«Traduzir galego»

No suplemento «Actual» do Expresso de ontem saiu este texto cá do Degas. Leia e trema.

Editar em português a literatura galega põe particulares exigências. A tremenda proximidade dos dois idiomas (ou das duas variedades de um só idioma) vem semear, a cada frase, escolhos ao tradutor. Muitos termos, muitas expressões, têm em galego um significado, ou um valor, ou uma carga, que não são os nossos. A própria morfologia cria problemas. O galego desconhece o nosso presente composto (em galego, «tenho lido» significa outra coisa), assim como ignora o mais-que-perfeito composto («tinha lido») e dá ao simples («lera») também sentido de perfeito («li»). Só o assíduo contacto com o galego escrito e falado pode guiar um tradutor.

Como se tal não bastasse, o galego actual, mesmo o literário, encontra-se repassado de castelhano. Tal como, um dia, sucedeu ao português. Mas as descoincidências connosco são inúmeras. Assim, um bom tradutor do galego tem de sê-lo, também, do espanhol. Esquecer isso é expor-se a riscos.

Li, recentemente, Ser ou Não, de Xurxo Borrazás (n. 1963), que a Deriva Editores, grande divulgadora entre nós das letras galegas, publicou. É um livro ousado, imensamente perspicaz, donde o mundo literário, o da escrita, mas também o do «marketing» e dos prémios, sai gostosamente desnudado.

A versão portuguesa é de Dina Almeida, com revisão de Isabel Ramalhete, mas o blogue do editor atribui à segunda a tradução, dizendo-a «rigorosíssima». Decerto, o português dela, ou delas, é nítido, desenvolto, a espaços brilhante. E a tradução do galego é, em si mesma, apurada. Mas labora num equívoco deprimente. Explico. Os galegos têm uma tolerância ao palavrão que nós desconhecemos e nos engana. Assim, e é um exemplo, o frequentíssimo «carallo» equivale, quase sempre, aos nossos «raio», «caraças», «carago», «diacho». Não mais do que isso. São, pois, imensamente inadequadas as passagens do tipo «um retiro do caralho», «A que caralho é que tu cheiras?», «a ti que caralho te interessa?», «Ao caralho! – exclamou o professor», e dezenas, dezenas de outras. O tradutor supor-se-á atrevido. Mas está apenas a ser ridículo.

Depois, há o material espanhol, já não questão de gosto mas de informação. Há centos de termos enganosos, os «falsos amigos», a pedirem cuidado. Que faltou a este livro. Aí damos com «apenas» (por «mal», «quase não»), «traje» (fato), «tópicos» (clichés), «compasso» (bússola), «Venha!» (Vamos a isso!), «noiva» (namorada), «chatear» (fazer um «chat»), «logro» (conseguimento), «colónia» (água-de-colónia), «prata» (dinheiro), «corrida» (ejaculação), «ovos» («tomates»), «por certo» (aliás), «escaparate» (montra), «torpe» (desajeitado), e mais, bastantes mais. Para quem recear um estado de coisas em que o espanhol desestabilizou definitivamente o português, este livro é um pesadelo.

Entenda-se-me bem. É importante conhecer espanhol, falá-lo com segurança, transmitir nele, com garbo, a cultura portuguesa. Mas, também, não ceder um milímetro do nosso idioma.

E quanto ao galego, mais isto. Tente conservar-se, onde for adequado, a coloração lexical ou idiomática do original. Não para que a absorvamos. Mas para que, tal como a brasileira, ela venha tocar-nos, serenamente, os sentidos e o entendimento.

37 thoughts on “«Traduzir galego»”

  1. nítido, claro, atento, sensato… sobretudo sensato este FV! é coisa que não abunda por aí, lamentavelmente, no campo da linguagem.

  2. Nem todos os galegos falamos em palavrões. Talvez a ausência de modelos cultos produz que os registos populares se extendam além do recomendável. Há “caralhos” demais nom só nas “traduções”, mas também nos originais, acho. Problema é: o regionalismo galego e o espanholismo acham engraçado e típico esse linguarejar porque na Galiza nom há consciência de que há diferentes registos de língua. E daí… O pessoal do Norte também tem fama desse género de “pronúncia”, não é? eles que digam…

    Já agora: as palavras: “É importante conhecer espanhol, falá-lo com segurança (…). Mas, também, não ceder um milímetro do nosso idioma.” deveriam ser antes aplicadas ao galego, mas tal parece os portugueses ainda preferem -no caso galego- olhar pra outro lado como se nom fosse da sua conta. Eu gostaria mesmo que nom criticassem apenas os castelhanismos nas adaptações e edições portuguesas… mas no próprio galego, claro. Na Galiza vivemos um “pesadelo desestabilizador” todos os dias e qualquer ajudinha será muito bem-vinda. Nem entendo porque os portugueses aceitam no dito galego o que jamais aprovariam na sua casa! olha que bem!

