apostar em fontes de energia alternativas, de preferência, renováveis e limpas, a não ser que, tal como aconteceu no passado com o preço do barril de petróleo a atingir a barreira psicológica dos 100 USD, os governos comecem a pensar que não vale a pena ficarem reféns dos países produtores e dependentes do humor dos especuladores.
    O nosso País deu um salto enorme nesta área: o investimento na energia hídrica, eólica e solar tem sido considerável, nota-se que tanto colectivamente como individualmente a nossa mentalidade está a mudar (infelizmente, em alguns casos, a paisagem também), os veículos eléctricos são já uma realidade (preocupações ambientais), e os painéis solares começam a surgir um pouco por todo o País (preocupações económicas ?).
    No entanto, nestes dias, a sombra de Chernobyl e as toneladas de resíduos tóxicos e radioactivos produzidos pelas centrais nucleares tem-nos tentado tapar o sol, mas de Belém e de Cavaco também não é de esperar outra coisa a não ser nuvens negras.
    Enfim muito há a dizer sobre este tema se levar-mos em conta todas as ramificações políticas, económicas e ambientais.

  4. Tony Hayward, director-geral da BP terá afirmado aos congressistas norte americanos – “as questões de segurança não passam por mim” – e eu pergunto com muita singeleza:

    O director geral da BP não tem obrigatoriamente que conhecer um dos factores mais críticos deste negócio ???

  5. VM,

    As alternativas a este tipo de energia, têm sido subalternizadas por questões de conveniência e não por relações estratégicas, creio.

  6. Alexandre Herculano escreveu sobre a campanha de Napoleão na Rúsia, em que foi de vitória em vitória até à derrota final; “a chamada circunstância fortuita do inverno russo só é fortuita, enquanto um mais cabal conhecimento das leis meteorológicas não nos vier revelar .porque. o inverno de 1812 foi tão rigoroso”

    Voltaire é mais sintético mas menos assertivo, sobre o Acaso; “é o efeito conhecido de uma causa ignorada”

    Um pouco fora do contexto mas na minha opinião muito categórico e Albert Camus sobre o Absurdo; “é a razão lúcida que constata os seus limites”.

    Aprender até morrer!

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