  3. Jagudi,

    Nada posso dizer-te que não me embarace. Obrigado.

    Py,

    Invejável! As tuas orações são logo ouvidas.

    Ferreira,

    Você queixa-se da falta de solidariedade dos portugueses, que se preocupariam, eles sim, com uma ameaça de castelhanismos no português.

    Deixe-me dizer-lhe (e a intervenção de Jagudi já o pôde alertar) que, aqui no país, quase ninguém pensa nos termos em que me exprimi. Talvez lhe interesse saber que 99% dos intelectuais portugueses ignora o desejo dos galegos de se libertarem do elemento castelhano no galego, e certamente 99,999% da população portuguesa nunca ouviu falar disso.

    Portanto, quando você fala dos «portugueses» que «aceitam no dito galego o que jamais aprovariam na sua casa», está a falar de portugueses inexistentes, já que a microscópica porção dos que sabem desta questão, e se preocupam com ela, estão exactamente do vosso lado!

    O problema, já crónico, é que uma parte de vocês, galegos, não pára de se queixar (tudo é sempre culpa da Xunta, ou do Estado espanhol, ou de Portugal), e isso tolda-vos o entendimento para perceberem os pequenos mas seguros apoios que aqui e ali, ainda assim, vos cabem. E isso, sim, é decepcionante.

  4. Ainda para Ferreira:

    Estive agora mesmo lendo notícias no portal galego Vieiros. E verifico (como sempre) a grande quantidade de termos galegos (e, de ponto de vista semântico, até exclusivamente galegos), cujos equivalentes correntes portugueses nós condividimos com os espanhóis.

    São os casos de «aturar» (por aguentar), «agromar» (por brotar), «agachar» ou «agochar» (por esconder), «acadar» (por alcançar, conseguir), «acougar» (por tranquilizar), «adoitar» (por costumar), etc., etc., e fico pelo «A» e só por alguns verbos.

    Porque é que uma parte considerável dos lusistas galegos se recusa a usar termos assim, genuínos e nada castelhanos? Será porque isso tornaria demasiado palpáveis as diferenças entre galego e português?

    Nós agradecemos jogo limpo, se puder ser.

  5. Caro FV:
    Para uma “galega do sul” (sou da “fronteira” entre o Minho e o Douro Litoral…) que faz parte dos 0,1% dos Portugueses que, conhecendo o tema, se revêem no que o FV escreve.
    Não, não é concordar por concordar nem, tão pouco, com intuito bajulador como alguns desfocados dirão.
    Eu não sou linguísta. Por isso, fico feliz quando vejo aqui transpostas com exemplos e a máxima clareza o que penso e repenso, ao que me faltam conhecimentos para passar a escrito duma forma minimamente inteligível….

    E, assim vou aprendendo e consolidando as minhas convicções reintegracionistas da Língua Galega na lusofonia. Entendendo lusofonia como o espaço linguísto colorido, com os diferentes matizes com que o tempo e as várias culturas presentes carinhosamente soberam dotar esse espaço.

    Também, o “achegamento”, o “reencontro” do Galego com o Português, desejável e inevitável, nunca deverá pressupôr o apagamento da Identidade Galega veiculada pela Língua e Culturas da Nação Galiza.

    Termino, citando a sua frase que de forma tão sentida encerra o carinho e respeito que a Língua e os nossos irmãos Galegos lhe merecem:

    ««E quanto ao galego, mais isto. Tente conservar-se, onde for adequado, a coloração lexical ou idiomática do original. Não para que a absorvamos. Mas para que, tal como a brasileira, ela venha tocar-nos, serenamente, os sentidos e o entendimento.»»

    Saúde e bom trabalho!

  6. Amigos de além-Minho:

    Sigo quanto posso –não quanto quero– os debates culturais últimos entre galegos e portugueses, e acho na sua existência um potencial para a Galiza (país, nação, comunidade de cultura, o que quer que seja) de primeiro ordem. Mas a situação nem deixa de ser complexa e mais talvez do que em ocasiões se reconhece.
    Muito difícil deve resultar para os portugueses topar com certas atitudes de galegos que, vendo a sua cultura progressivamente substituída pela castelhana, demonstram uma arrogância pouco amável e demasiado exigente com quem deles se aproximar com interesse sincero de debate. A língua galaica, em franca decadência, agonia em sua casa enquanto suas filhas legítimas nem a reconhecem como mãe. Isto é uma realidade, a meu ver, alimentada pelos gerentes actuais dos bens desta senhora, que desejam mais para ela uma morte «digna» e solitária.
    Uma realidade que, infelizmente, apenas a uma pequena parte de conscientes galegos preocupa. Estes últimos têm lutado até a altura contra esta doença com as armas de que dispunham, e entre elas a linguística europeia, que fundamenta a teoria reintegracionista. Ora, é preciso reconhecer que a realidade linguística não tem muito a ver com a realidade social. Este facto leva com demasiada frequência a acharem portugueses as atitudes galegas como paranoicas. Não pode ser de outro modo. Os galegos profundamente preocupados com este problema apresentam a sua fome de lusofonia salvífica com gritos e pancadas, como o nadador esgotado que mais parece desejar afogar do que ser resgatado pela equipa de salvamento.
    Assim as coisas, muitos galegos se acham entre uma dura realidade sócio-cultural adversa e a verdade científica (linguística) e, lutando com apenas uma adaga sem gume, alimentam as suas ânsias no fundamentalismo. Quer dizer, atendendo só a verdade fundamental (que acham linguística), e pouco as verdades circunstanciais (sociais). Neste sentido, tão injusto é os portugueses sofrerem o desespero dos galegos quanto os galegos sofrerem a anti-galeguidade que nasce, desde há séculos, à sua volta e ainda em sua própria casa.
    Uma atitude nova, mais equilibrada, estimo quer surgir na Galiza. Alicerçada na verdade de suas certas raízes, mas consciente da imagem oferecida ao exterior.

  7. Ferreira comenta: «Eu gostaria mesmo que nom criticassem apenas os castelhanismos nas adaptações e edições portuguesas… mas no próprio galego, claro. Na Galiza vivemos um “pesadelo desestabilizador” todos os dias e qualquer ajudinha será muito bem-vinda. Nem entendo porque os portugueses aceitam no dito galego o que jamais aprovariam na sua casa! olha que bem!»
    Eu concordo totalmente. Os castelhanismos, a maioria deles, sobejam tanto no português dialetal (castelhanizado) que costuma escrever-se na Galiza tanto quanto devem não ser usados no português normativo que costuma escrever-se em Portugal ou no Brasil.

  8. FV comenta: “Porque é que uma parte considerável dos lusistas galegos se recusa a usar termos assim, genuínos e nada castelhanos”

    Seguramente pq alguns pensam q esse 99,999% de portugueses q nao sabem nada da Galiza ja teriam trabalho dabondo com um texto em “perfeito portugues”” escrito desde a optica galega. Ou talvez por quererem ser “mais papistas q o papa”. Ou… sei la.
    Desde logo renunciar a isso e’ renunciar a’ riqueza da lingua comum, pq os brasileiros nao “agocham” nada, mais bem ao contrario! ;)

    Apertas.

    (desculpade a falta de acentos e demais)

  9. aturar, agachar, acadar estão nos dicionários portugueses.

    grumo = brote também

    En quanto aos outros enxebrismos, casticismos ou galeguismos (adoitar, acougar, etc.) haverá quem os use e quem não, segundo en que situação, umas vezes sim outras não.

  10. Ah, umha “galega do sul”, adorei! :) Beijinhos Miriam!

    Fernando,

    aturar, agachar, e acadar, etc…. nem devem ser “português corrente” mas som bom português (claro!) e os seus significados estám em qualquer dicionário “corrente” de português,:

    acadar: v. tr., ant., agarrar, alcançar,
    agachar: v. tr., esconder, encobrir;v. refl., curvar-se; abaixar-se para nom ser visto;
    aturar: v. tr., sofrer com paciência;suportar; tolerar;aceitar; aguentar;

    uso-os naturalmente já que 1) som comuns na Galiza -e acho que nom só, mas é que isso leva a:- 2) desconheço quase totalmente os usos maioritários (ou nom) da sinonímia da nossa língua além das minhas fronteiras nacionais (Galiza, claro), o que talvez seja ignorância minha mas é assim. Agromam as patacas (batatas) e brotam as ideias assim que acouga que nada temos contra termos assim de genuínos ou galegos, e nenhum lusista galego jamais escreveu contra deles ou polo seu banimento do galego comum… sempre surpreende esta preocupaçom: cede-se um milímetro ao “português” -no “galego”- e já és um lusista sem coraçom, cede-se quilómetros ao espanhol e publicas livros e relatórios castelhanizados em toda a parte e nom preocupa nunca… até que se “traduzem” a português porque som um perigo de castelhanizaçom, pois se é isso mesmo…

    Sinto nom poder explicar melhor, é isso aí, meus,… desculpade as gralhas e os erros

  11. Plácido e Ferreira,

    Uma resposta rápida (espero que consiga dar outra): eu comparo o que é «corrente» em textos cuidados galegos com o que é «corrente» em textos portugueses. Não comparo dicionários. (E, Ferreira, não há – infelizmente – um dicionário do português «corrente». Até um vocabulário, o do «Português Fundamental», dos anos 80, era uma desilusão, que eu tive, com pesar meu, de denunciar).

    Mas há mais: com a ajuda do dicionário, eu provo-lhes que português e espanhol são dialectos um do outro. Isso tira-lhes o sonho por uma semana, mas não venham depois queixar-se.

    Infelizmente, vocês vão ter que acreditar em mim, que eu não tenho vida para promessas dessas. Mas fiquem-se com «ventana», «polho» e «guapo». Não digo mais. Quero que durmam esta noite.

  12. … pois eu acho isto tudo muito engraçadom e até me faz cócegas no coraçom, agora ainda bem que parece que c*r*lho é tal e qual, porque há que evitar equívocos em coisas importantes! ;)

  13. já agora uma curiosidade: vocês aí na galiza dizem paisagem como nós, ou paisaje como em castelhano, ou têm alguma expressão própria e diferente para traduzir landscape?

    aperta :)))

  14. Destaco estas palavras do posting de Ferreira:

    “Agromam as patacas (batatas) e brotam as ideias assim que acouga que nada temos contra termos assim de genuínos ou galegos, e nenhum lusista galego jamais escreveu contra deles ou polo seu banimento do galego comum… sempre surpreende esta preocupaçom”.

    Não poderia concordar mais. Será esta uma profunda preocupação pelo estado da língua, ou pelos “lusistas”?

  15. Agá Temêle,

    Os «lusistas» nunca me preocuparam, sim o que eles fazem. E o que deixam de fazer.

    Agora faça-me você um favor. Dê-me exemplos de textos de «lusistas» (você e eu sabemos quem eles são, uma mancheia) e diga-me onde é que eles usam o galego genuíno – lexical, mas também semântico, e sintáctico, e fraseológico – e não só uns residuais «polo» ou «che» para descanso de consciências.

    A minha impressão (e eu leio sempre tudo o que eles escrevem) é imitarem o mais que podem a feição portuguesa do idioma. E eles conseguem-no, por Zeus, porque espertos ao menos são – ainda que por vezes à custa de divertidas (e para um linguista sempre esclarecedoras) hipercorrecções.

    Quero coisas concretas, sim? Nas formulações de princípios, todos somos uns santos.

  16. Senhor Fernando,

    Não escrevia para si, mas para Ferreira.

    Continue você com as suas teimas e com as suas minorizações (“você e eu sabemos quem eles [os lusistas] são, uma mancheia”). Tem todo o seu blogue para isto. Até pode escrever em alentejano genuíno.

    Isso sim: Nunca pergunte quem e quantas pessoas do reintegracionismo galego se poderiam identificar como “lusista”, ou a sua obsessão pode naufragar.

    E não se me esforce mais, meu senhor: eu fico por cá.

  17. Em http://chuza.org/historia/traduzir-galego/ (ver «trackback» acima) lê-se:

    O Fernando Venâncio crea debate no aspirina b a conta da traducción ao portugués de Ser ou Não, de Xurxo Borrazás como contan no suplemento Actual do Expresso: «…E quanto ao galego, mais isto. Tente conservar-se, onde for adequado, a coloração lexical ou idiomática do original. Não para que a absorvamos. Mas para que, tal como a brasileira, ela venha tocar-nos, serenamente, os sentidos e o entendimento».

    E há um comentário, que diz:

    «Discordo do que é dito sobre palavrões. No Norte de Portugal o seu significado e uso serão bem mais próximos aos galegos que aos do Sul do país.

    «Há até uma célebre sentença de um juíz de Braga que explica a um queixoso lisboeta que “filho da puta” em Braga é uma expressão que pode até denotar carinho, familiaridade, pelo que lhe recusou qualquer indemnização pelo vizinho o ter chamado precisamente de filho da puta».

  18. Agá Temêle,

    Não assobie para o lado. Qualquer pessoa – nem precisa de ser psicótico – percebe que, ali, os visados eram os meus pontos de vista. Aliás, o seu tom denuncia isso mesmo.

  19. O Venâncio sempre com a sua teima engraçada:
    “A minha impressão (e eu leio sempre tudo o que eles escrevem) é imitarem o mais que podem a feição portuguesa do idioma. E eles conseguem-no, por Zeus, porque espertos ao menos são – ainda que por vezes à custa de divertidas (e para um linguista sempre esclarecedoras) hipercorrecções”

    Eu eu pergunto-me como galego: Será porque o português de portugal e o da Galiza são a mesma língua?
    Porque será o Venâncio sempre a chamar a atenção para chamar de “perigosos” os galegos que com maior qualidade escrita tentamos escrever a nossa língua?
    Porque não arremete contra os Portuenses ou os Bragançanos que querem falar e escrever bem e ataca sempre os galegos que , até nem temos tempo para estes debates estéreis. A língua também é nossa, temos todo o direito de usá-la, quer de maneira culta quer “com o caralho sempre na boca”, temos direito, e não só: fazemos uso dia a dia no nosso país de inúmeros registos de língua escrita e oral. Algumas vezes falamos/escrevemos mais padrão, outras mais populare. Mas o venâncio só nos quer populares, genuínos, indígenas, quer dizer: diferentes da sua portuguesidade. Não repara em que a língua é a mesma, e nós lutamos para que os registos no futuro sejam os mesmos, eliminando o castelhano imposto por razões políticias que ocupa o lugar de “galego culto” e colocando, alguns de nós, o português padrão como possível “galego culto” (até porque ainda ninguém ofereceu outro melhor).
    Que pecado haverá nisso? Porque não nos concede esse direito, será que quebranta o seu conceito de identidade? problema seu. O nosso está muito claro desde há muito tempo. Somos galegos. Falamos português.
    Galiza é Lusófona!

  20. Py perguntou:
    “já agora uma curiosidade: vocês aí na galiza dizem paisagem como nós, ou paisaje como em castelhano”
    As palavras que acabam em -age(m) perderam o -m final na maior parte dos falares na língua popular: virge, paisage, mensage, garage….

    Mas em qualquer das normas cultas em uso (AGAL, Padrão Português)recuperarou-se há já alguns anos para o registo culto do galego -agem: paisagem, camaradagem….

    A respeito do som do “J” castelhano (como em “paisaje”), ele é estranho ao galego e só é usado em alguma palavra espanhola, sobretudo “joder” (foda-se) que as pessoas começaram a usar dentro do galego coloquial.

    Abraços

  21. Luiz,

    Teria sido melhor você ter lembrado que eu não falei dos «galegos». Falei dos «lusistas», que são uma quantidade microscópica no meio dos três milhões de galegos. Eles integram (informação que passo ao leitor português) um grupo já um tanto maior, o dos «reintegracionistas», aqueles galegos que desejam recolocar o galego no âmbito linguístico de que o português é a parte mais visível. Simplificando: um reintregracionista diz «o galego é uma língua lusófona», um lusista diz «o português é a língua da Galiza».

    É, pois, própria dum «lusista» a sua afirmação: «[…] colocando, alguns de nós, o português padrão como possível “galego culto” (até porque ainda ninguém ofereceu outro melhor)».

    Quem conhecer a situação da língua na Galiza – a sua invasão pelo castelhano, mas igualmente a sua irredutível genuinidade lexical e fraseológica – não pode deixar de ficar espantado, se não mesmo indignado, com tamanha e tão leviana fuga em frente. Mas é exactamente isso: a situação real linguística é de tal maneira caótica e de tão difícil gestão, que alguns, os «lusistas» (invocando, entre outros, o investigador e publicista português Manuel Rodrigues Lapa) desejam ver o padrão português feito «língua culta» da Galiza. Só não dizem como isso se fará exactamente. Mas outra solução não vêem, e também não na procuram.

    Toda a questão linguística galega está aqui, creio, na sua versão mais sucinta.

  22. Amigo Luiz,

    Obrigado pela tua mensagem. Já vês como o professor Venâncio continua a distorcer a realidade do que o lusismo significa na própria Galiza (isso sim, para melhor informação altruísta do “leitor português”). Ele distorce também o sentido de “reintegracionismo”, ignorando que grande número dos que se chamam assim, “reintegracionistas”, também afirmam sem qualquer reparo “o português é a língua da Galiza”. Como tu bem dizes, os lusistas e reintegracionistas (há quem, na Galiza, negue até a existência desta divisão) desejam para a língua portuguesa da Galiza, comumente chamada galego, exactamente o mesmo do que os portugueses desejam para a língua em Portugal: a unidade internacional da língua.

    Esta fragmentação propositada de pessoas e “línguas lusófonas” (português, brasileiro, galego) é, como sabes, uma teima insidiosa do professor Venâncio. Mas a lógica da fragmentação não tem final. Se o argumento forte do professor é que os lusistas são “uma quantidade microscópica” de pessoas, a evidência é que o professor Venâncio é uma quantidade ainda mais microscópica.

    Se o professor se limitasse à caça e captura de castelhanismos, em lugar de incorrer temerariamente na sociolinguística e na estandardologia (a disciplina que estuda os padrões linguísticos) da Galiza, acho que tudo iria melhor. Os galegos e galegas levamos pelo menos trinta anos (se não cem) a discutirmos intensamente a questão do padrão. Há uma longa história de textos e contextos, incluindo o laborioso contributo daquele galego de adopção que foi Lapa. Na questão da língua, o trabalho de Lapa nunca poderá ser considerado microscópico.

    Sei que receberei uma resposta provavelmente contundente do professor Venâncio. Mas calarei. Ele, como salvador, deve ter sempre a última palavra.

  23. Agá Temêle,

    Há duas ou três coisas que você tem que saber.

    1. Sou o único linguista português vivo que escreve com todas as letras que o galego e o português são a mesma língua.

    2. Sou – por isso – o único a lembrar que exactamente aí é que começam os problemas. Isto é: que a coincidência fundamental de galego e português como língua tem implicações vastas e consequências profundas. Ando há anos a tentar convencer disso os galegos. Mas há sempre levianos como você, e os outros «lusistas», que julgam que as coisas são simples.

    3. Fique descansado. Tendo em vista a minha idade, a maior das chances é que seja VOCÊ a ter a última palavra.

  24. conclusões pessoais:

    – parece-me que fica mal dizer que queria um pollo guapo na minha ventana

    – nom xabia que tinha tanta família…

    – ando preokupado porque 50% dos espanhóis andam a querer anexar-nos, ou pelo menos achavam graça à idéia, e parece que a má é Castela!

  25. “Mas há mais: com a ajuda do dicionário, eu provo-lhes que português e espanhol são dialectos um do outro. Isso tira-lhes o sonho por uma semana, mas não venham depois queixar-se.”

    Fernando, este debate está a pedir uma posta nova: a tal de tirar o sono e que me deixou bastante curioso! Aguardo.

  26. Não tens sorte, Gibel. Guardo seca a pólvora, enquanto me entretenho fazendo uma bela bomba. Vai ser um plof portentoso, mas não vai tirar o sono a ninguém, descansa. A malta até gosta que lhe batam.

    Ah, falamos espanhol, pensando falar português? Ou (em termos mais responsáveis) o português foi – após a cisão com a Galiza – construído sobre o modelo espanhol? What amazing! E lá vão dormir outra vez.

    Bom, concedo, até é uma ninharia.

  27. DESCUBRI O JOGO DO VENÂNCIO!!
    “1. Sou o único linguista português vivo que escreve com todas as letras que o galego e o português são a mesma língua.
    XD

    2. Sou – por isso – o único a lembrar que exactamente aí é que começam os problemas. Isto é: que a coincidência fundamental de galego e português como língua tem implicações vastas e consequências profundas. Ando há anos a tentar convencer disso os galegos. Mas há sempre levianos como você, e os outros «lusistas», que julgam que as coisas são simples. ”

    XD

    Agora percebi!
    ele é o único!
    afinal era isso, ser a autoridade portuguesa na matéria!
    Desestabiliço-me co riso meu!
    Escacho a rir a sério!

    Vou dar agora um susto de morte ao Venâncio, sobretudo por ser verídico.
    Aprendi a ler em português.
    Fui alfabetizado em português e castelhano a um tempo.
    Os meus pais foram desses perigosos “lusistas minoritários” que o Venâncio persegue.
    Agora eu pergunto-me o seguinte. Que espaço reserva o venâncio para nós, os impuros galegos que cometemos a ousadia de aprendermos português, o mais a sério que pudemos?
    Devo suicidar-me por isso “my friend”, sou um fundamentalista anti-galego?
    Não responda pois já conheço a sua resposta e você as minhas. Só escrevo aqui para discordar de você e alertar para o perigo do “fundamentalismo de estado” que você tem.
    Gosto das pessoas que respeitam os outros e outras realidades não como você que adequa ao que conhece o que não pode aceitar.

    Pois é, você é “ÚNICO”, a sério.

  28. Deixemo-nos de tretas, caramba!Sou português de Língua e de Espírito, nascido na margem esquerda do rio Minho e residente em Lisboa, portanto sobre esta malfadada orgânica política a que deram o nome de República Portuguesa! Agora, o que sinto, é que, há séculos, Senhores, a Galiza tem sido regeitada pelo seu falar próprio, que mais não é do que uma, ou até mais,porque não?, variantes de um sistema linguístico comum. De resto, dentro do território da República, não sucede algo idêntico com as diversa nuances de uma língua que se tem como uniforme, mas não é? Não é verdade a clivagem norte-sul, os “gozos”, mal humorados,note-se,muitas vezes utilizando-se a própria rede de televisão do Esatado, com a pronuncia do Norte, em particular de certas zonas da própria cidade do Porto, ou do Alentejo, não falando já do português popular nas regiões autónomas dos Açores e Madeira, que fazem parte da mesmíssima República Portuguesa? E quem se lembra em Portugal do “barrenquenho”, ou do “Mirandês” (agora nominalmente Língua co-oficial) esquecido quiçá pelos mesmos 99% de que fala Venâncio em relação ao galego? Já agora, o Padrão do Português é o do Rossio de Lisboa, ou o que se fala na vetusta Universidade de Coimbra, uma das mais nobres e antigas deste nosso espaço?Entendamo-nos: uma língua é viva e portanto dinâmica!Não é preciso ser especialista para perceber isso e se Camões, por exemplo diz que a “Minha Pátria é a Língua portuguesa”, isso só tem correspondência, hoje, se não se deixar de fora, de forma despropositada (para não afectar Madrid, ou Lisboa?, uma parcela importante, porque original e berço da Língua, do chamado Universo lusófono! Não foi Torga que se referiu à Galiza como “a Poruguesa Galiza”? estaria o escritor a refazer geopolítica? Não, esta questão não é estritamente política, é de âmbito socio-cultural e de fortes implicações semânticas! Deixemos esses arremedos de epítetos como os de “reintegracionismo” e afins: o que se pretende é que tanto Lisboa, como Madrid, e mesmo a junta de santiago de Compostela, deixem decorrer as coisas com naturalidade! O quadro de 1640 acabou! Portugal e Espanha são dois Estados peninsulares independentes e reconhecidos na ONU, mas porque é que se tem de impor um único idioma a uma região que, de todo, dele diverge, até pela proximidade evidente com todo o Norte de Portugal? Não é chocante uma normalização linguística que, para não fazer cócegas a Madrid, ou a Lisboa,acaba por se descaracterizar, conduzindo à degeneração do falar e das tradições genuínas, Senhores, do Noroeste peninsular? Apenas estas notas para reflexão. Grato pela atenção! Rochinha, Lisboa.

  29. nao e possivel que en este thread se este a dezir que galego e portugues sao dois lenguas diferentes e as dois sejan utilizadas para discutir sobre isso sem nengun problema de entendimento

  30. oi tem alguem ai?

    o não mais não, minha cessão já acabou? espero não convucionar dessa vez sera que isso é normal? se isso for normal eu sinto que estou doente e acordando facilmente e assim consigo enxergando o estado do meu corpo.

    Gustavo

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